'Os Desafinados' de Walter Lima Jr. encerra Cine Ceará

Filme relembra o período de surgimento da bossa nova, o mais internacional dos gêneros musicais brasileiros

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2017 | 16h35

A convite de uma fã, o músico Jair Oliveira (filho de Jair Rodrigues) cantou um trecho de música, sem acompanhamento, no palco do Cine São Luiz. Jairzinho faz parte do elenco de Os Desafinados, de Walter Lima Jr., e sua performance serviu como senha para que o filme fosse acompanhado com simpatia pelo público e muito aplaudido no final da sessão. Veja também:Acompanhe a cobertura do Cine Ceará no blog do Zanin   Veja programação completa do evento   Nos 50 anos da bossa nova, Os Desafinados relembra o período de surgimento desse que é o mais internacional dos gêneros musicais brasileiros. E, também, o mais sofisticado. De passagem, recorda também um clima de época, uma fresta de tempo que vai do otimismo desenvolvimentista da era JK à noite da ditadura militar. Esse painel histórico serve como pano de fundo e doador de sentido para o que está na frente da cena: uma história musical e um caso de amor.  A história musical é a da bossa, contada pelo viés de um conjunto imaginário, Os Desafinados, composto por Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), Geraldo (Jair Oliveira) e Paulo César (André Moraes). Junta-se aos músicos o candidato a cineasta, Dico (Selton Mello), e o quinteto vai tentar a vida em Nova York, tendo por primeira meta participar do mitológico concerto do Carnegie Hall, que projetou a bossa nos EUA em 1962.  A história de amor é entre Joaquim, casado no Brasil (com Alessandra Negrini), e a fogosa cantora e flautista Glória Baker (Claudia Abreu), residente nos Estados Unidos. As histórias são contadas em dois tempos. No momento em que tudo acontecia, anos 60 e 70, e no presente, com os remanescentes dos Desafinados, já envelhecidos, recordando o que havia se passado. O filme é uma homenagem a uma geração e seus sonhos e também aos amigos pessoais de Walter Lima Jr., diretor que faz parte do núcleo duro do Cinema Novo. "Todos os nomes dos personagens são de amigos; Joaquim é Joaquim Pedro de Andrade, Davi, David Neves, e assim por diante." Como existe um "filme dentro do filme", dirigido por Dico (também uma homenagem ao então diretor do Banco Nacional de Minas Gerais, que financiava o Cinema Novo), ele tem como diretor de fotografia Dib Lutfi, um dos nomes emblemáticos do movimento. Esse "metafilme" se chama Bala Certeira, Corpo Fechado, e era, de fato, um projeto que Walter Lima Jr. nunca conseguiu realizar. "Assim, pelo menos, consegui colocar um pedacinho dele por intermédio do cineasta imaginário Dico", diz Walter.  O diretor disse que fez questão também de colocar, nesse pano de fundo político, alguns fatos de época, através dos personagens. Joaquim tem alguma coisa de Tom Jobim, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, representa o pianista Tenório Júnior, que em 1976 foi a Buenos Aires em uma turnê com Toquinho, Vinicius de Moraes e Maria Creusa, e desapareceu para nunca mais voltar. Tenório saiu do hotel para comprar cigarros, foi preso pela polícia da recém-instaurada ditadura militar argentina e sumiu em seus porões. "Nada nunca foi esclarecido totalmente", disse Walter, que tomou conhecimento do caso por circunstâncias casuais. "Eu era vizinho da mulher de Tenório, no Rio, e, como ela não tinha telefone em casa, usava o meu para tentar, desesperadamente, ter notícias do marido sumido; assim, acompanhei toda a história", disse.  O filme é fluente, envolvente, e tem aquele toque fluido de Walter Lima Jr. Faz bem a passagem entre frente e fundo, isto é, entre o período histórico e as histórias particulares dos personagens. Evoca, sem nostalgia, mas com gosto e prazer, uma determinada época. Nela, os valores humanos como a amizade e a solidariedade estavam em alta. Mas as circunstâncias políticas forneciam duro contraponto aos "anos dourados". Há algo também de Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, no tom adotado por Walter Lima Jr. para Os Desafinados. No fundo, ambos dizem alguma coisa a respeito dos sonhos, que não costumam se realizar de forma integral, mas ainda assim valem a pena ser sonhados. Somos movidos por eles. E, em boa medida, feitos do mesmo material que eles, como já escreveu alguém.  O programa foi completado pelo bom filme argentino As Vidas Possíveis, de Sandra Gugliotta. Na história, um mistério de tons borgianos. Uma mulher vai à Patagônia em busca do marido que desapareceu sem deixar traços. Encontra lá um corretor de imóveis que se parece muito com ele. Bem filmado, com ar de mistério permanente e final aberto, As Vidas Possíveis explora o fascínio do duplo, esse tema de Dostoievski, Borges e Cortázar.  Com este filme, o festival se encerra com um balanço extremamente positivo. Em 2008, o Cine Ceará apresentou a melhor seleção dos seus 18 anos de história. Nenhum dos longas apresentados era ruim. Alguns atingiram o máximo a que o cinema contemporâneo pode chegar, como é o caso de Luz Silenciosa, do mexicano Carlos Reygadas. Mas ele vai competir com vários outros concorrentes que ficam entre o bom e o ótimo, como As Vidas Possíveis, Cartões Postais de Leningrado, Nossa Vida Não Cabe Num Opala, Circunstâncias Especiais, Falsa Loura, O Grão, Os Desafinados, Tambogrande e Vete de Mi. Há que reconhecer - Luz Silenciosa está num patamar acima. A seleção de curtas também esteve muito boa, optando por um recorte estilístico bem particular. Aparentemente, a curadoria do festival ignorou, nesse segmento, o cinema narrativo, preferindo obras mais experimentais, com trabalho mais intensivo na linguagem cinematográfica. Só assim se explica que, dos quase 400 inscritos, tenham saído 18 concorrentes com essas características. Numa competição de alto nível, alguns se destacam, como Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra, Sin Peso, de Cao Guimarães, A Psicose de Walter, de Eduardo Kishimoto, Antonio Pode, de Ivan Morales Jr., Areia, de Caetano Gotardo, Corpo Presente: Beatriz, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori, entre outros. Esse foco fechado da curadoria pode até ser criticado. Mas tem a virtude de ressaltar a vocação experimental do curta-metragem, pouco valorizada em outros festivais.  O repórter viajou a convite da organização do festival

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