"Ônibus 174" investiga origens da violência no País

José Padilha acompanhou pela TV atragédia do ônibus 174 - ele e 35 milhões de telespectadoresbrasileiros, que se grudaram diante de seus televisores,seguindo, tão fascinados quanto horrorizados, os acontecimentosdaquele dia de junho de 2000, quando Sandro Nascimento invadiuarmado um ônibus do Rio e transformou os passageiros em reféns.Padilha ficou impressionado com o que viu ao vivo e, depois, naGlobonews, mas não pensou imediatamente que o assunto davafilme. Ou, se dava, que seria ele a realizá-lo. Ônibus 174estréia amanhã na cidade. É forte, não há como negá-lo, mas nãoé o grande filme anunciado por seus admiradores. Tem um grandetema, o que é diferente.Padilha só começou a pensar no seqüestro do ônibus 174como filme quando viu, no Festival de Sundance de 2000, umdocumentário intitulado One Day in September, sobre ainvasão do alojamento de atletas israelenses por terroristaspalestinos, durante os Jogos Olímpicos de 1972, em Munique. Ocaso terminou num banho de sangue. Numa entrevista por e-mail -está nos EUA, acertando com distribuidoras americanas osdetalhes da distribuição internacional de Ônibus 174 -,Padilha conta sua impressão diante do documentário de KevinMcDonald, produzido por Arthur Cohn, o parceiro internacional deWalter Salles em filmes como Central do Brasil e AbrilDespedaçado: "É muito bom, mesmo sem ter muitas imagens doseqüestro em si. Imediatamente me lembrei do 174 e percebi queaquela história poderia ser o ponto de partida para umdocumentário".E ele vai adiante na explicação: "Quis fazer o filmepor acreditar que a história do Sandro era importante, porpensar que ela escancara a forma como o Estado brasileiro lidacom os meninos de rua e os delinqüentes juvenis, um processo que, a meu ver, gera violência". Nunca pensou na possibilidade defazer uma ficção. "Documentários são filmes que pretendemrepresentar ocorrências do mundo objetivo através da linguagemcinematográfica e com verossimilhança. Muitas vezes, para isso,o documentarista precisa realizar pesquisas de forma a construirsua narração de acordo com os fatos que pretende representar",diz Padilha. "Ou seja, a palavra documentário já implica umapreocupação com a apuração da verdade."Por isso mesmo, ele rechaça a definição de Ônibus174 como documentário jornalístico. Acha que é uma redundânciae, no plano formal, "também não se justifica porque ojornalismo televisivo, ou reportagem, tem sempre um narrador ouapresentador. Nenhum desses elementos se faz presente no 174,que nem narração tem". Irrita-se, dá para perceber pela escrita, quando se fazem acusações ao excesso de música no filme ou aoexcesso de opiniões de especialistas comentando o que bate natela, como se houvesse uma desconfiança do diretor na capacidadede o público processar tantas informações como as que dá nofilme. "Como nunca ouvi uma opinião desse tipo sobre o 174, sóposso concluir que se sente tratado como burro quem se achademasiadamente inteligente", diz.Ônibus 174 é um soco no estômago de um Brasil que,consumido pelo câncer da exclusão social, age como se fosse umpaís de Primeiro Mundo, sem esses problemas graves gerados peladesigualdade que escandaliza o mundo todo. Padilha foge aoreceituário comum. O bandido não é um monstro, apenas um sintomadessa verdadeira doença social.Seu filme se abre de maneira exatamente igual aodocumentário de João Moreira Salles, Notícias de uma GuerraParticular, que também fala sobre o Brasil dos excluídos,tomando por base o narcotráfico.O filme de José Padilha contém imagens originalmentefilmadas e exibidas no Notícias e que foram gentilmentecedidas pelo diretor do outro filme, João Moreira Salles. O fato, aliás, está devidamente agradecido nos créditos de Ônibus174. Padilha esclarece que, apesar disso, uma abertura não temnada a ver com a outra. "A abertura do 174 segue o trajetóriado ônibus, da Rocinha até onde parou no seqüestro, no JardimBotânico, fazendo offs de meninos de rua. O mesmo não ocorre noNotícias e nem faria sentido, no contexto daquele filme."Mas ele conta que ficaria feliz se a abertura do seufilme fosse entendida como uma homenagem a Notícias de umaGuerra Particular: "O filme do João é maravilhoso!".

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