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Os melhores discursos de agradecimento da temporada de premiações no cinema

De Jodie Foster, de pijama, ao choro espontâneo de Alan S. Kim, astro mirim do filme ‘Minari’, veja quem conseguiu dizer, mesmo de casa, uma bela fala de agradecimento

Kyle Buchanan, The New York Times

24 de abril de 2021 | 05h00

Mesmo no melhor dos tempos, fazer um discurso de aceitação de um prêmio não é coisa fácil. Esse é o momento mais visto da sua carreira, você está condenado a esquecer o nome de alguém que ama e está a poucos metros de uma orquestra rápida no gatilho treinada para atirar como um pelotão de fuzilamento.

Mas o lado positivo é importante. Se proferir um discurso maravilhoso no Globo de Ouro, isso pode levar a premiações subsequentes, potencialmente conquistando outros eleitores que talvez o escolham em parte por causa daquele discurso. E alguns discursos até superam as próprias atuações: quando você lembra de Jack Palance em Amigos, Sempre Amigos, sua flexão de braço no palco do Oscar provavelmente virá à sua mente antes de qualquer piada do filme.

Tudo isso para dizer que a arte do discurso de aceitação é muito mais complicada durante uma pandemia, quando os filmes estão online e os vencedores têm de direcionar seu entusiasmo para o olho impassível da sua webcam – tarefa um pouco similar à de se apresentar num clube vazio. Não há nenhuma multidão para carregá-lo, rir ou aplaudir sua atuação.

Mas alguns artistas conseguiram tirar o máximo disso. Abaixo, seis pessoas que conseguiram extrair níveis inesperados de emoção e humor de um formato remoto praticamente destinado a destruir todas essas coisas boas.

 

Yuh-Jung Youn – Bafta Awards

Bem-vinda ao palco... Yuh-Jung Youn, comediante especialista em fritadas? A atriz de 73 anos talvez esteja perto de conquistar o Oscar de melhor atriz coadjuvante por seu desempenho em Minari, mas, se Youn estivesse procurando fazer alguma outra coisa em tempos de pandemia, ela poderia facilmente seguir uma segunda profissão de comediante no Zoom.

Como prova, não é preciso ir mais além da entrega dos prêmios Bafta, há duas semanas, quando a atriz, surpresa, derrotou o resto da sua categoria e declarou: “Estou muito honrada em ter sido indicada – não, não indicada. Sou a vencedora!”. Depois de oferecer suas condolências aos eleitores do Bafta pela morte recente do príncipe Philip, Youn prosseguiu, afirmando que “todo prêmio é importante, mas este é especialmente importante, reconhecido por pessoas britânicas, conhecidas como muito esnobes”.

O apresentador David Oyelowo riu às gargalhadas: ela disse isso? Foi um eco delicioso da personagem de Youn em Minari, franco, mas encantador. Poucas pessoas ousariam participar de uma premiação e alfinetar os eleitores na cara, mas agora que ela conseguiu fazer isso tão bem, nós, como sociedade, finalmente progredimos e não precisamos mais de Ricky Gervais nas premiações?

 

Jodie Foster, Globo de Ouro

Folheei pastas do Architectural Digest, assisti a vídeos da Vogue.com e examinei feeds do Instagram para saber que muitas celebridades vivem no que poderia ser descrito como mausoléus luxuosos. Sim, o dinheiro pode ajudar a comprar uma ilha de cozinha de mármore branco do tamanho da França, mas tal estilo de vida insípido e polido dos ricaços oferece a verdadeira felicidade?

Foi isso que me deixou surpreso quando Jodie Foster conquistou seu Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante por The Mauritanian. Ela não esperava vencer e eu não esperava que ela mostrasse uma tal visão caseira de felicidade doméstica. Foster e sua mulher, Alexandra Hedison, aceitaram o prêmio esparramadas no seu sofá onde estavam felizes, envoltas nos seus pijamas. Elas riram, vibraram, abraçaram seu cachorro. É o que eu também faço durante esses shows de premiação.

Obrigada a improvisar um discurso, Jodie Foster começou agradecendo sua mulher, Ziggy e Aaron Rodgers – uma lista aleatória de citações muito melhor do que se tivesse lido de uma página escrita –, lembrando que Ziggy é o cachorro de Jodie e Rodgers é um quarterback da NFL e âncora do programa Jeopardy, que namora Shailene Woodley no filme The Mauritanian. Mas a maior tirada de Jodie foi: depois de uma vida tumultuada e de um discurso torturado na cerimônia do Globo de Ouro há algumas décadas, Foster tem agora 58 anos e está feliz. Saber o quão duramente foi ter ganhado isso parece mais importante que o prêmio de fato.

 

Lee Isaac Chung – Globo de Ouro

Há dois anos, numa cerimônia do Oscar, eu estava ilhado no balcão superior do teatro, sentado ao lado da mãe e do irmão gêmeo de Rami Malek. Embora Malek tenha feito menção a eles no seu discurso de aceitação do Oscar de melhor ator pelo filme Bohemian Rhapsody, ele precisaria de um telescópio para realmente ver a família do palco. Eis uma das poucas vantagens que a temporada de prêmios pelo Zoom oferece: os entes queridos do vencedor estão ao seu lado e a reação deles é o que mais importa.

Quando o diretor de Minari, Lee Isaac Chung, conquistou o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira, sua filha mais jovem saltou em seus braços. “Eu rezei”, disse ela, emocionada com a vitória do pai. “Esta menina foi a razão de eu realizar este filme”, disse Chung. E agora, por causa de um ano confuso e louco, ela participa de um doce momento que nós dois sempre compartilharemos.

 

Chloé Zhao, DGA Awards

A diretora de Nomadland, Chloé Zhao, conquistou quase todos os prêmios de direção na temporada e se habituou a usar seus discursos para agradecer às pessoas que a ajudaram a torná-lo realidade e às que estrelaram o filme. Ela falou sobre como Minari a tocou num nível pessoal; e chamou Sorkin, que dirigiu o filme Os 7 de Chicago, de poeta.

Ao elogiar as virtudes do diretor de Mank, David Fincher, Zhao se inclinou para ele: “Seu filme é uma master class”, disse. “Todos os seus filmes são.” Generoso e elegante, o elogio de Zhao foi um lembrete de que a temporada de premiações não precisa ser uma competição, mas sim uma celebração.

 

Simone Ledward Boseman – Gotham Awards

No raro evento de uma vitória póstuma, o troféu normalmente é recebido pelo apresentador ou diretor do filme. Mas, em toda essa temporada, muitos dos prêmios concedidos a Chadwick Boseman, pelo seu papel em A Voz Suprema do Blues, foram recebidos pela viúva do ator.

Simone Ledward Boseman fez seu primeiro e comovedor discurso na cerimônia do Gotham Awards em janeiro, quando apareceu em vídeo depois de um tributo ao ator. “Tenho a honra de receber o prêmio em nome do meu marido, um reconhecimento não só do seu profundo trabalho, mas do seu impacto sobre o setor e este mundo”, disse ela, tentando, com uma graça admirável, manter o autocontrole.

Depois, em vez de se dirigir aos eleitores, ela começou a falar para o marido falecido: “Chad, obrigada”, disse Ledward com uma voz trêmula. “Eu o amo. Estou muito orgulhosa de você. Continue nos iluminando com sua luz.”

 

Alan S. Kim – Critics’ Choice Awards

Quando o astro de Minari, Alan S. Kim, conquistou o prêmio de melhor ator mirim, o garoto de oito anos abriu uma lista de agradecimentos com o ímpeto de um ator mirim. Mas então veio a surpresa: “Oh meu Deus, estou chorando”, disse ele. E, quanto mais falava, mais chorava. “Espero estar em outros filmes”, disse finalmente, lágrimas caindo, antes de se agachar e murmurar “será que isto é um sonho? Espero que não”.

Veja, às vezes tenho reservas com atores mirins. É ético fazer uma pessoa tão jovem ganhar a vida profissionalmente? Não a forçamos a crescer rápido demais? Mas Kim, em seu smoking miniatura, abandonou o seu profissionalismo adulto antes do tempo e simplesmente chorou como qualquer criança o faria ao receber um presente maravilhoso. Foi surpreendente, autêntico e comovente. No que diz respeito a discursos em premiações, você não pode pedir mais do que isto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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