REUTERS / Mario Anzuoni
REUTERS / Mario Anzuoni

'Os 7 de Chicago': roteirista Aaron Sorkin fala sobre filme da Netflix

Produção se concentra num controvertido julgamento nos Estados Unidos em que um grupo de ativistas de esquerda foi acusado de provocar distúrbios na Convenção Nacional Democrata de 1968

Entrevista com

Aaron Sorkin

David Villafranca, EFE

16 de outubro de 2020 | 13h16

Los Angeles - Aaron Sorkin é um idealista. Seus apaixonados roteiros sempre imaginam uma política comprometida (The West Wing – Nos Bastidores do Poder), ou uma mídia honesta (The Newsroom) e por isto não surpreende o fato de que, agora, com o filme Os 7 de Chicago, ele faz uma defesa do protesto cidadão com total fervor.



“As pessoas que saem às ruas para protestar são as mais patrióticas”, afirmou ele numa entrevista à EFE. O carismático autor, que depois de ganhar um Oscar de melhor roteiro pelo filme A Rede Social (2010) volta a ser um candidato aos prêmios da Academia de Cinema de Hollywood com um filme que aparece em todos os prognósticos.

O filme chega esta semana na Netflix e se concentra num controvertido julgamento nos Estados Unidos em que um grupo de ativistas de esquerda foi acusado de provocar distúrbios na Convenção Nacional Democrata de 1968.

Com um elenco formidável (Sacha Baron Cohen, Eddie Redmayne, Frank Langella, Mark Rylance, Yahya Abdul-Mateen II), Sorkin escreveu e dirigiu este filme poderoso que, embora ambientado nos anos 1960, reflete temas de grande atualidade nos Estados Unidos, como a defesa das liberdades civis, a luta contra a injustiça, a criminalização dos protestos ou os atritos entre a esquerda moderada e radical.


 


 

Você tem uma longa e vitoriosa carreira como roteirista, mas este é seu segundo filme como diretor, depois de 'A Grande Jogada', de 2017. Qual o prazer de se sentar atrás da câmera?

Desfruto do grupo de pessoas com as quais trabalho diariamente. E é agradável ficar envolvido com o filme por mais tempo. Sempre estou no set de filmagem para ver coisas que escrevi, mas depois, durante a pós-produção, você tem de partir, deixar para o diretor e o pessoal da montagem fazerem o seu trabalho e, na verdade, você não vê nada até uma primeira montagem pronta para lhe mostrar. Gosto de estar presente durante todo o percurso e é belo saber que, quando há um erro, ele é seu.


 

Por que os anos 1960 são tão relevantes para entendermos o momento presente?

Ao escrever, e depois dirigindo o filme, não pensei nos anos 1960, mas no momento presente. O filme nunca foi feito com o pensamento em 1968, e sim nos dias de hoje, especialmente quando esse “hoje” remonta a 14 anos, quando Steven Spielberg me disse: “quero que você escreva um roteiro para um filme sobre os sete de Chicago”. Fiz questão de não nos atermos à iconografia dos anos 1950: os símbolos de paz, as camisetas pintadas, a estética psicodélica. E disse ao nosso compositor, Daniel Pemberton, que a trilha sonora não deveria ter os habituais hinos de protesto, teria de ser uma partitura contemporânea com grande orquestra. Depois o mundo se encarregou do resto, os Estados Unidos cuidaram do resto. E Donald Trump também. Acreditávamos que o filme era totalmente relevante quando o produzimos no inverno passado, não precisava se tornar ainda mais relevante.

Mas nós o fizemos, você sabe, com os protestos acontecendo nas ruas sobre os disparos da polícia contra os afro-americanos. Esses manifestantes que enfrentaram o gás lacrimogêneo e os cassetetes. De repente as notícias pareciam cenas do nosso filme.



 

Pensando no movimento Black Lives Matter e na criminalização dos manifestantes no filme, você acha que o direito de protestar está em risco nos Estados Unidos?

Sim. E temos provas. Quando manifestantes totalmente pacíficos na Lafayette Square, na frente da Casa Branca, foram dispersados com gás e balas de borracha pelas forças de segurança para que Trump pudesse ter sua foto em uma igreja, esse foi um momento assustador. E também quando Trump diz no seu Twitter que temos de acusar esses manifestantes de conspiração. Isto é traição, é uma tentativa de derrubar um país.

É a demonização do protesto, seja a rua protestando contra o assassinado de George Floyd ou um atleta se colocando de joelhos pacificamente no campo durante o hino nacional. Meu maior desejo com este filme é que as pessoas se entretenham durante as duas horas em que peço sua atenção. E é um filme de entretenimento: você vai rir, vai comer pipoca enquanto o assiste.

Mas também quero prestar homenagem às pessoas que saem às ruas para protestar como as mais patrióticas entre todos nós.


 

Em suas histórias sempre existe um toque de otimismo, às vezes de idealismo. Você está otimista diante das próximas eleições?

Sou otimista. Se me perguntar a razão disto, não poderia indicar algo específico do que o fato de que neste país nossos dias mais sombrios sempre foram seguidos de horas mais brilhantes. Foi um brusco despertar ver nestes últimos quatro ou cinco anos quantas pessoas foram tão facilmente persuadidas por este palhaço grotesco e estúpido, e perceber quanto ódio há por trás disto. Pensávamos que isto havia desaparecido nos anos 60, mas agora está de volta.

Como você disse, escrevo de maneira otimista, idealista e romântica, e isto é porque gosto de escrever sobre heróis, que não usam capas, não têm superpoderes, e sobre a bondade da qual somos capazes. E se vou escrever assim, deveria me sentir do mesmo modo na vida real (sorriso).


 

Após as eleições de 2016, você escreveu uma carta inspiradora e emotiva dedicada à sua filha sobre como superar a decepção. Se Trump vencer a eleição novamente, o que escreveria a ela agora?

É curiosa a sua pergunta, porque andei pensando nisso. Como muitos pais com filhos jovens, passei muito tempo nos últimos anos dizendo a ela que “isto não é normal. Isto não é o que deveria ser, tinha de ser algo muito diferente”. Mas se ele vencer novamente não podemos continuar dizendo que não é normal. Creio que a carta para ela terá de ser de ânimo: “Não se renda, não se transforme numa pessoa sombria ou cínica. Continue lutando: é assim que venceremos”.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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