Tony Cenicola/The New York Times
Tony Cenicola/The New York Times

Os ‘poderia’ e ‘deveria’ de Burt Reynolds

Ator e 82 anos fala de seu novo filme, dirigido por Adam Rifkin, e de sua carreira

Entrevista com

Burt Reynolds

Kathryn Shattuck, The New York Times

24 Abril 2018 | 12h30

Após 60 anos fazendo cinema – cinco deles, de 1978 e 1982, como campeão de bilheteria dos Estados Unidos –, Burt Reynolds deveria ser um livro aberto. Seus pecados, proezas e romances, seu peito cabeludo, foram tão exaustivamente comentados que nada mais sobre ele deveria surpreender (pelo menos, tão tanto quanto aquelas famosas páginas centrais de nudez da Cosmopolitan, em 1972).

Mas The Last Movie Star, escrito e dirigido por Adam Rifkin, um filme sobre a glória que se finda, amores perdidos e arrependimento, criado especialmente para Reynolds, faz exatamente isso.

Reynolds é Vic Edwards, um quase esquecido ícone da tela que recebe uma homenagem pelo conjunto da obra a ser concedida um suposto grande festival de cinema de Nashville, no qual já teriam sido homenageados astros como Robert De Niro. Mas, em vez disso, o que o espera são péssimas acomodações, uma motorista desbocada e tatuada, Lil (Ariel Winter, de Modern Family) e um encontro com fãs locais meio caipiras. Vic não está nada satisfeito.

Entretanto, ao voltar, no caminho para o aeroporto bate nele um forte desejo de visitar sua cidade natal, Knoxville, no Tennessee. E ele começa a mergulhar lentamente nas memórias, com uma relutante Lil a seu lado. 

“Eu ouvi dizer que ele não faria o filme se não fosse comigo, e isso meio que me amararou ao projeto”, disse Reynolds sobre Rifkin. “Mas gostei. Foi muito diferente de tudo que já fiz. Não há batidas de carro, garotas, essas coisas.”

Saindo de Valhalla, sua propriedade em Jupiter, Flórida, Reynolds, de 82 anos, esteve no New York Times acompanhado de seu entourage antes de assistir a uma retrospectiva de sua carreira no Metrograph, no centro de Manhattan. Com o corpo castigado por anos de trabalhos arriscados (atuava às vezes como um dublê), ele caminha com a ajuda de uma elegante bengala, mantendo o tradicional carisma e fazendo piadas. 

Adam Rifkin retratou bem você no roteiro?

Não sei. Estou atuando há 60 anos e não sei mais quem diabos sou eu. Mas acho que ele fez um ótimo trabalho. O personagem é um tipo comum que se julgava um astro de cinema, mas isso acabou. Ele agora vive uma série de altos e baixos na qual se dá conta de que não é mais um astro. Aí começa a vagar pelos guetos e ruas e se enturma com um bando de pés-rapados, que é o que ele também é. 

Um tipo meio cordial, meio canalha. 

Acho que tenho que ser um pouco canalha, porque se não for as pessoas ficarão desapontadas (risos). É bom rir um pouco, certo? Nunca me levei muito a sério acho que quem se leva não bate bem. É por isso que moro na Flórida. 

Vic e a Lil de Ariel Winter vivem se estranhando. Como foi trabalhar com ela? 

Ela começou tentando ser durona. Seu linguajar era atroz. Não gostei. Chamei-a de lado e disse: “Ariel, posso garantir que Sally (Field) não fala assim. Você também não precisa falar. Isso não leva a nada e ainda me agride. Estou no meio de uma cena e você fala “f...”. Não precisamos disso. Tente ficar alguns dias sem falar f...” Ela não falou mais e fiquei muito orgulhoso dela. 

Qual a diferença entre você ser um astro agora e no auge de sua carreira?

Nos anos 1970, as pesssoas (na indústria cinematográfica) protegiam mais você. “ Aonde você vai hoje à noite?, perguntavam. “Vou jantar com minha mulher.” “Onde?” “Não vou dizer.” Mas acabava dizendo e lá estavam eles, duas mesas adiante. Agora ninguém nos protege. Se eu fosse durão como pareço nos filmes, não precisaria me preocupar. Mas há uns 20 anos não sei o que são duas horas sem sentir nenhuma dor. 

Existe algum ator hoje que o lembre de como você era?

George Clooney. Ele tem uma aura de bom cara, recebe bem você no set de filmagem, o que também sempre fiz. E parece dizer “vamos fazer um filme que não sei se será bom ou ruim, mas vamos fazer nos divertindo”. 

Você disse muitas vezes que deixou Sally escapar. Alguma vez tentou trazê-la de volta? 

Tenho medo de que se convidá-la para sair ela vá rir e desligar o telefone. Joanne Woodward, minha amiga, uma vez me disse: “Que diabos acontece com você? Por que não vai à casa dela, fica de joelhos e pede para serem amigos?”. E eu: “Não posso fazer isso. E se ela bater a porta na minha cara?”. Ao que ela respondeu: “Eu bati duas vezes a porta na cara de Paul (Newman, seu marido) e ele voltou”. 

O filme põe seu personagem em cenas de seus próprios filmes, como Agarra-me se Puderes. Isso não o faz lembrar de seus dias de sex symbol, daquela página central...?

Você faz tolices. Queria não ter feito, mas fiz. Mas acredito que dei a volta por cima. Ou não dei, não sei. Mas continuo aqui ( cantarola um verso de I’m Still Here).

Nas noites de sexta-feira, você dá aulas de representação na Flórida.

É uma loucura. A idade dos alunos vai de 18 a 80 anos. A que tem 80 já dançou profissionalmente e deve ter sido um arraso, porque ainda é muito sexy. Eu me divirto muito com ela. 

Você ainda trabalha em muitos filmes. Não é hora de baixar a bola?

Não sei por que acho isto, mas talvez meu melhor trabalho ainda esteja por vir. Quero fazer algo que não seja dirigir um carro ou caminhão. Algo que as pessoas não esperem que eu faça. Talvez um homem em busca de si mesmo. 

Você agora é tema de retrospectivas. Gosta disso? 

Às vezes é divertido, mas às vezes fico surpreso com a raiva de alguns. Me dá vontade de dizer “se você acha que é assim tão fácil, por que não vai lá fazer e eu fico aqui assistindo e fazendo perguntas idiotas?”.

Você é famoso por recusar papéis de James Bond e Han Solo para continuar fazendo filmes de ação, alguns deles, fracassos. Por quê?

Eu era bom em filmes de ação. Gostava de dar uma de dublê, o que era realmente perigoso – como montar num cavalo ou num touro descontrolado, ou saltar de prédios. Adorava. 

Há algum papel que lamenta não ter feito? 

Sim, recusei vários filmes que Jack (Nicholson) acabou fazendo de modo brilhante, como eu não poderia ter feito. Um filme em especial que gostaria de ter feito é Laços de Ternura.

De que filme você mais se orgulha?

Me orgulho de Amargo Pesadelo porque foi um filme muito perigoso de se fazer. Diziam até que não poderia ser feito, mas fizemos. Jon Voight eu somos hoje como irmãos.

Consta que você nunca viu até o fim Boogie Nights – Prazer sem Limites, de Paul Thomas Anderson, que no entanto lhe valeu uma indicação para o Oscar e um Globo de Ouro.

Não gosto desse filme. O tema não me agrada (a indústria pornográfica). O filme foi um sucesso, mas meus amigos não puderam assistir. 

Você ainda espera um Oscar?

Não, por Deus, mas espero ainda fazer algo que a indústria reconheça como um bom trabalho. Minha carreira foi estranha. Sou um velho. Há atores que adoro, como Voight e (já mortos) Brian Keith e Charlie Durning. Meu Deus, como eu gostava de Charlie. Parece que estou perdendo um amigo por semana. Gostaria de fazer algo que pudéssemos comemorar juntos. 

Você já encontrou seu estilo?

O que sei é que o atual ainda não é ele. Quando encontrar vou saber, e aí te aviso.

Num perfil na Vanity Fair, em 2015, você disse que tinha alguns arrependimentos.

Eu disse, mas não sobrou nenhum.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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