Steve Crisp/Reuters
Steve Crisp/Reuters

Os efeitos do escândalo sexual que envolve o magnata do cinema Harvey Weinstein

Carreiras de atrizes premiadas como Mira Sorvino, ganhadora de um Oscar, sofreram com assédio do poderoso produtor

Lucia Guimarães, O Estado de S. Paulo

26 Dezembro 2017 | 06h00

NOVA YORK - Seria excesso de otimismo dizer que o círculo se completa. A decisão de colocar a professora de Direito Anita Hill à frente de uma comissão para ajudar a indústria de entretenimento americana a expurgar o assédio sexual de suas fileiras traz de volta a memória da mulher negra cujo depoimento, em 1991, chegou a ser visto como um marco no combate a esta forma de discriminação.

Mas, não, a triste história de Anita Hill, neutralizada com ceticismo ou franco escárnio diante de 14 senadores homens, quando revelou seu tormento à comissão que sabatinava o juiz Clarence Thomas para um assento na Suprema Corte, é uma ferida aberta. Thomas, o juiz que tinha sido chefe de Hill, continua ocupando seu cargo vitalício no tribunal máximo do país.

Mas Harvey Weinstein, que se imaginava um produtor vitalício, está sob investigação policial em pelo menos três cidades, Nova York, Los Angeles e Londres, acusado de estupro. O escândalo em torno de Weinstein, o mais poderoso personagem da história do cinema independente nos Estados Unidos, provocou a enxurrada constante de novas denúncias de assédio ou assalto sexual nos últimos dois meses. As acusações envolvem atores, diretores, produtores, personalidades de TV, músicos e executivos da indústria musical, além de terem feito baixas na Broadway, em Nova York.

A usina de rumores deixa nervos em frangalhos em estúdios, escritórios, redações. Quem será o próximo? Uma lista de autoria anônima circula na internet sob o título “Shitty media men” (Homens de merda na mídia) e já derrubou o mais bem pago e influente apresentador das manhãs na TV americana, Matt Lauer, na rede NBC, e seu concorrente nas manhãs da CBS, Charlie Rose.

Em atividades intensamente terceirizadas como produção de cinema, TV, música e espetáculos a súbita desgraça de uma celebridade acena com desemprego para centenas, às vezes, milhares de pessoas.

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Um caso especialmente agudo é o da série House of Cards, cujas gravações da sexta temporada no Estado de Maryland foram interrompidas em novembro, quando o ator Anthony Raupp denunciou o ator e produtor executivo da série Kevin Spacey. Spacey se desligou imediatamente da produção, que empregava 2.700 pessoas na região de Baltimore, além de beneficiar mais duas mil no comércio local. House of Cards está sendo reescrita sem o protagonista vivido por Spacey, Frank Underwood, mas foi encurtada de 13 para 8 episódios na temporada de 2018, que será a última.

O assédio sexual no trabalho é definido numa lei federal americana como uma forma de discriminação. A explosão de denúncias no mundo do entretenimento abriu duas frentes de trauma.

O trauma sexual e psicológico de mulheres, famosas e anônimas, que se calaram ou foram silenciadas ao longo de décadas. E também o trauma do macarthismo profissional do qual foram vítimas mulheres como as que disseram não a Harvey Weinstein. A atriz Mira Sorvino, Oscar de melhor atriz por Poderosa Afrodite (1995), no seu primeiro papel relevante no cinema, contou, na semana passada, ter caído em prantos ao acordar e descobrir o que já desconfiava: Harvey Weinstein insistiu que ela e a atriz Ashley Judd – ambas alegam assédio em quartos de hotel – fossem excluídas do elenco da franquia Lord of the Rings.

A então companhia de Weinstein, Miramax, inventou que ambas eram um pesadelo no set. A história foi confirmada pelo diretor dos filmes, Peter Jackson, e também pelo diretor Terry Zwigoff (Crumb), que tentou escalar Mira Sorvino em Bad Santa. Sorvino lembra que não compreendia a falta de ofertas para novos papéis, logo depois de ganhar o Oscar.

Uma das histórias mais dolorosas, entre as vítimas de Weinstein, se tornou também emblemática do subproduto do assédio no cinema ou em qualquer atividade: a vida profissional prematuramente bloqueada, a carreira que não aconteceu. A atriz Annabella Sciorra, que as plateias mais jovens conhecem por pequenos papéis em séries de TV como Os Sopranos, Lei & Ordem, explodiu na tela, aos 31 anos, em Jungle Fever, de Spike Lee, em 1991.

No ano seguinte, depois de ter encontros sociais com Harvey Weinstein e pegar uma carona com ele, ao final de um jantar, ouviu mais tarde da noite, a batida na porta do apartamento onde morava, quando já ia dormir. O produtor entrou e, segundo ela, a estuprou duas vezes. Sciorra não recebeu convites para trabalhar até 1995 e soube da mesma invenção – era “difícil no set”. Quando voltou a trabalhar, Weinstein continuou a perseguição e uma noite, no quarto de hotel de Londres, onde estava filmando, Sciorra empilhou peças de mobília contra a porta esmurrada por Weinstein.

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A mesma cena, com a mobília, foi descrita pela atriz Daryl Hannah. Sciorra contou, ao revelar sua história em outubro para a revista New Yorker, que ainda continuava a dormir com um bastão de beisebol sob a cama. Sua amiga próxima, a atriz Rosie Perez, de Faça a Coisa Certa, diz que não compreendia, nos anos 1990, a súbita mudança psicológica de Sciorra, que passou a ser uma reclusa.

Não é possível devolver décadas de carreira a mulheres talentosas. Uma pesquisa recente revelou que mulheres têm cerca de 30% dos papéis com falas no cinema. E, quando há personagens centrais mais velhos, o que é pouco comum, homens são a maioria. Será que Hollywood vai oferecer alguma reparação? Será que vai buscar roteiros com histórias em que protagonistas têm a idade das atrizes vítimas da caça às bruxas de Harvey Weinstein? Quem não gostaria de reencontrar Mira Sorvino e Annabella Sciorra em grandes papéis?

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