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Os significantes de Machado de Assis na leitura de Bressane

A Erva do Rato, 'sugerido' pelo escritor, superpõe à sua máscara literária a pesquisa pictórica do cineasta

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de São Paulo,

26 de junho de 2009 | 12h19

Houve uma reação ambígua no Festival de Veneza em relação a A Erva do Rato. A plateia sentiu-se perturbada, em especial nas cenas "eróticas". A se julgar pela repercussão, elas foram consideradas fortes demais. Ou exóticas em excesso para o gosto europeu. E assim se deu a repercussão na imprensa, tendendo mais ao sensacionalismo que ao esclarecimento.

 

Veja também:

Trailer de 'A Erva do Rato' video

 

Com algumas exceções, como a do jornal La Stampa, que deu matéria de meia página, discutindo a proposta do diretor e perguntando por que um filme como aquele não estava na competição principal - Bressane passou na mostra Horizontes, dedicada a obras "mais experimentais". Há pouco, A Erva do Rato estreou na França e ganhou uma página nos Cahiers du Cinéma. Enfim, a obra de Bressane começou a ser reconhecida - na Europa.

 

Talvez o seja menos no Brasil. Apesar de considerado um mestre e queridinho de parte da crítica, ainda é tido como hermético, incompreensível e, condenação absoluta, "chato". O que existe de verdade nisso tudo é que Bressane faz um cinema inventivo e repleto de referências - o que não deveria ser um mal em si. Pelo contrário. Num mundo melhor as pessoas deveriam se sentir estimuladas pelos desafios contidos numa obra original. Não é assim, e o "mais do mesmo" impôs-se.

 

Bressane consegue ser inovador mesmo ao adaptar obras clássicas. E "adaptar", aqui, deveria vir assim, entre aspas, pois o que ele faz é menos uma versão em imagens da obra literária do que uma interpretação radicalmente pessoal daquilo que leu. No caso, dois contos de Machado de Assis, A Causa Secreta e Um Esqueleto, que funde num terceiro elemento, o filme.

 

Nele, Selton Mello e Alessandra Negrini formam o casal que procura manter a paixão sensual em nível alto através de alguns expedientes. Ele tira fotos eróticas. Depois, descobre que as fotografias foram roídas por um rato. Na relação a dois, entra um terceiro elemento. Talvez um quarto, como poderá se ver. Desses fragmentos, Bressane tira uma instigante reflexão sobre o amor, a morte, e a relação, mais próxima do que se imagina, entre um e outra. A concepção visual do filme, fotografado por Walter Carvalho, é rigorosa, de pintor. Consciente das cores e dos volumes.

 

Serviço

 

A Erva do Rato (Brasil/2008, 80 min.) - Drama. Dir. Júlio Bressane. 18 anos. Cotação: Ótimo

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