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Originalidade e força das imagens e da narrativa marcam o filme argentino 'Jauja'

Obra vai da zona de conforto racional para a aventura em terreno inconsistente

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

25 de junho de 2015 | 05h00

Jauja tem sido comparado a uma série de clássicos, de Rastros de Ódio, de John Ford, a 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, passando por Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasetakhul. As referências têm lá sua razão de ser. Obedecem a uma necessidade de nossos cérebros de trazer algo desconhecido para terreno conhecido, para algo já registrado em nossa sensibilidade e inteligência. Também há um aspecto racional nisso tudo. Não há nada de radicalmente novo debaixo do Sol, como diz o Eclesiastes, por mais que artistas tentem colocar-se num ponto inefável de absoluta originalidade. Isso não existe, simplesmente. De modo que as coisas se parecem, objetivamente, e a originalidade é apenas questão de grau. Vivemos na cultura e ela impregna o que fazemos, sentimos ou pensamos. Não há nada que possamos fazer a respeito.

Dito isso, há que se admirar em Jauja nem tanto a originalidade como a força das imagens e da narrativa encontrada por Alonso. Há, de fato, algo do caubói solitário em Viggo Mortensen, andando pelo deserto da Patagônia em harmonia com seu cavalo, porém atormentado pela procura da filha. A busca sempre aponta para algo de metafísico, e vai além do fato objetivo de se encontrar ou não uma pessoa. A busca é sempre busca de si, ou de uma suposta harmonia quebrada, no caso a relação, talvez um tanto incestuosa, entre filha e pai.

E, claro, há todo o tratamento do tema. A janela em 4x3, remete a filmes antigos e joga, sobre a narrativa, mesmo em sua parte mais “realista”, uma pátina de fantasia. Ainda mais a partir do momento em que o capitão Gunnar Dinensen (Mortensen) encontra uma velha senhora em uma gruta e o relato muda de vez de registro para se situar no plano do fantástico. Nesse momento, identidades são abolidas e ocorrem passagens abruptas no tempo, com passado e futuro se fundindo. Ressalte-se a imaginação visual dessas cenas.

Nessas passagens, o espectador é tomado de surpresa e convidado a deixar sua zona de conforto racional para se aventurar em terreno inconsistente. O que tudo isso significa? Não existe uma resposta linear, embora caibam várias interpretações. Alonso tem se recusado a servir de exegeta de sua própria obra. É provável que nem ele mesmo a compreenda por inteiro, como diz, com seu ar blasé. É bem possível que, por trás do tédio, haja mesmo sinceridade. Nem sempre sabemos o que estamos fazendo e mais ainda quando o assunto é arte.

Adentramos território desconhecido e esse é um dos sentidos para o arrojo de Dinensen. Cabe a cada um deixar-se sensibilizar pelas perguntas de Jauja, palavra que, não esqueçamos, designa um local mítico, o lugar da abundância, quem sabe o paraíso perdido.

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