"Os Produtores", um espetáculo nas telas

Primeiro, foi um filme, Primavera para Hitler. Depois, um musical da Broadway, The Producers. Agora, é um "filme-musical da Broadway", Os Produtores. Quem garante que amanhã não será uma animação com massa de modelar? Mel Brooks não perde a piada, mas ele não participou da rodada de entrevistas realizada num hotel de Manhattan, em novembro. Brooks ainda não superou a depressão provocada pela morte de sua companheira durante 40 anos, a grande atriz Anne Bancroft. Mas ele adorou o filme que a ex-coreógrafa Susan Stroman adaptou do musical que ela própria dirigiu no palco - e com o mesmo elenco original com que agora chega ao cinema, com exceção de Uma Thurman. Susan, Matthew Broderick, Nathan Lane, os três participaram dos encontros com jornalistas de todo o mundo. Ninguém foi mais divertido do que Will Ferrell, que faz o nazista da história. O cara é impagável. O bom é que você pode comparar o Primavera para Hitler original, de Mel Brooks, voltando esta semana aos cinemas de São Paulo, e o musical Os Produtores, que estréia amanhã em todo o País. Em 1968 (há 37 anos!), Mel Brooks ganhou o Oscar de roteiro original logo na sua estréia no cinema. O filme, lançado no Brasil como Aprenda a Perder Dinheiro ou Primavera para Hitler, criou um novo estilo de humor - violento e demolidor. Agora, somente como Primavera para Hitler, está de volta para aproveitar a publicidade produzida pelo lançamento do musical de Susan Stroman - que poderá ser um dos selecionados para o próximo Oscar, cujos finalistas a Academia de Hollywood anuncia em janeiro. O primeiro encontro com Mel Brooks a gente não esquece. A diretora jura que nunca esquecerá o dela. Susan já havia recebido vários Tonys (o Oscar do teatro) quando foi informada de que Brooks queria falar com ela. Na época, já sabia que Primavera para Hitler ia virar musical. Brooks chegou à sua casa na hora marcada. Entrou pelo apartamento sem sequer cumprimentá-la, cantando a plenos pulmões a canção That Face, que abre o segundo ato da peça. Só depois disse "Olá, eu sou Mel Brooks". Na hora, Susan pensou - "Não importa o que aconteça com esse show. Vai ser uma grande aventura para mim." E foi. Da consagração na Broadway, Os Produtores saltou para o cinema, na onda do sucesso renovado do musical que, como uma fênix, ressurgiu das próprias cinzas, graças a títulos como Moulin Rouge, de Baz Luhrmann, e Chicago, de Rob Marshall. "Ação!" e, depois, "Corta!"Trabalhar numa nova mídia não assustou a diretora. "Mel me ensinou tudo o que precisava. Ele disse que eu tinha de gritar "Ação!" e, depois, "Corta!". Se invertesse a ordem, não haveria filme." Piadas à parte, Susan sabe que deve muito a Mel Brooks - "Seus filmes são clássicos do humor inteligente." O que mais a atraiu em Os Produtores, show e filme, foi justamente a idéia de trabalhar sobre o kitsch e o mau gosto. "O musical clássico construía-se sobre noções de elegância e bom gosto, com diretores como Vincente Minnelli, George Cukor e Stanley Donen. Nós fomos ao oposto - de que outra maneira tratar visualmente um musical chamado Primavera para Hitler?" Na trama de Os Produtores, o outrora talentoso e hoje decadente Max Bialystock descobre, graças ao contador Leo Bloom, que é possível ganhar mais dinheiro produzindo um grande fracasso do que um grande sucesso na Broadway. Com a cumplicidade de Bloom, a quem promete transformar em produtor, ele faz tudo certo para produzir o pior show de todos os tempos - escolhe o pior texto, o pior diretor, os piores atores. Contra todas as previsões, Primavera para Hitler vira o favorito do público e dos críticos. Graças às falcatruas que armaram, Bialystock e Bloom vão parar na cadeia, de onde o segundo foge para desfrutar o dinheiro roubado no Rio. Não é um insulto com o Brasil? "Oh, não", diz Susan Stroman. "Queríamos uma cidade tropical, linda, que fosse bem diferente de Nova York. O Rio é o paraíso para qualquer pessoa, não falo necessariamente em ladrões, se bem que tenha ouvido algumas histórias." E ela arremata, sorrindo - "Eu própria roubaria, se só desta maneira pudesse realizar o sonho de ir ao Rio, para o carnaval." Os alemães também não vão se sentir ofendidos? Afinal, nazismo, Adolf Hitler, tudo muito ridículo e kitsch. "Mas como poderiam se sentir ofendidos? Só se permaneceram nazistas de coração", ela diz. O que foi mais difícil, na passagem do palco para a tela? "A escala - tudo ficou maior no cinema. Mais figurantes, mais dançarinos, mais espaço para a movimentação de câmera." Matthew Broderick e Nathan Lane repetem os papéis de Bloom e Bialystock, que criaram na Broadway. No palco e na tela, são ótimos. Ao vivo, decepcionam. Dão a entrevista juntos, cada um mais desinteressado do que o outro. Broderick diz que o chato do filme é a espera no set. "No teatro, é como ser arremessado num canhão. O filme demora três meses para ser rodado. Quando você engrena, a diretora grita "corta!". Mas trabalhamos num clima de grande camaradagem e profissionalismo." Como Uma Thurman não pôde participar dos encontros, a diretora falou por ela - "O fato de haver feito antes Kill Bill deu-lhe preparo físico para se soltar nas cenas de canto e dança." Will Ferrell adorou seu personagem, o autor da peça dentro do filme. "Veja que até os pombos que Franz Liebkind cria usam a saudação nazista." Ferrell, que nunca cantou e dançou em cena, tinha medo de parecer ridículo. "Depois percebi que o ridículo era necessário. E sou um grande fã do filme original. Mel Brooks é uma das minhas bíblias do humor", ele define. Os Produtores (134 min.). 12 anos. Cotação: Bom Primavera para Hitler (88 min.). Livre. Cotação: ÓtimoO repórter viajou a convite da distribuidora Columbia

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