Sundance Institute
Sundance Institute

'Of Fathers and Sons' é retrato sombrio sobre crianças treinadas para a jihad

Para realizar o documentário, o cineasta Talal Derki morou com uma família muçulmana em uma região devastada pela guerra

AFP

23 Novembro 2018 | 12h36

Um grupo de crianças ri enquanto brinca na paisagem empoeirada perto de casa, no norte da Síria. Mas esta não é uma brincadeira típica, pois a bola usada é uma bomba ativa.

O jogo macabro é uma das cenas mais arrepiantes de Of Fathers and Sons (Sobre pais e filhos), no qual o cineasta Talal Derki faz uma exposição inquietante sobre o domínio do islamismo em sua Síria natal.

"Esta foi a cena que partiu meu coração", disse Derki à AFP em uma entrevista em Los Angeles, na qual lembrou o episódio estremecedor. "Estava vendo meu filho de seis anos através da lente".

Por mais de dois anos, o célebre cineasta morou com uma família muçulmana em uma região devastada pela guerra, situada na fronteira com a Turquia. Ali, ele focou sua câmera primordialmente nas crianças para capturar sua gradativa radicalização.

O resultado foi um documentário sombrio e inquietante de 98 minutos, que oferece uma visão incomum da vida cotidiana dos jihadistas, que nos últimos anos semearam o pânico ao redor do mundo.

"Eu o chamo de pesadelo", disse o cineasta de 41 anos, referindo-se à propagação do movimento extremista islâmico.

O filme, que estreou em 15 de novembro nos Estados Unidos, venceu a competição de documentário de cinema mundial no Festival de Cinema de Sundance no começo deste ano.

O anterior documentário de Derki, Retorno a Homs, ganhou o prêmio do grande júri em Sundance na mesma categoria em 2014.

Of Father and Sons acompanha Abu Osama, um dos fundadores da frente Al Nusra, vinculada à Al Qaida, enquanto conduz dois de seus oito filhos - Osama, de 13 anos, com nome inspirado no herói pessoal de seu pai, Osama bin Laden, e Ayman, de 12, que leva o nome do atual líder da Al Qaeda, Ayman al Zawahiri - pelo caminho da jihad.

Derki, que mora em Berlim, disse que conquistou a confiança de Abu Osama fazendo-se passar por um fotógrafo de guerra simpatizante da causa jihadista. Desta forma, viveu com a família de forma intermitente por dois anos e meio, compartilhando seus momentos mais íntimos.

De jovens inocentes a jihadistas 

O horror do filme não provém da violência e do sangue, explicou Derki. O espectador vai se sentindo mais enojado à medida que o documentário expõe a brutal transformação de jovens inocentes em combatentes jihadistas.

"Este é um filme que te faz entender como funciona o cérebro", disse Derki. "Você tem o horror na linguagem, na educação, em cada momento".

Ele contou que ainda se sente assombrado por várias cenas de seu filme, particularmente a das crianças brincando com a bomba.

Em outra cena, uma das crianças se orgulha de contar a Abu Osama - que significa pai de Osama, em árabe - como matou um passarinho.

"Pusemos a cabeça no chão e a cortamos, como você fez, pai, com esse homem", proclama o menino.

A paisagem desértica e bombardeada que a família considera seu lar e o fato de as mulheres da família nunca terem sido vistas ou ouvidas aumenta a sensação de desespero ao longo do filme.

"As mulheres são as grandes vítimas desta sociedade", disse Derki. "Estive ali por dois anos e meio e nem mesmo soube como era a mãe destas crianças."

"Nunca pronunciaram seu nome e sua voz nunca se ouviu."

Para Derki, enquanto seu primeiro documentário, Retorno a Homs, rastreou a evolução da rebelião síria e da repressão brutal do regime, "Of Fathers and Sons" foi um capítulo seguinte lógico em sua busca para explicar o mergulho do país no caos.

"Temos que usar nossa arma - que é o cinema - para mostrar o que realmente está ocorrendo, quem são estas pessoas, como fazem lavagem cerebral nestas sociedades", disse.

"Temos que pensar antes de bombardear qualquer área, antes de deixar que um ditador mate seu próprio povo com armas pesadas", acrescentou.

Of Fathers and Sons - Trailer from BASIS BERLIN on Vimeo.

Derki contou que Of Fathers and Sons lhe causou um impacto psicológico tão profundo que ele teve que deixar a câmera por enquanto para se concentrar em seu tratamento.


"Ainda estou me recuperando", disse. "Tenho que tomar remédios para dormir, senão tenho pesadelos".

Ele contou, ainda, que depois da última cena tatuou o braço direito e furou a orelha para não ser tentado a se misturar a jihadistas no futuro.

"Se você tem tatuagens ou piercings, não pode estar com eles", afirmou. "Essa foi a minha forma de garantir que não voltaria".

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.