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'Os homens têm que aprender a ficar na sombra', diz Anna Muylaert

Cláudio Assis e Lírio Ferreira são banidos de atividades da Funaj por postura em debate de 'Que Horas Ela Volta?' em Recife

Juliana Domingos de Lima, Especial para O Estado de S. Paulo

31 Agosto 2015 | 20h00

Anna Muylaert, Regina Casé e Camila Márdila. Três mulheres protagonizam o sucesso do filme Que Horas Ela Volta?, premiado em Sundance, no Festival de Berlim e cotado para representar o País no Oscar. Apesar disso, o destaque feminino não foi respeitado no debate promovido no último sábado, 29, pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no Cinema do Museu, no Recife. Presentes a convite da própria diretora, os cineastas pernambucanos Cláudio Assis e Lírio Ferreira tumultuaram o debate ao interromperem insistentemente as falas da diretora, dos organizadores e questões da plateia.

Segundo a organização, Cláudio não estava escalado para fazer parte da mesa e no entanto subiu no palco com a diretora, tomou o microfone e falou do filme que Anna fará com ele. “Com esse filme, venho sentindo que caí numa zona mais ou menos masculina. Tenho sentido os homens tentando me ofuscar em várias situações, como se o brilho feminino fosse algo perigoso”, incomoda-se a diretora Anna Muylaert.

O cinema da Fundaj, “casa” da produção pernambucana contemporânea, divulgou em nota nesta segunda, 31, uma decisão inédita na história da instituição: punir os diretores com um embargo a qualquer evento relacionado a seus filmes ou que conte com a presença dos dois. A punição tem validade de um ano.

“É uma decisão duríssima. Não foi personalizada, não fui eu nem o Kleber. Foi uma determinação da instituição, que há mais de  60 anos se dedica à pesquisa e trabalha para tornar a sociedade brasileira mais igualitária”, comenta Luiz Joaquim, que divide a curadoria do cinema com o diretor Kleber Mendonça e participou do debate como mediador. “A decisão foi no sentido de se colocar para a sociedade. Foi a forma mais direta de dizer que a Fundação Joaquim Nabuco não vai aceitar qualquer tipo de intolerância, não iria ficar omissa a um comportamento tão inadequado”. Apesar disso, pontua que a medida tomada na manhã desta segunda, em reunião, foi “muito difícil”. Ainda segundo o curador, os diretores já haviam criado situações parecidas em outros eventos. “Infelizmente coube à Fundação chamar a atenção de forma dura”.

NOTAA Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) informa que, diante do comportamento lamentável dos cineastas Cláudio Assis e L...Posted by Fundação Joaquim Nabuco / Ministério da Educação on lundi 31 août 2015

Em relação à represália, Anna diz ter dois sentimentos. “Como pessoa, acho humilhante para com meus amigos. Como cidadã, acho importante, porque realmente não é direito deles”. Disse também que muitas pessoas ficaram satisfeitas com a medida, que segundo ela serve para esclarecer onde começa o machismo. “Não é o caso de demonizar. É preciso partir do episódio para discutir ideias. A discussão é muito maior do que eles”.

A jornalista pernambucana Carol Almeida e o diretor de arte do filme, Thales Junqueira, presentes no debate, também comentaram o acontecido nas redes sociais. “Detesto linchamentos, aquela síndrome generalizada de Carandiru, punitiva, violenta e tantas vezes cega. Conheço Lírio há muitos anos e adoro ele. Lírio realmente é um cara doce, gentil, amoroso, que está passando por um momento difícil e que precisa da ajuda dos amigos. Mas o que aconteceu no Cinema do Museu não foi apenas falta de respeito, de educação, foi machismo também. Imagino que isso não teria acontecido se o debate fosse com um diretor homem amigo. Será que eles teriam atrapalhado um debate de Felipe Barbosa? Ou de Kleber Mendonça? “, questionou Junqueira em seu perfil pessoal.  

Anna, que tem viajado muito na divulgação de Que Horas ela Volta?, descreve outras situações similares em que seu protagonismo como diretora  tem sido secundarizado, no Brasil e no exterior. “É uma questão nacional e mundial. Em Hollywood também, as mulheres estão falando [referência ao discurso da atriz Patricia Arquette no Oscar deste ano]. Não dá mais, as mulheres vão brilhar sim, não vão ficar em casa. E os homens têm que aprender a ficar na sombra, a ouvir, não só a falar. As mulheres aprenderam a falar e eles vão ter que se conformar”, diz a diretora. “No início do cinema, quase só tinha mulher. Quando começou a dar dinheiro, as mulheres foram expulsas. O mundo do dinheiro é masculino. Quando meu filme vendeu e cresceu, pequenas coisas passaram a me fazer sentir que sou intrusa. É como se ninguém soubesse muito bem como lidar comigo agora”.

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