Sony Pictures Classics
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Os filmes iniciais da favorita ao Oscar, a diretora Chloé Zhao

A temática e a forma de 'Nomadland', crônica dos deserdados do sonho americano, já aparecem nos dois primeiros longas-metragens de Zhao, ambos disponíveis em plataformas digitais

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2021 | 20h00

Alguns criadores expõem seu DNA artístico desde as primeiras obras. É o caso de Chloé Zhao, que disputa o Oscar com seu Nomadland na condição de favorito a alguns dos prêmios principais. A temática e a forma de Nomadland, crônica dos deserdados do sonho americano, já aparecem nos dois primeiros longas-metragens de Zhao, ambos disponíveis em plataformas digitais. Tanto Songs my Brother Taught me (MUBI) quanto Domando o Destino (Telecine Play) buscam ambientação na chamada “América profunda”, trazem personagens populares em condições desfavoráveis e, embora ficcionais, apresentam forte composição documental. Exatamente como Nomadland.

Songs my Brothers Taught Me (algo como Canções que Meus Irmãos me Ensinaram, 2015) é ambientado na Reserva Indígena Pine Ridge, no estado de Dakota do Sul. Os irmãos Johnny Winters (John Reddy)e Jashaum Winters (Jashaum St. John) são informados da morte do pai, um vaqueiro ausente da família e patriarca desleixado de uma prole de 25 filhos. Johnny não vê perspectivas de vida no local e quer mudar-se para Los Angeles. Mas isso significa deixar para trás sua irmã Jaschaum.  

O filme tem sido lembrado por seu recorte documental de uma comunidade com muitos laços de afeto e também muitos fatores de dissolução - como o alcoolismo, a criminalidade e a desagregação familiar. Mas também destaca-se pelo visual poético e às vezes francamente metafísico, que faz entrever a possível influência de um Terrence Malick. Uma espécie de Malick associado a uma pegada neorrealista. Como estreia, é surpreendente pela maturidade. E também se destaca pela espontaneidade encontrada em atores naturais, de modo geral interpretando seus próprios papéis. Sente-se a vida pulsando na tela. Chloé Zhao tem dito em entrevistas: “Capturamos a verdade...porque com orçamento tão baixo a verdade era a única coisa que podíamos nos permitir”. Faz lembrar, de fato, o neorrealismo e também, em certos aspectos, o Cinema Novo - em especial na habilidade de fazer da necessidade uma virtude e, da pobreza, um recurso estético. 

Algumas dessas características reaparecem no longa seguinte de Chloe, Domando o Destino (The Rider, 2017). Nele, estamos de novo no mundo rural, mas já em outra dimensão. O jovem Brady (Brady Jandreau) desponta como um astro dos rodeios, até tomar uma queda e ficar gravemente ferido. Operado, recebe uma placa de metal na caixa craniana e é aconselhado a manter-se longe de rodeios, touros e cavalos, talvez para sempre. 

Também ambientado em Dakota do Sul, centra-se no drama desse jovem profissional, que obteve sucesso com seu trabalho e não sabe fazer outra coisa na vida. Não se realiza em outras atividades, como no emprego de supermercado que lhe garante subsistência mas não a felicidade. Ele é órfão de mãe, e o pai (Tim Jandreau) é um jogador compulsivo, que parece não servir de porto seguro a ninguém. Brady sente-se perdido, angustiado e tentado a desobedecer às ordens médicas. Afinal, domar e montar cavalos lhe garante não apenas a sobrevivência física. Essas atividades significam sua identidade no mundo. Renunciar a elas talvez implique renunciar a si mesmo. 

Nascida na China em 1982, Chloe Zhao trabalha focada em personagens jovens e problemáticos. Imersos em comunidades tradicionais, que lhes dão certa segurança simbólica pelos papéis rigidamente assinalados para cada indivíduo. Ao mesmo tempo, esses jovens sentem-se sufocados pela rigidez e pela falta de horizontes. Em especial quando algo de mal lhes sucede ou às suas famílias. Num caso, a desagregação com a falta do pai e a insegurança da mãe. No outro, quando problemas de saúde impedem o personagem de seguir o caminho natural. 

Como se observa pela recorrência de sobrenomes no elenco, Zhao trabalha com famílias inteiras. Essas pessoas, atores naturais como por vezes os chamamos, interpretam papéis do cotidiano. Como podemos adivinhar, circulam por histórias ficcionais, inventadas, mas que bem poderiam ser as próprias. Essa proximidade rende uma espontaneidade muito grande aos filmes. 

 A continuidade formal e temática através das obras empresta consistência ao conjunto e faz com que cada filme dialogue com os outros. A isso chama-se estilo. 

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