"Orfeu" estréia nos EUA sob grande expectativa

Orfeu, o mais novo filme de Cacá Diegues, chega hoje ao circuito cinematográfico americano. Distribuído pela New Yorker Films/Warner Bros., o longa estrelado por Toni Garrido e Patrícia França que atualiza o mito de Orfeu e Eurídice a partir da peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius de Morais em 1956, está sendo lançado preliminarmente em quatro salas. Além de dois cinemas convencionais para filmes estrangeiros e de arte na região de Manhattan, a produção de Diegues está entrando em cartaz também num cinema do Queens, região metropolitana de Nova York, e em outro de Newark, cidade do Estado de Nova Jersey, onde existe grande concentração de portugueses e brasileiros. A estratégia de lançamento de Orfeu nessas salas do Queens e de Newark está sendo acompanhada com interesse especial por Michael Barker, um dos presidentes da distribuidora Sony Classics, o braço do estúdio Sony especializado em filmes estrangeiros, documentários e produções independentes. Se o lançamento da concorrente der certo, a Sony deve lançar o longa Eu Tu Eles, de Andrucha Waddington, a grande esperança do cinema brasileiro no Oscar de 2001, em circuito semelhante no fim do ano. Orfeu e Eu Tu Eles formam com O Primeiro Dia, de Walter Salles, e Bossa Nova, de Bruno Barreto, respectivamente lançados nos cinemas americanos em março e em abril, o bloco da maior invasão da produção cinematográfica brasileira nos Estados Unidos num mesmo ano. Esses quatro títulos são reforçados ainda pela seleção de Cronicamente Inviável, do cineasta paranaense Sérgio Bianchi, para a 38ª edição do Festival de Cinema de Nova York, que começa no próximo mês, e da ajuda indireta de Sabor da Paixão (Woman on Top), produção da cineasta venezuelana radicada na França Fina Torres, que reúne a sensação atual da Espanha Pénelope Cruz e o ator carioca Murilo Benício, também integrante do elenco de Orfeu. Em número de lançamentos estrangeiros nos Estados Unidos este ano, o Brasil só perde para a Inglaterra, o Canadá e a França. Países de cinematografia cultuada como China, Alemanha, Hungria e Irã só conseguiram emplacar uma produção no circuito americano em 2000: respectivamente Shower, de Zhang Yang, Aimee Und Jaguar, de Max Faberbock, Sunshine, de István Szabó, e O Vento nos Levará, de Abbas Kiarostami. "O cinema brasileiro está apresentando uma grande maturidade em seus temas e, o que é mais importante, ele deixou de ser um gênero", explica Cacá Diegues durante um almoço com a reportagem do Estado. "O Cinema Novo, por exemplo, teve um grande respaldo internacional, mas seus temas estavam atrelados a uma mesma plataforma política", prossegue o diretor. "Desses cinco filmes brasileiros programados este ano para exibição nos Estados Unidos este ano, nenhum é parecido com o outro." Produção interna - Apesar do entusiasmo que a produção nacional desperta no exterior nesta atual termporada, Diegues é o primeiro a apontar o balde de água fria que se espera em 2001 para o cinema brasileiro. "Talvez, no ano que vem, somente Walter Salles consiga chegar com seu novo filme ao mercado externo", explica Diegues. "O que está acontecendo agora é uma queda na produção cinematográfica interna por causa de problemas com a Lei do Audiovisual, que precisa de reformas urgentes", continua. "Estive em São Paulo recentemente e tive a surpresa de saber que Beto Brant, cujos filmes eu adoro, está voltando para a publicidade, porque não conseguiu captar recursos para seu próximo projeto." E o diretor acrescenta: "Nos últimos anos, a geração intermediária de cineastas brasileiros fez os melhores filmes de suas carreiras como Walter Salles, com Central do Brasil; Fábio Barreto, com O Quatrilho; Beto Brant, com Os Matadores; Sérgio Rezende, com A Guerra de Canudos, entre tantos outros exemplos." Diegues diz estar confiante na promessa do presidente Fernando Henrique Cardoso e do ministro da Cultura Francisco Weffort de promover mudanças na Lei do Audiovisual. "Mas essas reformas precisam ser urgentes, para evitar que o cinema brasileiro diminua sua atividade e entre na mesma crise pela qual está passando o cinema italiano no momento." Orfeu é o primeiro filme de Diegues a ser lançado nos Estados Unidos desde Dias Melhores Virão, de 1989. Tieta do Agreste, estrelado por Sônia Braga, pulou a distribuição em cinemas e foi lançado recentemente, com sucesso de vendas, em vídeo e DVD. Exibido no último Festival de Cinema e Arte Pan-Africana, em Los Angeles, Orfeu recebeu crítica positiva do resenhista do jornal Los Angeles Times, Kevin Thomas. Na semana passada, em Nova York, o diretor divulgou seu filme para repórteres de jornais locais e emissoras de rádio voltadas para a comunidade latina. Mas a principal arma publicitária de Orfeu nos Estados Unidos é um artigo de capa assinado por Caetano Veloso, numa recente edição do jornal The New York Times. No primeiro texto de um artista brasileiro para a publicação, Caetano faz uma profunda análise crítica e social às duas versões cinematográficas da peça de Vinícius de Morais - a de Diegues e a clássica do cineasta francês Marcel Camus, Orfeu Negro, que recebeu a Palma de Ouro e o Oscar de filme estrangeiro na década de 60 - e rebate as críticas que a versão de Diegues recebeu de brasilianistas e do jornal francês Libération, além de propor uma reflexão sobre o racismo. Caetano, que se encontra no Rio preparando dois novos álbuns - um de canções inéditas e outro dedicado ao trabalho de Cole Porter -, lançou recentemente a trilha de Orfeu no mercado americano. O compositor também terá seu livro Verdade Tropical, em fase de tradução, distribuído no mercado americano pela editora Knopf. Cidade Negra - Já Diegues se encontra promovendo seu filme na Califórnia. Na semana que vem, Orfeu começa a ser apresentado em cinemas de Los Angeles e São Francisco. E, em setembro, o cineasta estará de volta aos Estados Unidos para promover o filme em outras cidades. Orfeu deve ser lançado ainda em Chicago, Seattle, Miami, Detroit, Washington, Minneapolis e Houston. Na cidade de Boston quem promove o filme é Toni Garrido, que estará se apresentando com o Cidade Negra no dia 15. No momento, Diegues está em estágio de pré-produção de seu novo filme, Deus É Brasileiro, baseado num conto do escritor João Ubaldo Ribeiro com roteiro final de João Emanuel Carneiro e do próprio cineasta. A história é sobre as férias passadas por Deus no Brasil. "É um road movie, que será rodado no Recôncavo Baiano e reflete uma fase minha em que estou pegando leve", diz o cineasta. Segundo o cineasta, há uma predisposição dos formadores de opinião do País pelo que ele chama de narcisismo do fracasso. "Outro dia saiu um artigo de Arnaldo Jabor realçando esse êxtase pelo fracasso do Brasil", diz Diegues. "E isso é um desserviço para todos nós, pois acaba criando dois álibis: um para a impotência e outro para a predação nacional", prossegue. "Estou numa fase feliz e de grande humor, me recuso a ser pessimista."

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