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'Os Árabes Também Dançam' não evita clichês para defender tolerância

Produção de Eran Riklis é a versão de 'Romeu e Julieta' no Oriente Médio

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2015 | 02h00

Com Os Árabes Também Dançam, Eran Riklis entra na seara do assim chamado “cinema de tolerância”, que prega a difícil convivência entre povos no Oriente Médio. Cabe lembrar que o paladino dessa causa cinematográfica é o grande Amos Gitai, cineasta israelense mal visto pela direita do seu país (o Likud), pois defende, em seus filmes, soluções pacíficas para a coexistência entre os povos da região. O filme de Riklis é baseado no romance homônimo de Sayed Kashua, israelense de família árabe. Sabe do que fala. E, por isso, na abertura do longa, afirma-se que cerca de 20% da população israelense é árabe. Número surpreendente.

A trama apoia-se na figura de Eyad, um palestino nascido em Israel, que, na infância, se revela uma espécie de geninho em matemática. O ambiente familiar é composto por pessoas hostis a Israel. O pai chegou a ser preso e teve problemas por militar em grupos armados. Por isso, o garoto tem problemas na escola quando o professor pergunta pela profissão do pai e ele responde: “Terrorista”. Mesmo depois de reprimido e de levar uma palmadas do professor, Eyad repete que o pai é terrorista e que isso é preferível a exercer qualquer profissão subalterna destinada ao seu povo em Israel.

A situação se complica quando, mais crescido, o agora adolescente Eyad se apaixona pela garota bonita da classe, Naomi, judia, obviamente. O que traz problemas para as duas famílias, que não se aceitam mutuamente. Essa parte da história não foge aos estereótipos. E talvez estes se justifiquem no enredo, pois, como se sabe, é mais fácil mover uma montanha que demover um preconceito. Ainda mais quando este é reafirmado de maneira quase cotidiana ao sabor das intolerâncias políticas, que geram mais violência e mais represálias, num círculo infernal aparentemente sem fim.

Um terceiro elemento entra na história de Eyad: seu amigo Yonatan, um rapaz judeu que sofre de uma precoce doença degenerativa e obrigará a mãe a sacrifícios, que ela partilhará com Eyad. Yonatan é inteligente, culto e libertário. Será uma influência positiva sobre Eyad, e também sobre os outros.

É como se o diretor dissesse que, em meio a tanta obstinação e tanta violência, existem espaços de respiração na sociedade israelense, que podem significar uma fresta de luz, algum tipo de esperança no futuro. Não por acaso, essa pequena luz é colocada por um personagem jovem e doente. Quer dizer, a mudança só pode vir da juventude, mas ela própria é tão frágil e tão distante do poder que pode muito bem não chegar a influir nos destinos históricos da região. Tudo fica em aberto.

A presença dramática desse personagem areja a história de Os Árabes Também Dançam. O filme não evita os clichês e trabalha até com o maior deles, o amor entre dois jovens de famílias rivais. Eyad e Naomi são um pouco como Romeu e Julieta no Oriente Médio, a paixão dividida pela origem étnica das famílias. Não se trata dos Montecchio e Capuletto da tragédia de Shakespeare, mas simplesmente de árabes e israelenses condenados a ocupar o mesmo espaço na geografia – e também na História.

Além de algumas situações previsíveis, o filme, em termos estéticos, não escapa muito a certa narrativa padrão de boa qualidade. A fotografia, a montagem, os recursos cênicos parecem pensados de modo a transmitir uma boa mensagem com o mínimo de ruído possível em termos de linguagem cinematográfica. A aposta revela-se vencedora. Assiste-se ao filme com prazer, embora sem surpresas, quase até o fim.

 

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