'Os Maias' usa o artifício para ser mais verdadeiro

João Botelho explica o conceito que norteou sua adaptação do romance de Eça

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2015 | 04h00

É a nova invasão portuguesa do Brasil. Cinco séculos após o Descobrimento, a força-tarefa instala-se nos cinemas. Deve ser mera coincidência, mas, considerando-se que ambos os filmes têm o mesmo perfil ‘de arte’, pode até ser intencional. Com As Mil e Uma Noites – Volume 1: O Inquieto, de Miguel Gomes, estreia também Os Maias – Cenas da Vida Romântica, de João Botelho. A trilogia inspirada nos contos de Sherazade foi destaque na Mostra deste ano. O longa baseado no romance de Eça de Queirós, no ano passado. Lançado na sequência em, Portugal, Os Maias foi a maior bilheteria de 2014 no país – 150 mil espectadores. “O número pode parecer pequeno para vocês, mas é imenso para a realidade do cinema português”, diz o diretor Botelho. Ele está no Brasil – no Rio – para o lançamento. Conversou com o repórter pelo telefone.

Além do sucesso de público e crítica, Botelho comemora mais uma coisa – “Os Maias levou o público adulto de volta às salas. Hoje em dia, só os jovens vão ao cinema. Meu filme provocou esse fenômeno estranho. Os mais jovens, como que atraídos pela memória dos tempos, foram conferir o tratamento dado a uma das obras-primas da língua”. Botelho não deixa por menos. Alguém o contestará, invocando Os Lusíadas, de Camões, como o monumento das letras de Portugal. Ele discorda – “Eça é o segundo maior escritor da língua portuguesa. O primeiro é o vosso Machado de Assis”. Eram amigos e ciumentos. Rivais. Cada um ciente do seu gênio.

Antes de Os Maias do diretor português, houve a versão brasileira de Luiz Fernando Carvalho, na TV Globo, mas Botelho não consegue ser muito efusivo. “É muito cuidada, muito bonita, mas, para mim, tem um handicap. A linguagem televisiva empobrece. Todos aqueles planos próximos, a câmera sempre grudada na cara dos atores.” Ao se decidir por Os Maias, depois de Filme do Desassossego, dedicado a Fernando Pessoa, Botelho decidiu que o desafio não seria só contar, condensar a história, mas como fazê-lo. Optou pelo artifício, como na ópera. “Nada de naturalismo. Não existe mentira maior que na ópera. Cenários pintados, sopranos gordas de mais de 100 quilos, mas quando elas cantam você é transportado a um outro mundo e tudo fica maravilhoso”, ele resume.

 

Os Maias nasceu dessa artificialidade buscada e intencional. “O romance é duro, sarcástico, violento. A história é de incesto, mas o tema já é a derrocada da sociedade portuguesa. Há cem anos, Eça já fazia um banqueiro perguntar-se para que serve o governo? Para roubar e contrair dívidas. Cem anos depois, a situação não mudou e, se mudou, foi para pior.” O incesto, tabu em todas as sociedades, é tratado de forma provocativa. “Para a moral vigente, o natural seria Carlos se estourar os miolos com um tiro. Maria Eduarda casa-se, ele vai passear seu tédio pelo mundo. Nenhuma culpa. A vida segue.” Ele tentou levar a provocação adiante. Em vez de uma Maria Eduarda sexy, escolheu Maria Flor. “Se fosse um mulherão, seria, talvez, inevitável. O fato de ela ser essa coisinha delicada, menos fatal, potencializa a transgressão.”

A atriz, o engenheiro de som – Jorge Saldanha – são brasileiros. “Jorge trabalhou com os maiores de vocês. Nelson Pereira, Glauber (Rocha).” Cinema, para ele, é luz, sombra e seres humanos aflitos. Botelho admite sua dívida com o Cinema Novo. “Os 110 planos de Antônio das Mortes (O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro) me marcaram a ferro e fogo.” O próximo filme será um documentário sobre Manoel de Oliveira. E, ah, sim, ele gostou de As Mil e Uma Noites, especialmente do Volume 2. Diz que ama o cinemas português. E explica por que é tão bom. “Não sofremos pressão do mercado.”

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