'Os Descendentes' em viagem de descoberta

Após vitória no Globo de Ouro, o filme surge como forte concorrente ao Oscar, que anuncia amanhã seus indicados

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

22 de janeiro de 2012 | 22h53

SÃO PAULO - Diretor bissexto, Alexander Payne realizou apenas cinco longas e um punhado de médias e curtas ao longo de mais de 20 anos da carreira iniciada em 1991. São filmes como Cidadã Ruth e Sideways - Entre Umas e Outras, que lhe valeram não apenas indicações, mas também prêmios importantes, como o Globo de Ouro, o Bafta, o Oscar inglês, e até a estatueta da Academia de Hollywood. Justamente, o Oscar.

Amanhã, a Academia anuncia os indicados para concorrer ao Oscar deste ano. Será uma hecatombe se o novo Payne, Os Descendentes, não colher numerosas indicações depois de haver papado o Globo de Ouro de melhor filme (drama), diretor e ator (George Clooney). Os Descendentes estreia sexta-feira nos cinemas brasileiros. De Los Angeles, Payne conversou com o Estado pelo telefone.

Sideways e, agora, Os Descendentes colocam seus personagens na estrada em busca de alguma coisa, mas o que eles encontram é outra. Concorda com a avaliação?

Não gosto de falar sobre os temas de meus filmes, porque acho que essa é uma descoberta que o espectador tem de fazer. Mas, sim, tenho de admitir que é uma análise direta e acurada do meu trabalho. George descobre que a mulher é adúltera quando ela sofre um acidente e entra em coma. Ele parte em busca do amante e, no processo, descobre que existem coisas mais importantes. Gosto de fazer filmes em que a descoberta do personagem me faz reavaliar coisas. Cada filme é único e especial em si mesmo. É como vejo o cinema, o meu cinema.

Em geral, você demora de três a quatro anos entre filmes. É intencional, ou dificuldade para conseguir financiamento?

O tipo de filme que faço, baseado em personagens e relações, não é exatamente o que mais interessa à indústria. Em vez do humano, eles preferem robôs, efeitos especiais. Não estou sendo destrutivo. Alguns desses filmes são bons e me interessam bastante. Mas nunca é fácil conseguir o dinheiro. Trabalhar com astros como George (Clooney) ajuda. Por outro lado, gosto de fazer uma pausa, entre um filme e outro. Preciso me distanciar, antes de me lançar em novas histórias. E escrevo os roteiros, o que toma tempo.

Quanto, neste caso?

Foram cerca de 12 semanas, três meses. A filmagem também girou em torno disso. Dez semanas. A montagem é que foi longa. Quase nove meses.

(Stanley) Kubrick dizia que cinema é montagem e também demorava montando seus filmes. Qual foi sua principal dificuldade na montagem de

Os Descendentes?

Não diria que houve uma dificuldade. Todo filme tem sua atmosfera, seu ritmo. Isso se consegue em parte no set, mas também é uma coisa que tem de ser ajustada na montagem. Nunca testei tanto um filme quanto este. Trilhava um caminho, atalhava outro. Mas fiquei satisfeito com o que alcancei.

Isso não ocorre sempre?

Dependendo do seu grau de exigência, você pode nunca ficar satisfeito com o que obtém, independentemente de o filme ser bom ou não. Não se faz um filme de um dia para outro. Você precisa de tempo para pensar, criar expectativas. Um filme depende de muita gente - artistas, técnicos. O estúdio e os produtores pressionam. Tudo isso faz parte e não culpo ninguém pelos eventuais fracassos. Cabe a mim harmonizar. O caso de Os Descendentes era especial porque George (Clooney) sente que está perdendo alguma coisa, mas na verdade ganha. É cruel dizer, mas as filhas e ele vivem melhor sem a mulher.

Você não gosta de falar sobre seus temas, mas agora está entregando (risos). Como foi o trabalho com George Clooney?

Tenho trabalhado com grandes atores. Jack Nicholson (As Confissões de Schmidt), Paul Giammati (Sideways). Mas George (Clooney) agrega mais do que qualquer outro. Sua persona é sedutora, dentro e fora da tela. E ele não se preocupa com a imagem. Quer servir ao personagem. Toda a recompensa que está recebendo é merecida.

Por que o Havaí?

Pelo motivo mais óbvio - é o cenário do livro de Kaui Hart Hemmings. Mas o Havaí está no imaginário da gente. Foi bacana buscar as locações para uma história que, a rigor, poderia se passar em qualquer lugar.

Seus filmes tratam sempre de adultério e relacionamentos. Por quê?

Você conhece outros temas? Até Édipo matou o pai e dormiu com a mãe. Junte um grupo de homens e um de mulheres. Terminarão falando de adultérios e relacionamentos.

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