Os filmes do ciclo Truffaut, um a um

Os filmes do ciclo Truffaut, um a um

Mostra 'A nova onda de François Truffaut' fica em cartaz até 30/9 e exibe 17 filmes do cineasta; veja galeria de imagens dos filmes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 de setembro de 2015 | 07h00

Festival A Nova Onda de François Truffaut, no Belas Artes, soma-se à exposição do MIS para que iniciados e iniciantes (re)descubram o importante diretor. Serão exibidos, até 30 de setembro, 17 filmes do diretor francês, em quatro sessões diárias. Vale saber um pouco mais sobre cada um desse longas, confira abaixo.  

Os Incompreendidos/Les Quatre-Cents Coups. O longa de estreia do diretor, de 1959, inicia a série autobiográfica com o personagem Antoine Doinel, interpretado por Jean-Pierre Léaud. No começo, a câmera percorre Paris, passa pela pedra, o ferro (a Torre Eiffel) e se detém no rosto do garoto. Ele cresce revoltado, carente de afeto. Todo Truffaut esboça-se aí. E o desfecho, a corrida para o mar, certamente influenciou Glauber Rocha, quando ele fez Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Atirem no Pianista/Tirez Sur le Pianiste. Em seu segundo longa, de 1960, Truffaut adapta o escritor norte-americano Cornell Woolrich e faz de Charles Aznavour o pianista de concerto que, traumatizado pela morte da mulher, vai tocar em bares. Sua vida complica-se ainda mais quando o irmão, que se envolveu com gângsteres, se refugia com ele. Marie Dubois e Michele Mercier, a futura Angélica, são as presenças femininas.

Jules e Jim - Uma Mulher para Dois. De 1962. Uma das obras-primas do diretor, e sua primeira adaptação do escritor Henri-Pierre Roché. Jeanne Moreau faz a terna e cruel Catherine, que se envolve com os amihos Oskar Werner e Henri Serre. As variações do amor, a saudade das coisas mortas que viram cinzas e das coisas ainda vivas que começam a desaparecer. Essa espécie particular de nostalgia, ou mal-estar, é típica do diretor.

Beijos Proibidos. Outro capítulo da educação sentimental de Antoine Doinel. Já comprometido (com Marie-France Pisier), ele vai trabalhar numa loja de sapatos e se envolve com a sedutora Madame Tabbard (Delphine Seyrig). Sempre apaixonado pelo cinema, Truffaut dedica o filme a... o lendário criador da Cinemateca Francesa e usa de fundo a crise para fechar a instituição. O título original é Baisers Volés/Beijos Roubados, e vem da canção famosa de Charles Trenet.

Domicílio Conjugal. De 1970. Antoine Doinel casa-se com Claude Jade, que dá aulas de violino, mas sua natureza inquieta e insatisfeita o leva a se apaixonar por garota japonesa. Na época, Truffaut e Jean-Luc Godard já trocavam farpas e o segundo acusava o primeiro de se haver aburguesado.

Amor em Fuga. de 1979. A morte prematura de Truffaut - em 1984, aos 52 anos - fez deste filme o último episódio da saga autobiográfica de Antoine Doinel, que ele talvez tivesse prosseguido, se vivesse mais. . Jean-Luc Leáud divorcia-se de Claude Jade e reencontra Marie-France Pisier, seu primeiro grande amor. Por momentos, forma-se um triângulo, mais de amizade que de sexo.

O Último Metrô. De 1980. François Truffaut fez diversos filmes que expressam seu amor pelo cinema. Esse é sua declaração de amor ao teatro. Conta a história de uma companhia francesa, sob a ocupação nazista. O diretor, caçado pelos ocupantes de Paris, esconde-se no prédio. Com Castherine Deneuve e Gérard Depardieu.

Um Só Pecado. De 1964. Um dos filmes mais polêmicos do diretor. Tem gente que o detesta, achando que Truffaut nunca foi mais misógino. Jean Dessaily faz escritor que se envolve com aeromoça (Françoise Dorléac) e a mulher o caça - armada - para matar. Serge Toubiana, curador da exposição de Truffaut no MIS, acha que é o filme mais ‘hitchcockiano’ do diretor. Truffaut amava o mestre do suspense e esse é seu filme mais ‘decupado’. A cena do elevador é, nesse sentido, exemplar.

De Repente, num Domingo. O último longa do diretor, lançado em 1983, um ano antes de sua morte. É uma homenagem aos policiais B que o crítico François Truffaut tanto amava. Jean-Luc Trintignant é acusa do morte do amante da mulher. Fanny Ardant, mulher do diretor (na vida), ajuda-o a provar que é inocente.

A Sereia do Mississippi. O segundo longa que Truffaut adaptou de Cornell Woolrich, também autor da história de Atirem no Pianista (e também de A Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock). Jean-Paul Belmondo casa-se por correspondência. Entra em cena Catherine Deneuve, já com sua aura de Bela da Tarde - o filme é de 1969 - e que vai desestabilizar a vida dele.

Na Idade da Inocência. de 1976. Um dos filmes mais encantadores de Truffaut, contando as vidas cruzadas de alunos de uma duas classes numa escola pública. As crispações da infância, a educação sentimental. Embora a narrativa seja ‘episódica’, há uma grande unidade de tom, e de olhar, sobre a infância.

A Noiva Estava de Preto. A rigor, esse é o segundo filme de Truffaut adaptado de Cornell Woolrich, embora a história tenha sido publicada sob pseudônimo, William Irish. Jeanne Moreau busca vingança dos homens que mataram seu noivo, na porta da igreja. Destituída de sentimentos, como se também tivesse morrido, ela abate um a um. Truffaut amava o mestre do suspense, tentava até imitar Alfred Hitchcock, mas os policiais não figuram entre seus melhores filmes.

O Homem Que Amava as Mulheres. Charles Denner publica anúncio pedindo babysitter - para ele. O bebê é o homem adulto, que se recusa a amadurecer e o filme de 1977 conta a história de sua obsessão pelas mulheres, em especial pelas pernas das mulheres. Com começo e fim no cemitério, seria um filme soturno, se não fosse a leveza da narrativa e à vontade do elenco feminino,. com muitas mulheres maravilhosas (Leslie Caron, Natalie Baye, Brigitte Fossey etc).

A História de Adele H. Uma mulher para dois (Jules e Jim), duas mulheres para um homem (As Duas Inglesas e o Continente). Truffaut fez filmes para expressar as variações do amor e aqui encontrou na filha do lendário escritor Victor Hugo a mais dilacerada de suas grandes amorosas. Tal como é interpretada por Isabelle Adjani na obra cultuada de 1975, Adèle radicaliza a vertigem do amor. Persegue um homem com o qual, no limite, não quer nada. E consome-se nesse amor do amor.

A Mulher do Lado. O penúltimo filme do diretor, de 1981. Gérard Depardieu e Fanny Ardant, ambos casados com outros, vivem uma ligação dilacerada e intensa. Truffaut era obsessivo, na arte como na vida. Esse é seu filme que mais reflete a própria obsessão.

As Duas Inglesas e o Amor. A segunda adaqptação de Henri-Pierre Roché propõe o inverso de Jules e Jim. Duas mulheres para um homem. Kiuka Markham e Stacey Tendeter se envolvem com Jean-Pierre Léaud. Mais que filme sobre o amor físico, essa outra obra cultuada, de 1971, se propõe como um filme físico sobre o amor. Desmaios, sangramentos, vertigens. Parte dessa intensidade reapareceu em A Mulher do Lado, com menos brilho.

O Garoto Selvagem. Truffaut fez tantos filmes sobre a educação sentimental. Esse é sobre a educação como processo cultural. O professor Itard, interpretado pelo diretor, assume a tarefa de educar garoto que viveu entre os lobos. O embate entre instinto e cultura. E se Itard/Truffaut for a homenagem do cineasta a André Bazin, que o resgatou da delinquência e lhe apresentou o cinema? É o filme mais ‘rosselliniano’ de Truffaut e pode muito bem ser sua obra-prima. Alguns momentos - o menino uivando para a lua - figuram entre as emoções inesquecíveis que o cinéfilo pode ter assistindo a filmes.

PROGRAMAÇÃO

Sábado (19/9)

14h30 Os incompreendidos

16h30 Domicilio conjugal

18h30 O último metrô

21h Jules e Jim

Domingo (20/9)

14h30 Jules e Jim

16h40 O último metrô

19h Os incompreendidos

20h50 Beijos proibidos

Segunda-feira (21/9)

14h30 Amor em fuga

16h30 Jules e Jim

18h40 Domicílio conjugal

20h40 Os incompreendidos

Terça-feira (22/9)

14h20 Jules e Jim

16h30 Domicilio conjugal

18h30 Amor em fuga

20h30 Atirem no pianista

Quarta-feira (23/9)

14h30 O último metrô

17h Beijos proibidos

18h50 Atirem no pianista

20h30 Amor em fuga

Cine Caixa Belas Artes

Rua da Consolação, 2423 – Consolação - Tel: 11 2894 5781

Ingressos: Às segundas: R$ 14 (inteira) e R$ 7 (meia, para estudantes, correntistas do banco Caixa Econômica Federal, melhor idade e trabalhadores, mediante comprovante). De terça a domingo: R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia, para estudantes, correntistas do banco Caixa Econômica Federal, melhor idade). Passaporte: R$ 50 (dá direito a assistir cinco filmes, durante as duas semanas do festival). Tem poltronas numeradas. Em todas as salas, cadeiras adequadas para obesos e espaço para cadeirantes. 

 

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