Bridget Bennett / The New York Times
Bridget Bennett / The New York Times

Os cinemas voltaram a funcionar, mas o público não apareceu. E agora?

O filme 'Tenet' deveria marcar o retorno das atividades dos cinemas nos Estados Unidos. Em vez disso, mostrou quantos problemas a indústria está enfrentando

Nicole Sperling e Brooks Barnes, The New York Times

17 de setembro de 2020 | 10h00


LOS ANGELES - O filme Tenet deveria marcar o retorno das atividades dos cinemas nos Estados Unidos. Em vez disso, mostrou quantos problemas a indústria está enfrentando. Após cinco meses de fechamento forçado por conta da pandemia, as grandes redes de cinemas reabriram em cerca de 68% dos Estados Unidos no fim de semana do Dia do Trabalhador (feriado que ocorre na primeira segunda-feira de setembro), em grande parte para que pudessem exibir o filme de 200 milhões de dólares, que a Warner Bros promoveu como “uma tenda global com estacas de cair o queixo em tamanho, escopo e escala.” 

Mas Tenet, dirigido pelo peso-pesado de bilheteria Christopher Nolan, em vez disso, chegou com um lamento: arrecadou US$ 9,4 milhões em seu primeiro fim de semana na América do Norte e apenas US$ 29,5 milhões nas duas primeiras semanas.

Os cinemas permanecem fechados em Nova York e Los Angeles, os dois maiores mercados dos Estados Unidos e o centro da base de fãs de Nolan. Nas áreas onde Tenet foi exibido, a preocupação do público com a segurança - mesmo com a capacidade do teatro limitada a 50% ou menos na maioria dos locais - provavelmente afetou as vendas de ingressos. Analistas de bilheteria também apontaram que Tenet é um filme cerebral complicado com pouca chance de popularidade; uma oferta mais superficial e escapista poderia ter tido mais facilidade para convencer as pessoas a voltarem aos cinemas.

Seja qual for o motivo, o resultado final foi extremamente claro: as pessoas não vão ao cinema nem perto dos números que Hollywood esperava, e não se espera que as coisas melhorem no curto prazo. Os estúdios estão adiando os grandes filmes novamente - Mulher Maravilha 1984 teve a estreia postergada na semana passada, levando pelo menos três estúdios a convocar reuniões na segunda-feira para discutir como proceder com outros lançamentos programados - deixando os proprietários de cinemas sem muitas novidades para os próximos dois meses. Alguns analistas começaram a soar alarmes em relação ao futuro dos cinemas.

“Não temos como prever quanto tempo levará para que o consumidor volte a ficar confortável em cinemas fechados”, escreveu Rich Greenfield, fundador da empresa de pesquisa de mídia Lightshed Partners, em um relatório na segunda-feira.

Nos últimos dias, a Warner Bros mudou a data de estreia de Mulher Maravilha 1984 de 2 de outubro para o dia de Natal, e a MGM/Universal adiou o remake violento de O Mistério de Candyman para o próximo ano. A STX anunciou que estava mudando a estreia de seu filme de desastre estrelado por Gerard Butler, Greenland, de setembro para o final deste ano. Viúva Negra, da Marvel e Soul, da Pixar, são dois filmes que deveriam ser lançados em novembro e cujo futuro parece agora em questão.


 


“Estou desapontado que o mercado ainda esteja 30% fechado”, disse Jeff Goldstein, presidente de distribuição da Warner Bros. “Os mercados que faltam são mercados-chave onde os filmes de Chris Nolan realmente tiveram um bom desempenho no passado.” Os últimos três filmes sem sequências de Nolan - A Origem, Interestelar e Dunkirk – arrecadaram em suas estreias cerca de US$ 50 milhões na América do Norte e, depois, entre US$ 527 milhões e US$ 837 milhões em todo o mundo, com a maior parte das vendas vindo do exterior.

Os proprietários de cinemas agora precisam confiar em dois fatores fora de seu controle: os estúdios manterem o curso com os lançamentos de final de ano e Nova York e Los Angeles (junto com São Francisco, o terceiro mercado do país) permitirem a reabertura dos cinemas.

Morte no Nilo, da divisão da Disney Twentieth Century, é o filme de maior orçamento ainda programado para ser lançado em outubro. Se Viúva Negra (6 de novembro) ou o espetáculo de James Bond 007 - Sem Tempo para Morrer (20 de novembro) forem adiados ou exibidos online - como a Disney fez recentemente com Mulan - os cinemas provavelmente enfrentarão árduas conversas a respeito de seus futuros com investidores e credores.

Além disso, quanto mais a pandemia se prolonga, mais o streaming se torna uma ameaça para os cinemas. Pelo menos uma dúzia de filmes originalmente destinados às telas grandes, incluindo Hamilton, Trolls 2 e Greyhound, foram redirecionados para serviços de streaming ou plataformas de aluguel online. A mudança fez com que o dinheiro fosse para os estúdios, mas analistas dizem que isso prejudicou os cinemas ao treinar os consumidores a esperar que novos filmes estejam disponíveis instantaneamente em suas casas.

“Estamos aprendendo que os mercados que estão sendo abertos, cinemas com protocolos de segurança e estúdios que lançam filmes estão todos interligados”, disse John Fithian, CEO da Associação Nacional de Proprietários de Cinemas, por e-mail. “Os mercados abertos precisam de cinemas seguros, os filmes precisam de mercados abertos, os cinemas precisam de filmes. Todas essas coisas aumentam a consciência e tranquiliza o público para retornar ao cinema. Você não pode fazer um de cada vez. ”

A reação de Wall Street à estreia de Tenet e ao adiamento de Mulher Maravilha é notável. As ações da AMC subiram para cerca de US$ 7 em 4 de setembro, o dia em que Tenet chegou aos cinemas dos Estados Unidos, ante US$ 2 em abril. Desde então, elas diminuíram cerca de 17%. O Cinemark caiu 18% desde 4 de setembro. Cineworld, a empresa-mãe do Regal Cinemas, caiu 14%. (Para contexto, o S&P 500 é estável para o período.)

“Do ponto de vista do caixa, podemos ver isso até o próximo ano, se necessário”, disse Mark Zoradi, CEO da rede Cinemark, por telefone. A empresa, com sede no Texas, opera cerca de 5.977 telas nos Estados Unidos e na América Latina. “O quarto trimestre está nos trazendo um senso de realidade. O próximo ano é um ano de transição. 2022 será o retorno a um senso de normalidade. ”

Ele acrescentou que pesquisas recentes com clientes mostraram 97% de satisfação com os protocolos de segurança. “Gastamos milhões e milhões de dólares para acertar essas coisas”, disse ele. “Se pudermos convencer o consumidor de que fizemos todas essas coisas, é muito mais provável que ele queira voltar.” A maior rede de multiplex do país, AMC Entertainment, não quis comentar.



Quando se trata dos três maiores mercados cinematográficos, as expectativas são moderadas tanto para Los Angeles quanto para São Francisco, devido às medidas rígidas que o governador da Califórnia, Gavin Newsom, anunciou recentemente como parte de seus planos de reabertura. 

Para Nova York, porém, expositores e executivos de estúdio estão indignados porque o governador Andrew Cuomo não deu um cronograma específico a respeito de quando os cinemas podem reabrir, atrelando-os a outros locais de grande aglomeração como salas de concertos e parques de diversões, enquanto permite pistas de boliche e restaurantes retomarem o funcionamento sem estar ao ar livre. 

A cidade de Nova York não é apenas crucial para as vendas, mas grande parte da cobertura da mídia e da repercussão online em torno dos novos filmes é gerada a partir daí. (O New York Times normalmente não faz resenha de filmes que não estão sendo exibidos em Nova York.)

“A indústria precisa que Nova York reabra os cinemas o mais rápido possível”, disse Ken Thewes, diretor de marketing da Regal Cinemas. “O governador Cuomo fez um ótimo trabalho ao deixar tudo sob controle, mas realmente precisamos que ele dê aos cinemas o mesmo critério que deu à indústria de restaurantes e nos deixe retomar as operações.”

Se esses mercados não abrirem e os estúdios ficarem nervosos, os operadores de cinema podem ter que tomar algumas medidas dramáticas para resistir à tempestade. Shawn Robbins, analista-chefe do Box Office Pro, disse que os cinemas podem começar a reduzir o horário de funcionamento para minimizar as despesas - talvez se limitando às exibições em horários como 19h e 21h, deixando de lado matinês e exibições no início da noite. 

Em alguns casos, os cinemas têm locações que exigem que operem sete dias por semana. Para quem não tem essa imposição, exibir filmes apenas nos finais de semana pode ser uma opção. “O próximo trecho vai ser extremamente difícil”, disse Robbins.

Tenet não foi o único filme lançado em agosto, mas os outros - Os Novos Mutantes ($ 15 milhões) e Fúria Incontrolável (US$ 14 milhões) - não se saíram muito melhor nas bilheterias, embora tenham custado menos que metade do orçamento do filme de Nolan para serem feitos.

Para Mark Gill, CEO da Solstice Studios, o estúdio por trás de Fúria Incontrolável, a receita do filme não está nem perto do nível que ele esperava cinco semanas após o lançamento. No entanto, ele diz que o desempenho internacional de Tenet - que rendeu US$ 177 milhões em todo o mundo - ilustra que, se os Estados Unidos conseguirem controlar seus problemas de segurança pública, as pessoas começarão a ir aos cinemas novamente.

“Você pode ver que isso se relaciona apenas com a situação da saúde pública aqui”, disse ele. “Quanto mais tempo levarmos para manter isso sob controle, mais difícil será. Não é um problema permanente, mas é um grande problema temporário.”


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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