"Os Narradores de Javé" empolga Roterdã

Salas cheias e muita atenção no que se passa na tela. A reação tem sido a mesma em todas as sessões programadas para Os Narradores de Javé, da paulistana Eliane Caffé, o único longa-metragem brasileiro a competir por um prêmio no Festival de Roterdã. O filme, que disputa com 13 outros títulos pelo Prêmio Tiger numa seção destinada a cineastas estreantes ou em seu segundo trabalho, tem despertado a curiosidade holandesa sobre uma cinematografia que nos últimos anos produziu obras de repercussão internacional, como Central do Brasil e Cidade de Deus. O resultado do evento será conhecido no domingo. Eliane, que chegou à cidade na sexta-feira e desde a primeira projeção do filme, no sábado, não pára de dar entrevistas, está satisfeita com a resposta de Os Narradores de Javé em Roterdã. Mas reconhece que as especificidades da história, sobre uma pequena comunidade do interior da Bahia, podem comprometer a compreensão de uma platéia de língua estrangeira. A produção, que recebeu financiamento do Hubert Bals Fund (fundo de incentivo a novos cineastas, ligado ao festival) tem distribuição da Riofilme, chega aos cinemas brasileiros a partir de maio. "Não sei como decifrar a reação do público aqui. Senti muita concentração, mas creio que o fato de o filme ter muitos diálogos faz com que a tradução das legendas acabe simplificando muito e tire muito das nuanças e brincadeiras com as palavras, que é o forte da história", diz a diretora, que estreou na bitola 35 mm com Kenoma (1999). "Não vejo a hora de exibir o filme no Brasil. Mas, aqui, é como se estivesse na ante sala do lugar de nascimento. Sinto saudades de nosso público e da forma direta de comunicação com a realidade que o filme representa. Roterdã, apesar de tudo, tem sido bastante acolhedor." Os Narradores de Javé foi produzido por Vânia Catani, da Bananeira Filmes, produtora mineira radicada no Rio. É estrelado por José Dumont (que também trabalhou em Kenoma), que interpreta um funcionário da única agência de correio da cidadezinha de Javé. A agência está ameaçada de fechar porque os habitantes da cidade perderam o hábito de escrever. Numa tentativa de conservar o emprego, o sujeito passa a escrever cartas para outras cidades, nas quais inventa histórias sobre os moradores de Javé. Estes ficam revoltados com a iniciativa do escrivinhador de histórias. Mas quando Javé é ameaçada pela construção de uma barragem, a população recorre ao funcionário do correio para colocar no papel a história de sua criação e de sua formação, para que ela fique para a posteridade. O problema é que cada narrador tem uma visão muito particular dos fatos, privilegiando a sua atuação neles. O roteiro foi escrito por Eliane em parceria com Luiz Aberto de Abreu, colaborador da cineasta em Kenoma. O filme foi rodado entre junho e setembro de 2001 em Gameleira da Lapa, no interior da Bahia. O elenco ainda conta com as participações de Matheus Nachtergaele, Gero Camilo, Rui Rezende e Nelson Xavier. Rumo à Suécia - As sessões de Os Narradores de Javé em Roterdã têm sido apresentadas por Simon Field, um dos diretores do evento holandês. Além de Eliane, Vânia Cattani e José Dumont integram a pequena comissão que veio acompanhar as projeções no festival. Os brasileiros se comunicam com a platéia com a ajuda de um tradutor. Mas Eliane é quem mais se ocupa com a curiosidade imprensa escrita e televisionada local. "As perguntas das entrevistas giram em torno de como foi que nasceu a idéia do filme, sobre a presença dos contadores de histórias em nossa cultura, sobre o Brasil rural, sobre o caráter de improvisação entre os atores profissionais e as pessoas da comunidade que atuaram no filme", conta Eliane, que depois de Roterdã ruma para Göteborg, na Suécia, para participar do festival de cinema local, onde Os Narradores de Javé continua sua carreira internacional.

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