Ornella Muti filma no Brasil

Ornella Muti está no Brasil, filmando com Walter Lima Jr. Chegou em 27 de fevereiro. O filme começou a ser rodado em 7 de março. Para entrevistá-la é preciso visitar o set de O Filho Predileto. No sábado, dia 17, ela rodava uma externa no Alto da Boa Vista. Ornella estava no trailler. De bobs no cabelo, sendo preparada para a cena que deveria rodar a seguir. O sorriso era amigo. Os olhos, aqueles poços verde-azulados que a distinguem tanto na tela.Não pensa duas vezes quando a pergunta se refere aos filmes preferidos. A Viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola, mora em seu coração. E Ferreri, claro, é um capítulo à parte. Acha que foi uma felicidade, para ela, como mulher e atriz, ser integrada a esse universo que define como "tão particular". L´Ultima Donna foi o primeiro filme que fizeram juntos. Depois, veio o preferido, Crônica de um Amor Louco, que virou cult movie no Brasil, nos anos 80, e consolidou o prestígio internacional da atriz. E, finalmente, O Futuro É Mulher. Foi Odette de Crécy, na adaptação que o alemão Volker Schlondorff fez de Marcel Proust (Um Amor de Swann). Adorou o elenco (Jeremy Irons, Alain Delon, Fanny Ardant), mas sabe que o filme, apesar do roteiro de Jean-Claude Carrière, não é muito proustiano. Está adorando o Brasil. Diz que o país "é místico, é maravilhoso, estou feliz de estar aqui", resume. É praticamente sua primeira viagem, a primeira estadia no País. Já esteve na Ilha de Caras, mas sabe que lá era uma fantasia, pouco ou nada tendo a ver com o Brasil real. Na seqüência, passou rapidamente por São Paulo, lançando O Amante Bilíngüe, do espanhol Vicente Aranda, em 1995. Fez saber que estava interessada em filmar com diretores brasileiros, se surgissem convites interessantes, de bons diretores. Walter Lima Jr. enquadra-se perfeitamente nesse perfil. Quando chega para rodar sua cena, o clima é meio frenético. O Sol está se pondo, se o plano não for rodado rapidamente o dia terá sido perdido. Ela se põe a postos, profissionalíssima. Algum diretor disse que a escolheu por causa desses olhos? Ela responde que, pelos olhos, nunca, ou pelo menos nunca lhe disseram. Pela beleza, sim. Diz que a beleza pode ajudar muito a carreira de uma atriz, mas também pode ser prejudicial. "Produz insegurança; como atriz não tenho de ser só bonita, tenho de representar." Surpreendeu-se várias vezes perguntando a si mesma - "Será que me querem só pela beleza? E quando ela se acabar?" Nada do que diz é para impressionar. Não banca a diva, a estrela. Revela até que sacrificou muita coisa na carreira por amor. Maridos, filhos, sempre foram prioritários para ela. Em O Filho Predileto ela faz uma italiana que vem ao Brasil em busca dos pais biológicos de seu filho adotivo, gravemente enfermo. Contrata um invetigador, que é Reginaldo Faria. No telefilme co-produzido pela Columbia e pela RAI, a Rádio e Televisão Italiana, Ornella entrou no pacote. É um bom papel. Ela fala bem do diretor Walter Lima Jr. "Walter é carino", diz. Viu A Ostra e o Vento e gostou. "Muito bonito, muito poético." Diz que conhece apenas a produção brasileira mais antiga, quando o cinema do País era exibido com mais freqüência em festivais internacionais.Ao longo de sua carreira, especializou-se em interpretar mulheres fatais, capazes de desviar do bom caminho o mais controlado dos homens. No set de O Filho Predileto, a femme fatale exibe seu lado mais doce. Fala olhando nos olhos. Emite opiniões sinceras sobre os filmes e diretores com quem trabalhou. Admirava muito Dino Risi, com quem fez Venha Dormir Lá em Casa Esta Noite, Primo Amore e o episódio de Os Novos Monstros. "Dino era grande, agora está acabado." É mais ou menos como ela sente o próprio cinema italiano atual. "Continuamos fazendo filmes bonitos, mas eles são cada vez mais a exceção." Cita o novo Scola, Concorrenza Sleale, que diz estar arrebentando nas bilheterias. "De alguma forma, perdemos o rumo; o cinema italiano não sabe mais comunicar-se com as platéias de jovens que vão aos cinemas para ver quase que exclusivamente o produto hollywoodiano." Poderia ter investido mais numa carreira americana, mas teria de abandonar a Itália - "nem pensar".

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