Os filmes na era digital, via Internet

Aos 43 anos (aparenta menos), o professor de cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP Renato Bulcão é um homem perfeitamente afinado com seu tempo. Na verdade, está até na dianteira, porque se há alguém sintonizado com o avanço tecnológico é ele. Há cinco anos, produziu o curta La Lona, de Daniel Gomes, que foi o primeiro filme brasileiro veiculado na Internet. Inventou a kinescopia, o processo que permite transcrever um produto do suporte vídeo para o suporte cinema - foi o tema de sua tese de doutorado e evoluiu tanto que ele requereu a patente do seu invento. Bulcão continua à frente.Por meio de sua produtora, a Casa de Produção, ele coloca até o fim do mês mais dois filmes na Internet - os primeiros de um lote de filmes brasileiros a invadir a rede, tentando ocupar o nicho que Bulcão define como "essencialmente democrático". Os escolhidos para iniciar a operação foram o longa Os Matadores, de Beto Brant, e o curta Amassa Que Elas Gostam, de Fernando Costa. E Bulcão não pára por aí. Em outubro, lá pelo dia 20, lança Minha Noiva É uma Megera.O título não é casual. Bulcão atreve-se a filmar Shakespeare com tecnologia totalmente digital. E não abre mão de lançar o filme na Internet, sem passagens anteriores pelos cinema e pelo vídeo, como ocorreu com Os Matadores e Amassa Que Elas Gostam. Os trailers de ambos estarão disponíveis até sexta-feira no site www.casaproducao.com.br. Bulcão explica por que esses filmes foram escolhidos. Amassa Que Elas Gostam é uma espécie de cartão de visitas de sua produtora. Sucesso popular, onde quer que passe, cativou também os críticos. Os Matadores também é sucesso de público e crítica. Já passou nos cinemas, foi lançado em vídeo e até na TV. Teoricamente, já esgotou seu ciclo, ou teria esgotado esse ciclo. Ainda existe o nicho da Internet para reacender o interesse pelo filme de Beto Brant.Para veicular o cinema brasileiro na Internet, Bulcão criou a TVFilm. É uma empresa e também o mesmo site que terá de ser acessado pelos interessados - www.tvfilm.com.br. Didaticamente - trata-se de um professor, não podemos esquecer - ele explica como a Internet vai fazer o poder da comunicação mudar de mãos. Até aqui, as grandes corporações comandavam a difusão e divulgação de discos, filmes, TV e notícias. O primeiro passo para mudar esse estado de coisas foi dado por um norueguês de apenas 16 anos. Ele foi o primeiro a romper o código fechado do DVD, permitindo que filmes pudessem ser colocados na rede. O segundo passo foi dado pelos hackers da ONG européia chamada Projeto Mayo. Essa ONG é contrária ao que se pode definir como "a dominação imperialista das imagens". Fizeram um trabalho de investigação científica, tentando entender porque não era possível tocar um DVD com qualidade dentro de um computador. Não era, mas depois deles já é.Descobriram que, quando a Microsoft fez o Media Player dentro do Windows, preparou essa ferramenta para tocar o DVD. Mas, por conta de um acordo comercial não declarado feito nos EUA, a empresa criou uma chave para impedir que essa parte funcionasse. Os hackers do Projeto Mayo inventaram um programa para neutralizar essa ferramenta. Conseguiram reduzir o tempo do download de um filme em até 20 vezes. O que demorava duas horas para ser baixado agora pode ser feito em 20 minutos. Os hackers, que Bulcão chama do "bem", derrotaram o imperialismo na Internet e iniciaram uma nova era de democratização da informação e da comunicação.Como produtor e diretor de cinema, ele avalia o mercado. Apenas 25% da bilheteria de um filme vem hoje da exibição em salas. O restante se consegue pela TV, pelo vídeo, pela TV a cabo e outras mídias. Todo esse circuito está na mão dos grandes conglomerados imperialistas.O mercado de salas no Brasil está formatado para o produto estrangeiro - leia-se, Hollywood. A Internet vai inverter o circuito de exibição de filmes. Bulcão diz que a idéia de exibir um filme nos cinemas, depois no vídeo e depois na TV está com os dias contados. Afirma que a Internet é hoje a única mídia democrática - a única que pode permitir ao cinema brasileiro competir, em igualdade de condições, com os filmes estrangeiros. Sua idéia é de que a Internet promove um sistema de comunicação de massas voltado para o indivíduo.Não acredita que, por conta disso, o cinema, tal como o conhecemos, esteja condenado a desaparecer. O ritual da sala escura, a atividade social, comunitária, de ver um filme, tudo isso de alguma forma vai permanecer, assim como a antiga arena romana sobrevive nos modernos estádios de futebol e nada proíbe que um artista use tinta e pincel em plena era de videoinstalações. O importante é aproveitar esse momento em que não existem funis impedindo a participação igual de todo mundo na Internet.Num texto distribuído por sua produtora, Bulcão conta que, até o fim do ano e, principalmente, no ano que vem, haverá novas companhias de telefone celular que vão trabalhar, no País, com a tecnologia WAP, sigla de ´Wireless Automatic Protocol´, permitindo interligar telefones celulares, computadores e Internet. Isso significar que o telefone celular do brasileiro terá Internet com uma velocidade maior do que a da linha discada. Será possível fazer o download de programas de TV e filmes, on-line, direto em palmtops. Tudo isso ainda pode parecer futurista demais. Passado o estranhamento, o novo nicho estará disponível. Basta que o usuário tenha o seu Pentium. Pode ser um 300, inicialmente, o ideal é que seja um 500. Mas só será possível fazer o download e ver o filme na velocidade normal se o usuário tiver conexão de banda larga.Preços - Bulcão acrescenta que, em última instância, os televisores serão receptores desse tipo de acesso e isso permitirá ao cinema brasileiro reencontrar as classes C e D que, historicamente, sempre foram as grandes consumidoras de produtos audiovisuais nacionais. Esse público foi alijado do circuito com o fechamento das salas de periferia e a concentração dos cinemas nos shoppings, a preços que lhe são proibitivos. Tudo isso vai mudar. O próprio sistema de ressarcimento do produtor vai mudar. O usuário poderá pagar pela conexão, mas também poderá ver o filme de graça, com a inserção de comerciais, pois Bulcão está convencido de que o jeito de fazer propaganda na TV também vai mudar.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.