Odete Lara: um mito que concilia beleza e talento

Só pelo corpo escultural, no vestido de bolinhas que usa como Guigui na versão de Nelson Pereira dos Santos para O Boca de Ouro, de Nélson Rodrigues, Odete Lara já mereceria todo um verbete da mais alentada enciclopédia do cinema brasileiro. A deusa não foi apenas uma mulher capaz de incendiar as fantasias eróticas do público, desde os anos 50. Foi também uma verdadeira atriz, trabalhando com os maiores diretores do País. Não admira que tenha virado mito.Anselmo Duarte colocou-a em Absolutamente Certo, como a bad girl que se opunha a Maria Dilnah. Walter Hugo Khouri, ainda nos 50, fez dela uma das protagonistas de Na Garganta do Diabo, ao lado de Edla Van Steen. É um dos títulos famosos da fase ´bergmaniana´ de Khouri. Quando ele trocou Ingmar Bergman por Michelangelo Antonioni e fez Noite Vazia, ofereceu a Odete um papel mais forte ainda. Ela formava com Norma Bengell a dupla de prostitutas que dois amigos atraíam para uma noitada de sexo. Norma, sonhadora. Odete, mais dura, com um penteado que ressaltava o caráter leonino.Grande Odete. Fez Câncer com Gláuber Rocha, mas a incursão mais destacada pelo universo glauberiano foi em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, com aquele vestido roxo (era roxo, não?), nas mãos uma braçada de flores, imagem emblemática da obra do polêmico diretor.Houve muitos outros papéis importantes - em Os Herdeiros, de Carlos Diegues, por exemplo. Mas quem ofereceu a Odete seus mais belos papéis, depois de Khouri em Noite Vazia, talvez tenha sido um diretor que depois perdeu o rumo, Antônio Carlos Fontoura. Ela é genial em Copacabana me Engana, aquela devastadora crítica ao mundinho da classe média copacabanense, com toda a sua asfixiante mediocridade. E o que dizer de sua participação em A Rainha Diaba, como a prostituta torturada pelos travestis - uma rara referência do cinema brasileiro da época (o começo dos anos 70) à violência que comia solta nos porões da ditadura.Bela, adorada, desejada, atriz e cantora (ligada à Bossa Nova) de sucesso, Odete buscou no sexo e nas drogas o absoluto que a compensasse das tragédias pessoais. O suicídio da mãe, do pai, tudo isso a marcou até o limite do desespero. Eu, Nua é o relato visceral de uma vida, vale mais pelo depoimento (contundente, vigoroso) do que pela literatura, como afirma a diretora de Lara, Ana Maria Magalhães. Poderia ter mergulhado no desespero sem fim. Salvou-a o budismo. Na vida real, Odete atingiu a transcendência. No cinema, permanece um mito. Prontuário de Odete LaraNome: Odete Lara, Righi Bertoluzzi na certidão Nascida em 17/4/1929, na Bela Vista, em São Paulo Altura: 1,64 m Sapato: 36, 37 Casou-se três vezes, jamais legalmente Tinha a cara fechada (autodefesa), hoje está até sorridente Detesta falar e dar entrevista Adora o silêncio, cada vez mais Pressão arterial: não sabe, o que é bom sinal Tem o coração bom, mas não parecia, porque fazia tudo para que não percebessem, porque podiam abusar Não fuma, não bebe e não joga: não por virtude, mas porque não gosta mesmo É filha de imigrantes italianos, do norte Adora a natureza, não pode mais viver sem ela Não tolera as grandes cidades É gnóstica, foi católica da antiga, o que só lhe botou culpa Entendeu o cristianismo depois de conhecer o budismo, hoje participa de grupo de reflexão com frei Beto A memória é ótima para tudo, menos para números, porque não gosta deles Quis ser dançarina, os pais não deixaram, por acaso virou atriz Antes foi secretária e "um pouco" jornalista Adora música, até porque gosta de dança, mas já não sente falta, porque acha que a natureza tem todos os sons Não se preocupa com a própria posteridade Liga para a dos outros Passou a gostar de crianças e gravou um CD para elas, com uma história do Drummond Só caminha e faz ioga Não vive mais sem livros Quer estar sempre atenta, principalmente quando olha o céu Odeia badalação, coquetéis, aglomerações A cozinha é japonesa ou italiana, nunca chinesa Autor que lê com maior prazer: Thomas Merton, um monge trapista, autor de A Montanha dos Sete Patamares.- Livros que leu mais vezes: Memórias, Sonhos e Reflexões, de Jung, Os Três Pilares do Zen, de Philip Kapleau, e Filosofia Perene, de Aldous Huxley Gosta mais de escrever do que de traduzir Ainda não fez versos, mas está interessadíssima em poesia Luta para ser metódica, mas apanha da confusão Escrever foi uma necessidade, um vômito; agora tem prazer Não é hipocondríaca: tem horror a doenças e remédios Aprendeu a não tomar a barca da raiva É utópica e não sabe viver sem utopia É otimista, mas acha que a humanidade está desumanizada Tem muitos provérbios chineses favoritos, não quer citar nenhum Acha a vida um grande cinema e caminha à-toa pelas ruas Vive na contramão da sociedade e só vai ao cinema à tarde, quando não tem ninguém Só comemora sala cheia se o filme é brasileiro Não pensa no passado e não tem animais domésticos Gosta de gatos, mas eles prendem Pensa sempre na morte, porque quer ir numa boa, com as malas prontas e com tudo resolvido.

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