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Os 30 anos da morte de François Truffaut

O melhor do diretor ainda é a infância, verve crítica destruía inimigos, e seu principal enigma sempre foi as mulheres; veja trailers

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2014 | 10h14

Completam-se nesta terça-feira, 21, 30 anos da morte de François Truffaut. O mais temido e odiado crítico de sua geração virou um diretor amado e, no Dicionário de Cineastas, Jean Tulard observa que sua morte tomou a dimensão de luto nacional na França. Mas ele nunca foi uma unanimidade. Jean-Luc Godard polemizou publicamente com o antigo parceiro - Truffaut lhe forneceu a história de seu primeiro longa, Acossado/À Bout de Souffle -, acusando-o de se haver transformado num pequeno-burguês. A rigor, talvez fosse esse o sonho de François. Em Os Incompreendidos/Les 400 coups, seu primeiro longa, de 1959, ele conta como poderia ter virado um pequeno delinquente. Salvou-o o cinema - e um crítico, André Bazin, que apadrinhou o jovem François e orientou seus primeiros passos, em Arts e Cahiers du Cinéma.

O primeiro filme foi autobiográfico, e deu origem a uma série em que Truffaut seguiu acompanhando o personagem Antoine Doinel, sempre interpretado por Jean-Pierre Léaud. A trajetória invisível foi um tanto errática - uma boa adaptação de David Goodis, leve e até divertida (e Tirez sur le Pianiste integra as apresentações especiais da Mostra), outra adaptação (de Henri-Pierre Roché), transformada naquilo que Paulo Francis chamava de obra-prima da politesse francesa, Jules e Jim/Uma Mulher para Dois, e um primeiro tropeço grave, Um Só Pecado/La Peau Douce. Truffaut fez de Kean Dessaily um pequeno intelectual que dá palestras pelo interior da França. Há nesse filme a idealização de uma certa burguesia, ou de uma certa intelectualidade. Dessaily quer flanar, ter amantes, a mulher, armada de carabina, põe fim a suas fantasias.

A mulher será sempre o grande enigma para Truffaut. Não fosse ele um notório sedutor - Patrice Leconte, que foi seu assistente, dizia que Truffaut filmava para dormir com suas atrizes -, poderia ser acusado de misoginia e, quem sabe, de homossexualidade reprimida. Catherine, em Jules e Jim, tal como é interpretada por Jeanne Moreau, é terna e cruel. Se a mãe foi o modelo para as mulheres de Truffaut, o retrato que ele faz dela em Os Incompreendidos não é nem um pouco lisonjeiro. As mulheres matam no cinema de Truffaut (Um Só Pecado e A Noiva Estava de Preto), destroem a respeitabilidade burguesa dos homens que desestabilizam (Catherine Deneuve em A Sereia do Mississippi), Bernadette Laffont é presa em Uma Jovem tão Bela Quanto Eu etc.

Como crítico, Truffaut fez história ao investir contra as glórias oficiais e o que chamava de cinema de qualidade francês, e que para ele era bem medíocre. Anos mais tarde, ele admitiria - para Isabelle Vichniac, numa entrevista para a Tribune de Genève - a própria má fé. Reconheceu que praticava uma crítica próxima do assassinato. Não lhe bastava demolir os filmes de que não gostava. Queria desmoralizar os autores, impedir que o público fosse aos cinemas."Agia por orgulho, queria ser escutado, e obedecido." Mas havia algo mais, e que talvez fosse, do ponto de vista ético, mais discutível ainda. Como muitos, se não todos os seus colegas de geração na nouvelle vague, Truffaut queria ser diretor. Destruir os Cayatte, Delannoy, Autant-Lara e Clément era eliminar a concorrência e assegurar a própria primazia no mercado.

Truffaut, quando odiava - filmes e autores -, era visceral. Quando amava - todo o cinema B de Hollywood -, era mais visceral ainda. Seus mestres foram Alfred Hitchcock, Jean Renoir e Roberto Rossellini. A obra, pois Truffaut sempre teve consciência de estar construindo uma 'obra', divide-se entre adaptações (de Roché, Ray Bradbury, William Irish/Cornell Woolrich, Henry Farrell e Henry James) e os roteiros originais da saga Doinel. Ele tentou o suspense, elaborou obras romanescas (As Duas Inglesas e o Amor, A História de Adèle H), celebrou o cinema (A Noite Americana, que venceu o Oscar de filme estrangeiro) e o teatro (O Último Metrô), mas seu filme mais despojado foi também o mais 'rosselliniano' (O Garoto Selvagem). Todo Truffaut, mas também todo Rossellini, está na dor desse garoto que é resgatado da vida selvagem, descobre a linguagem e também o isolamento. A grosso modo, pode-se dizer que Truffaut, tendo contado tantas histórias de amor, foi um romântico que desconfiava do próprio romantismo. Dizia que o amor é o grande (o único?) tema. E o que era o amor, para Truffaut? Oposição entre o gesto impulsivo e a palavra consciente.

Nascido nem Paris, em 6 de fevereiro de 1932, morreu em Neuilly-sur-Seine, em 21 de outubro de 1984. A causa da morte foi câncer - no cérebro. Truffaut tinha 52 anos. Depois de uma vida afetiva intensa e tumultuada, ele finalmente parecia ter encontrado a mulher/atriz perfeita, Fanny Ardant. Não é preciso ser cínico nem agir de má fé, como fazia o próprio Truffaut, para dizer que ela talvez tenha sido mais benéfica para ele na vida que na arte. A Mulher do Lado tem seus defensores, mas De Repente num Domingo, de 1983, que terminou sendo seu último filme, é um suspense fraquinho, com o qual o crítico François não teria tido paciência. Cada um terá seu Truffaut de cabeceira, o filme para levar para a ilha deserta. Três décadas é muito tempo. O mundo e o cinema passaram por verdadeiras revoluções.

Truffaut teria se aburguesado cada vez mais? Teria ido para a vida? Nunca saberemos, mas com toda a polêmica que ele ainda provoca, alguns de seus filmes - e alguns de seus textos - permanecem inspiradores. O melhor Truffaut? O da infância - O Garoto Selvagem e Na Idade da Inocência/L'Argent de Poche. Entre os filmes de amor, Jules e Jim. Entre os policiais, A Noiva, que talvez deva mais a Robert Aldrich do que a Hitchcock. Truffaut foi ator, e isso o popularizou ainda mais. Apareceu nos próprios filmes (O Garoto Selvagem e La Chambre Verte), e também em Encontros Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg.

Veja o trailer de Jules e Jim (1962):

Abaixo, o trailer de Os Incompreendidos (1959):

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