"Onze Homens e Um Segredo", na versão de Soderbergh

Steven Soderbergh recebeu elogios demais por Traffic, que é bem mais convencional do que sugere sua atraente estrutura narrativa. Recebeu de menos por Onze Homens e Um Segredo, que também é menos convencional do que parece a uma primeira visão. Talvez a culpa seja de Martin Scorsese. Onze Homens e Um Segredo, que estréia nesta sexta-feira, é o remake de um velho filme (de 1960) que ganhou o mesmo título no Brasil. O original foi realizado por Lewis Milestone e é interpretado pela gangue de Frank Sinatra: além dele próprio, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e vários amigos e amigas distribuídos em papéis de maior ou menor relevância.Há um culto a Onze Homens e Um Segredo, o original. Seu oficiante é Scorsese, que resgatou, como genial, o filme recebido com reservas na época do lançamento. Milestone havia sido um grande diretor. Sem Novidade no Front é considerado um dos grandes filmes de guerra (antimilitaristas) do cinema. Mas Sem Novidade é dos anos 30 e, nos 60, Milestone já estava cansado. O próximo lançamento de Onze Homens e Um Segredo, a versão de Milestone, em DVD e vídeo (possivelmente em maio), vai permitir, enfim, que se tire a teima sobre quem tem razão - Scorsese ou 99.99% dos críticos, que acham o filme mediano e até ruim.A nova versão traz algumas das estrelas mais brilhantes do firmamento de Hollywood, na atualidade: Julia Roberts, George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, o próprio Andy Garcia, cujo brilho anda meio apagado. A história é a mesma do filme antigo: Clooney, como Sinatra, forma grupo para assaltar não um, mas três cassinos de Las Vegas. Em 2002, a tecnologia utilizada pelos assaltantes revela avanços em relação às técnicas de 1960.Talvez o maior mérito de Soderbergh seja ressuscitar um tipo de diálogo que parecia perdido em Hollywood, hoje afundada nos efeitos especiais. Os críticos falam muito nos diálogos dos filmes dos anos 40, mas se você for ver poderá constatar que muitos deles eram risíveis - Bergman, em Casablanca, perguntando a Bogart se o que ouve são as batidas do seu coração ou os tiros de canhão dos nazistas que avançam sobre Paris. Mas esses diálogos eram ditos de um jeito e com tal convicção que se tornaram clássicos. Soderbergh recupera esses jogos de palavras - taco a taco - no reencontro do personagem de Clooney com a ex-mulher (Julia). O que eles dizem talvez não seja maravilhoso, mas como dizem é. É uma combinação do próprio diálogo com o carisma dos atores.Se há um problema na nova versão de Onze Homens e Um Segredo é que ela deveria terminar três ou quatro minutos antes. A apoteose do filme vem com Clair de Lune. Aqueles rostos filmados ao som de Debussy, com as águas dançantes ao fundo, produzem um tal arrebatamento que fica na gente uma convicção - Soderbergh viu Os Eleitos, de Philip Kaufman, um dos mais belos filmes norte-americano dos anos 80. Ele deveria ter tido coragem de terminar Onze Homens e Um Segredo com o happy end total.Alguns críticos diriam que seria uma traição ao original mas por que tanto respeito por uma obra que não é clássica, coisa nenhuma? O epílogo, que propõe algo próximo à falseta do original - não vamos dizer qual é para não tirar a graça -, quebra a fantasia sem aproximar o filme da realidade. Quando o diretor tem coragem de embarcar na fantasia, Onze Homens e Um Segredo é (quase) ótimo. Onze Homens e um Segredo (Ocean´s Eleven). Ação. Direção de Steven Soderbergh. EUA/2001. Dur. 117 min. 12 anos.

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