Barry Wetcher/Netflix via AP
Barry Wetcher/Netflix via AP

'Okja' chega e reabre debate sobre provedores

Longa de Bong Joon-ho foi o pivô da celeuma entre Cannes e Netflix

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2017 | 05h00

Quentin Tarantino já o comparou a Steven Spielberg e, para o seu gosto pessoal, teve de admitir que o prefere. O sul-coreano Bong Joon-ho virou um favorito do público dos festivais, com filmes como O Hospedeiro e Mother, mas este ano ele provocou mais controvérsia que admiração em Cannes, com seu novo filme. Não que Okja não seja bom. O problema é que o filme foi produzido pela Netflix, que entrou em litígio com a organização do evento. O regulamento do festival exige que os filmes sejam lançados no cinema. A Netflix é uma provedora global de filmes e séries de televisão via streaming. On demand.

Houve réplica e tréplica e o presidente do júri, Pedro Almodóvar, foi logo anunciando que não via como um filme que não fosse para cinema pudesse ganhar a recompensa maior, a Palma de Ouro. E com isso a fábula de Bong Joon-ho não chegou a ser vista, ou debatida, por seus méritos. Virou outra coisa - uma polêmica sobre a reserva do mercado das salas de cinema. Mas agora você tem tempo. Okja estará disponível na Netflix a partir desta quarta-feira, dia 28.

A história mostra como uma organização multinacional promete comida barata para o mundo superpopuloso, desenvolvendo, geneticamente, uma espécie de porco gigante. Para fins promocionais, filhotes são criados ao redor do mundo e levados a Nova York para participar de um concurso - e ser abatidos. Na Coreia do Sul, uma garota órfã, ela própria criada pelo avô, vai se ligar a seu filhote, Okja. Ele cresce e fica enorme. Com a ajuda de uma ONG que defende o meio ambiente, Mija (seu nome) vai atravessar o mundo para tentar resgatar Okja.

Todo Bong Joon-ho se faz presente nessa história - o desequilíbrio do mundo, a importância da família e do meio ambiente, os malefícios do capitalismo em ação. Em Cannes, o cineasta mostrou uma tatuagem - aqueles caracteres orientais significam ‘mulher e filho’. Estão gravados em sua pele. Tilda Swinton faz a CEO da companhia que produz alimentos. Seu papel é duplo, representando gêmeas, e cada uma é pior que a outra no comando da organização (criminosa?). Jake Gyllenhaal faz um desses especialistas que decifram a vida selvagem na TV. Está perdendo audiência e se deixa manipular por Tilda & Cia. Existe a garota, Seo Hyun-han, que é ótima. E Okja, como criação digital.

Na coletiva do filme, em Cannes, Bong Joon-ho disse que estava surpreso com toda aquela polêmica. Sentia-se como se tivesse sido ‘atropelado’. “Imaginava que ia chegar aqui e participar de algum seminário para discutir o futuro do cinema”, confessou. “Não para ser linchado como seu assassino.” O Hospedeiro já era sobre um animal gigantesco, produto da poluição química e que devorava pessoas em terra e na água. Okja é, comparativamente, menos ameaçador, mais dócil. Sua primeira aparição o torna cativante. Evoca um pouco Dumbo, grande e desajeitado, na imortal animação da Disney. “Os animais não têm muitas vidas no cinema. Ou são pets, preenchendo as carências afetivas dos humanos, ou vão para o matadouro. Queria que minha fábula ajudasse a lhes dar outra dimensão”, refletiu Joon-ho.

 

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