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Os melhores filmes feitos por Robert Altman nos anos 1970 são reunidos em box

'A Arte de Robert Altman' traz dois DVDs com versões restauradas 'O Perigoso Adeus', 'Renegados Até a Última Rajada' e 'Três Mulheres'

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2015 | 05h00

A Arte de Robert Altman é o título do novo digistack, com dois DVDs, contendo versões restauradas de três filmes de Altman e mais um documentário sobre o diretor. Os filmes são todos dos anos 1970 - O Perigoso Adeus (1973), Renegados Até a Última Rajada (1974) e Três Mulheres (1977). De uma forma ou de outra, e cada qual à sua maneira, todos testemunham a originalidade de Altman.

A começar por aquele que poderia ser o mais comercial entre eles, O Perigoso Adeus, adaptado da obra The Long Goodbye, de Raymond Chandler. Como se sabe, Altman mostrava reservas a mais uma adaptação de Chandler, matriz literária de À Beira do Abismo, de Howard Hawks, com Humphrey Bogart inesquecível no papel de Marlowe e Lauren Bacall como emblema da femme fatale. Enfim, o filme de Hawks é um protótipo do film noir e Altman não queria repetir o que outros haviam feito, e muito bem. Autores, dignos deste nome, gostam de inovar.

Ele mesmo conta que tudo mudou quando lhe propuseram o nome de Elliott Gould para interpretar Philip Marlowe. Com Gould, Marlowe poderia ganhar contorno diferente daquele criado por Bogart e sua marcante personalidade. Poderia ser mais frágil, mais ambíguo, menos machão. A história, enfim, teria a ganhar com essa ambivalência e é, de fato, o que acontece. A trama é genial. O detetive particular Marlowe tenta ajudar um amigo acusado de matar a esposa e vai se enredando numa história progressivamente complicada, na qual é difícil saber quem é quem.

Dizem os especialistas que The Long Goodbye é o melhor livro de Chandler (há uma versão nova na praça, traduzida por Braulio Tavares) e, de fato, o enredo arrasta o leitor por uma prosa alucinante. Altman enfrenta essa complexidade sem qualquer receio e ainda propõe um final radicalmente diferente daquele do original. Tinha topete esse Altman, hein?

Experimental. Renegados Até a Última Rajada tem uma curiosidade prévia. É baseado no mesmo romance filmado por Nicholas Ray no cult Amarga Esperança. É a história de três assassinos condenados que escapam da prisão e dão início a uma série de assaltos a banco. O interessante é o love story que nasce entre um dos bandidos, vivido por Keith Carradine, e a moçoila interpretada por Shelley Duvall. Intenso, cheio de ritmo e ação, é perfeito exemplar do cinema ritmado de Altman, um cultor do jazz. 

O livro em que se inspira o filme, Thieves Like Us (Ladrões como Nós, literalmente), dera origem a Live by the Night, de Nicholas Ray, sua estreia na direção. Consta que Altman nada sabia a respeito e só veio a tomar conhecimento da existência desse filme prévio quando o seu já estava engatado em pré-produção. De qualquer forma, Renegados Até a Última Rajada fica sendo o “Bonnie & Clyde” de Altman, sua leitura do amor bandido entre o fugitivo Bowie (Carradine) e a enfermeira Keechie (Duvall), no qual interessa muito mais as nuances do relacionamento do que as cenas de ação. 

Dos filmes integrantes da caixa, o mais experimental é Três Mulheres. Parece um filme-sonho, inspira-se em Persona, de Ingmar Bergman e pode ser tido como precursor dos trabalhos de David Lynch. Ele começa em tom realista e vai, aos poucos, adentrando o clima fantástico que acabará por se impor. No início, vemos a novata Pinky (Sissy Spacek) chegando a uma clínica de idosos para começar novo trabalho. Ela será orientada pela veterana do lugar, Millie (Shelley Duvall). Logo, as duas se tornam amigas. Resolvem dividir um apartamento para economizar. A entrada de uma terceira mulher em cena, Willie (Janice Rule), precipita estranhos acontecimentos.

Existe toda uma mitologia em torno deste filme cult. Conta-se (ele próprio o conta) que Altman sonhou com Três Mulheres numa noite em que sua própria esposa estava no hospital e ele dormia, preocupado, em casa. Desse modo se explica que, pouco a pouco, a trama comece a afrouxar seus nexos lógicos e afunde em clima crescente de pesadelo. A imagem onírica maior é a de Willie, a misteriosa pintora de imagens de mulheres-lagartos. 

Há, por outro lado, essa ideia dominante da troca de personalidades, que está na base de Persona, um dos mais instigantes filmes de Bergman. A tímida e insegura Pinky, por exemplo, vai adquirindo traços de personalidade da impositiva Millie, até que os papéis se invertam, em relação quase simétrica. Existe uma sequência de grande estranheza, quando Pinky, doente, não reconhece o casal de idosos que se apresenta como seus pais, na visita no hospital. Há algo aí, como uma zona de sombras, na qual a identidade própria é questionada e problematizada. São preocupações mais cabíveis num europeu intelectualizado do que num diretor norte-americano. Mas, como dizia o próprio Altman: “Filmar é minha chance de viver várias vidas”. Em seu caso, viveu todas elas com plenitude. 

A ARTE DE ROBERT ALTMAN

Distribuidora: Versátil 

(box com dois DVDs; R$ 69,90) 

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