EFE/EPA/CLEMENS BILAN
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'On Body and Soul' leva Urso de Ouro na edição mais estranha da Berlinale

Flme da húngara Ildikó Enyedi ganhou a premiação máxima foi vaiado por críticos; finlandês Aki Kaurismaki anunciou que sua carreira terminava ali

Luiz Carlos Merten / Berlim, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2017 | 20h21

Foi a mais esquisita das cerimônias recentes de premiação da Berlinale. Começou com o prêmio à melhor contribuição artística, atribuído à montadora de Ana, Mon Amour, do romeno Calin Peter Netzer. Dana Bunescu ficou tão chocada que se recusava a levantar-se para ir receber o prêmio. Teve de ser empurrada pelo diretor. Subiu ao palco do Palast de má vontade, fazendo ‘nein’ (não) com a cabeça. Agradeceu com um seco obrigado. Dana intuiu que o júri presidido pelo diretor de Elle, Paul Verhoeven, ia dar somente aquele prêmio para o excepcional filme romeno e tratou de manifestar sua inconformidade. O finlandês Aki Kaurismaki, vencedor do prêmio de direção por O Outro Lado da Esperança, nem subiu ao palco e, logo depois, anunciou que sua carreira terminava ali. O diretor-geral do evento, Dieter Kosslick, teve de descer à plateia com o Urso que Kaurismaki, completamente bêbado, tentou colocar no bolso. Simulando que o troféu era o microfone, disse “obrigado, senhoras e senhores”, e só.

A coisa não ficou por aí. Houve vaia na sala que transmitia a premiação para a imprensa quando Verhoven anunciou o vencedor do Urso de Ouro, e foi o húngaro On Body and Soul, de Ildikó Enyedi. É um belo filme, mas certamente não era o preferido da imprensa mesmo que, no início da tarde, já tivesse recebido o prêmio da crítica (Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica) e o do público, dado por uma comissão de leitores do jornal Berliner Morgenpost. É raro um filme vencer em todas as frentes – júri oficial, da crítica e do público. A todos esses, De Corpo e Alma ainda somou o prêmio do júri ecumênico. A diretora arrasou. Seu filme conta a história de um casal de solitários. Ela, inspetora de qualidade, ele, diretor financeiro, marcado pelas sequelas de uma trombose.

Quase não se falam. Compartilham, e vem daí o estranhamento quase surreal do filme, o mesmo sonho, todas as noites.

A maior ousadia do júri talvez tenha sido dar seu prêmio especial ao africano Felicité, de Alain Gomis, que conta a história de uma cantora, no Congo, que tem de conseguir dinheiro rapidamente para pagar o hospital para o filho, que sofreu um acidente. O jovem se comunica mal com a mãe, e a revolta é tanto maior porque ele está ameaçado de perder a perna. É um filme forte, com cenas deslumbrantes – a mais bela capta imagens da vida em Kinshasa durante uma audição de canto lírico. O diretor dedicou o prêmio à atriz Vera Tshanda Beya, dizendo que sem a entrega dela nada teria ocorrido. O júri preferiu premiar a coreana Kim Minhee pelo novo Hong Sang-soo, On a Beach at the Night Alone. O filmer é outra joia do autor mais nouvelle vague da Coreia. Havia a expectativa de que o grande Júlio Machado fosse melhor ator, por Joaquim, de Marcelo Gomes, mas o júri preferiu o alemão Georg Friendrich, por Bright Nights, de Thomas Arslan, e ele também é muito bom.

Verhoeven possui a fama de transgressor, e seu thriller com Isabelle Hupperty é prova disso. Muita gente apostava, por isso, que o chileno Una Mujer Fantástica, de Sebastián Lelio, sobre uma mulher transgênero, seria recompensado, talvez até com o prêmio de melhor atriz para Daniela Vega (que é transgênero), Lelio teve de se contentar com o prêmio de roteiro, e foi um dos mais belos momentos da noite. Guillermo Maza, que compartilha o crédito com ele, disse que seu pai morreu há dez anos, de repente, sem que o filho pudesse lhe dizer coisas que teriam incrementado a relação entre eles. Uma Mulher Fantástica, o filme, também é sobre isso.

Contra tudo e todos, Marina, a personagem de Daniela, luta pelo direito de manifestar seu luto pelo companheiro. O prêmio Alfred Bauer, para um filme que abre perspectivas, foi para Pokot/Spoor, de Agnieszka Holland. Tem gente, incluindo o repórter, tentando até agora descobrir onde está o novo do filme, que, de qualquer maneira, traz uma defesa do meio ambiente e um feroz ataque à corrupção na Polônia. 

A cerimônia foi marcada por manifestações de protesto contra o estado do mundo. O próprio Dieter Kosslick manifestou sua indignação contra o governo turco, que prendeu na sexta, 17, um correspondente alemão em Istambul. 

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