'Os Inquilinos': perigo mora no puxadinho ao lado

Família da periferia paulistana vê sua rotina transfomada com a chegada de novos, e violentos, vizinhos

Flavia Guerra, de O Estado de S. Paulo,

25 Fevereiro 2010 | 15h39

"Quis fazer um filme de atores e contar a história de gente comum", diz Bianchi. Foto: JF Diório/AE

 

É possível dizer que Os Inquilinos é o primeiro filme não panfletário de Sérgio Bianchi. Quem pensa que o diretor, famoso por sua língua ferina e sagaz, sente-se incomodado ao ouvir tal afirmação engana-se. "Cansei de fazer panfleto, apesar de achar que foi necessário. Era a única forma de dizer o que queria", responde Bianchi.

VEJA TAMBÉM:
Veja trailer de 'Os Inquilinos'
Leia crítica sobre o filme 'Os Inquilinos'

 

E o que mudou? "Eu queria fazer um cinema mais clássico, mais narrativo mesmo. Queria trabalhar com atores e, ao mesmo tempo, falar das contradições do Brasil como sempre falei, de praticar a minha doença ideológica, de afirmar, como brinca a Zezeh Barbosa (atriz de vários filmes de Bianchi), ‘a missão continua’. Mas pelo ponto de vista das pessoas comuns, a grande maioria na periferia. Só querem viver normalmente. São o que chamo de ‘escravos felizes’."

 

Quem são essas pessoas? Na trama de Os Inquilinos, o subtítulo cai perfeitamente à proposta do diretor: Os Incomodados Que se Mudem. E os incomodados neste caso são os membros de uma família da Brasilândia, um dos mais cinematográficos bairros da periferia norte da capital paulista. Valter (Marat Descartes), o pai, é um carregador de caixas que dá duro todos os dias na Ceasa para "botar comida no prato da mulher e dos dois filhos". Vai do trabalho direto para a escola noturna, pois acredita na educação como caminho para uma vida melhor.

 

Tudo vai bem até que três vizinhos alugam o puxadinho dos fundos da casa do vizinho e tiram a paz do bairro ao protagonizarem atividades violentas e suspeitas. Para completar, tudo ocorre durante os ataques aos ônibus públicos da cidade por uma facção criminal, que acaba conturbando o dia a dia dos moradores do bairro. Diante do problema, o que fazer? Gritar ou calar? Qualquer semelhança com a realidade não é coincidência. "Claro. A violência está sempre assombrando o Valter. Não no sentido do ‘bom e do mal’, mas de pessoas que sofrem pressões. Tem pressões mentalizadas, como o barulho dos vizinhos, o medo da traição, a realidade."

 

É essa mesma realidade que se imprime de forma orgânica no filme. Não por acaso, Bianchi evitou filmar em estúdio. Fez questão de levar toda a sua equipe para o alto da Brasilândia. "A produção achou um lugar incrível, no fim de uma rua havia um terreno. Depois dele, uma ladeira e uma vista incrível para toda a região. Parecia um quadro da periferia. Decidimos alugar o terreno, que pertencia a uma ONG, e construir lá as casas que queríamos filmar. Foi bom para todos. Nós achamos nosso cenário. Eles ficaram com as construções."

 

Foi bom, mas não fácil. Bianchi, que é paranaense e mora no centro de São Paulo, teve de aprender na prática a lógica que move as engrenagens da periferia. "Ao mesmo tempo que muitos gostaram do projeto, que trabalharam com a gente, outros ficaram incomodados. E não se mudaram. Até atrapalharam. Tivemos também de negociar com as boas (e as más) lideranças do bairro, tivemos de entender toda essa lógica."

 

O que para o diretor ainda permanece difícil de entender é como essa parcela da população luta por seu lugar ao sol. "Acho que, na verdade, não sabemos contra o que lutar. Quem é o inimigo? Quem é que pisa nessa gente? É o sistema? É o patrão? O Brasil é um país de contradições."

 

Para viver essas contradições e fazer o ‘filme de ator’ que Bianchi queria, tanto Marat Descartes quanto Ana Carbatti (sua mulher, que recebeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival do Rio 2009), que vêm do teatro, dão profundidade dramática ao roteiro escrito por Bianchi e por Beatriz Bracher (que levou prêmio de melhor roteiro também no Festival do Rio). "Meu elenco foi ótimo. Marat e Ana então... Sem contar que o filme também inclui a Cássia Kiss, o Caio Blat, o Umberto Magnani, a Zezeh Barbosa. Eles deram corpo ao roteiro que criei com a Beatriz. Juntos, conseguimos fazer um filme mais sutil, sem o que chamo de distúrbio de linguagem (o tal do discurso, do panfleto), mas efetivo. Foi exaustivo, mas fiquei satisfeito."

Mais conteúdo sobre:
'Os Inquilinos'

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.