Os grandes momentos do Festival de Cannes 2005

Foram momentos que ficaram para a posteridade - Sharon Stone subindo a escadaria do palais e deixando-se fotografar entre dois soldados do império, na noite da apresentação de Star Wars Episódio 3 - A Vingança dos Sith; Sophie Marceau com o seio de fora, depois que a alça de seu vestido se despregou providencialmente quando ela era clicada por mais de uma centena de fotógrafos; Val Kilmer agarrando Robert Downey Jr. à unha e tentando beijá-lo na boca, na coletiva de Kiss Kiss Bang Bang; Woody Allen abraçando sua musa, que terminou sendo a musa (ou pelo menos uma das) do festival, Scarlet Johansson, estrela de Match Point; Zhang Ziyi a atual musa de Zhang Yimou, vestida para matar, subindo a escadaria num modelito longo que arrastava sua cauda no carpete vermelho e exibia as pernas numa fenda que a elegância natural da atriz tornava ainda mais insinuante.Cannes é a babel dos festivais. Para os cinéfilos, é um ponto de encontro dos cinemas de todo o mundo. Para o público, na visão referendada pela mídia, é uma miríade de champanhe e belas mulheres. Cannes, sem a mundanidade, não seria a mesma coisa, O 58.º festival teve todos esses elementos que fazem do evento um sonho de cinema. Teve as homenagens - as fotos de James Dean, lembrando os 50 anos da morte do eterno rebelde da tela; as de Jean Renoir, acrescidas aos trechos de seus filmes exibidos no palais, como preparativo para a inauguração da nova sede da Cinemateca Francesa, no fim do ano. E teve os filmes. Sam Shepard reencontra a mulher que abandonou há quase 30 anos. Ela é interpretada por Jessica Lange, a sra. Shepard na vida. O filme é Don´t Come Knocking, de Wim Wenders. O diálogo é maravilhoso. Ele diz que está de volta, ela responde que é tarde e, de repente, à queima-roupa, dá-lhe um beijo na boca.Em Broken Flowers, de Jim Jarmusch, Bill Murray também busca antigas namoradas, para tentar descobrir qual delas é a mãe de seu filho. Vai parar na casa de Sharon Stone. Ela tem uma filha adolescente chamada Lolita que fica nua diante de Murray, o que o deixa perturbado. Todos tomam muito vinho e, de manhã, ele acorda na cama com Sharon. Aí é ela que quer recomeçar, que começa uma conversa dizendo ser bom que ele tenha voltado. Murray foge. A cena é cool, como todo o filme (todo o cinema) de Jarmusch.Sharon, definida como a mais francesa das americanas, veio a Cannes para divulgar seu novo filme em rodagem, Instinto Selvagem 2. Repetiu ao vivo a famosa cruzada de pernas. Não participou da montée des marches, a famosa subida da escadaria do palais, na noite de Broken Flowers, porque teve de voltar correndo a Londres para filmar, mas regressou para presidir, com Liza Minnelli, a noite das celebridades no Moulin des Mougins. Criado por Elizabeth Taylor, este jantar é beneficente. Levanta fundos para pesquisa da aids. Apóia as vítimas da doença. Numa única noite, o jantar rendeu mais de US$ 10 milhões.Em L´Enfant, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, o pequeno trapaceiro das ruas não pensa duas vezes e vende o filho. Depois, tenta explicar à namorada que a bolada é boa e, de qualquer maneira, eles poderão ter outros filhos. Ela o olha perplexa e desmaia. É um daqueles momentos que justificam a existência do cinema. Em Three Times, de Hsou Hsiao Hsien, a sublime Shu Qi vive três personagens, em três épocas diferentes. Hsiao Hsien é um romântico. No episódio que se passa em 1911, os atores falam mas, como no cinema mudo, não se ouve o que dizem. Aparecem legendas. No dos anos 1960, Sho Qi é a garota que atende os freqüentadores de um bilhar. Ela joga, olha para a câmera, flerta com o protagonista, que é o mesmo nas três histórias, tudo ao som de Smoke Gets in Your Eyes e Rain and Tears.O cinema é som, ou também é som, você sabe. Não é preciso gostar de Last Days, de Gus Van Sant, sobre os últimos dias de um roqueiro inspirado em Kurt Cobain, para perceber que o design sonoro é o que o filme tem de melhor. Last Days, aliás, dividiu com Sin City, de Robert Rodriguez e Frank Miller, o prêmio da Comissão Técnica Superior do Cinema. Last Days foi premiado pelo desenho do som; Sin City pela concepção visual (o que o filme tem de bom). A imagem definitiva deste festival talvez tenha sido Fanny Ardant, de preto, classuda até demais, entregando, na última noite, o Grand Prix du Jury, vencido por Jarmusch. Sua fala foi imperial. "Um prêmio não serve para nada. A gente esquece. O que não se esquece são o prazer e a emoção que se sentem ao recebê-lo." É possível que o 58.º festival também se perca na memória, mas vão ficar os momentos.Outro - Jeanne Moreau, na homenagem a Louis Malle, na noite da exibição da versão restaurada de 30 Anos Esta Noite, que está sendo lançado em DVD, na França, numa edição especial com outros filmes do grande diretor. Jeanne chorou. Ela faz questão de dizer que não vive no passado, mas com Malle é diferente. "Ele me faz muita falta", admitiu. E acrescentou - "Sofrer faz parte do crescimento da gente; sem sofrimento, não há humanidade".

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