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'Os Campos Voltarão' já nasce como um clássico antibelicista

Magnífico filme de Olmi expõe lado contrário à guerra

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2016 | 21h44

Há filmes que lamentam a guerra e outros que fazem sua apologia. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi, alinha-se na primeira perspectiva e a leva adiante. Antibelicista de maneira franca e aberta, não se limita, porém, a discursos bem-intencionados. Pretende mostrar o que pode ter sido a vida de um grupo de soldados numa trincheira da 1.ª Guerra Mundial e leva o espectador a pensar o que pode ser a política quando levada a seu extremo de violência. Como dizia o prussiano Carl von Clausewitz, a guerra é apenas a continuação da política por outros meios.

O filme é inspirado de forma livre no livro La Paura (O Medo), de Federico de Roberto. Ambienta-se no Altopiano di Asiago, região fria onde mora o próprio diretor. Mas não se trata apenas da transcrição de um livro (aliás, bastante famoso na literatura italiana pela força do seu relato). Olmi dedica o trabalho ao pai que, diz ele, “viveu a guerra quando criança e me contava sempre histórias sobre ela”. Há, então, uma fonte literária e a memória familiar de quem passou pelas agruras de uma guerra e legou essas lembranças à sua descendência.

Olmi trabalha com o contraste entre dois planos de narrativa. Num deles, o lado externo, a montanha branca, gelada, linda, porém inóspita. Do outro, o interior da trincheira, onde os soldados montaram, como puderam, aquilo que se poderia chamar de “lar”, não fosse a ironia do termo, nessas condições. De qualquer forma, é onde dormem, descansam, cozinham e convivem. E onde tentam se abrigar de um frio que congela os ossos e a alma.

Um grande filme é um todo e mais algumas cenas marcantes. Há o conjunto e o detalhe. Algumas cenas ou sequências espraiam seu significado sobre o conjunto da obra. Impossível, por exemplo, esquecer o soldado que entoa suas tristes cançonetas napolitanas no frio da noite, ouvido tanto pelos companheiros quanto pelos inimigos. Todos encastelados naquela angustiante espera da “guerra das trincheiras”, como já foi definida a 1.ª Guerra.

A natureza do conflito tem desses aspectos. Por questões estratégicas, às vezes, ele se detém. Como num jogo de xadrez, delimitam-se posições. Mas, nesse caso, as peças, os peões, são seres humanos. De carne, osso e sentimentos. A voz bonita do soldado, cortando a noite, é um momento de beleza quase atroz naquele ambiente rude. A voz humana é o elemento que assinala a posição do autor. Ele está do lado do ser humano, independentemente das conjunturas econômicas ou políticas que levaram à guerra.

E, no todo, Os Campos Voltarão é um filme de espera, de soldados à mercê de um clima hostil e cercados de inimigos, enfrentando, também, ordens do alto comando que podem soar absurdas. Essa paralisia, o combate que não acontece, ou vem aos espasmos, produz um crescendo de medo. Sentimento que também precisa ser combatido, nesse ambiente gélido, no espaço fechado e claustrofóbico da trincheira, entre feridos graves, homens famintos e já com pouca esperança de voltar para casa.

Essa questão da espera desloca o filme para outro lado e faz lembrar de O Deserto dos Tártaros, o romance de Dino Buzzati filmado por Valerio Zurlini. Neste, a espera, a falta de sentido do militarismo, a artificialidade da hierarquia são expostas de forma gélida por um Zurlini que adota tom kafkiano. Em Olmi, existe a sensação de absurdo, mas ela é acomodada em um ambiente mais cálido, em forma humana que contrasta com o clima polar da locação. É como se dissesse que existe uma frieza no cálculo político que determinou a presença daqueles homens naquele ambiente e naquele estado terminal, mas, entre eles, os laços de fraternidade e solidariedade sobrevivem. O canto do soldado no início é um sinal desse tônus da obra. Ele depois será desenvolvido no interior da trincheira, entre homens que têm cada vez menos com que sobreviver e são obrigados a gastar suas energias no controle desse sentimento primário que é o medo, para que ele não tome conta de tudo e nem os embruteça de vez.

Olmi, em seus 84 anos, é um mestre de sua arte. Quem viu obras-primas como A Árvore dos Tamancos ou A Lenda do Santo Beberrão, conhece seu domínio da imagem, da paleta de cores e da construção de cenas. Neste filme antibelicista e lúcido, esboça, em planos magníficos, esse pensamento em forma de imagens. A reflexão culmina com a narrativa do soldado: chegada a primavera e o verão, os campos, agora nevados, voltarão a florir e tudo terá passado. Eles, seus sofrimentos e esperanças, os motivos fúteis ou não que os levaram até lá, tudo será coberto pelo mesmo manto branco do esquecimento.

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