Obra-prima de Visconti reestréia em São Paulo

Os mais sensíveis choram já nas primeiras seqüências de Rocco e Seus Irmãos, quando a família Parondi chega a uma Milão invernal e a cançoneta napolitana evoca o "paese" natal, a Lucânia. Que ficou para trás porque não oferece aos Parondis, a mãe e os filhos, condições de sobrevivência. São obrigados, então, a tentar a aventura no Norte desenvolvido, com suas fábricas, o frio do clima e dos moradores, a impiedosa competição da cidade grande.Com essa obra-prima, Luchino Visconti, aristocrata e comunista, enfrenta esteticamente aquilo que se chamava na Itália de a "questão meridional". Para a consciência do andar de cima do país, o problema estaria no subdesenvolvimento do Sul com sua gente de base agrária, pobre, muitas vezes analfabeta, votando mal e com o péssimo hábito de migrar em direção aos centros econômicos. Visconti vai mostrar, implacavelmente, como a cidade cobra aos migrantes o seu preço, na forma de uma cruel taxa de hospitalidade.É quase uma demonstração cartesiana sobre o impacto da modernidade sobre os valores tradicionais, essa que corre paralela ao tônus emocional da obra. Visconti era homem da ópera e não fugia aos sentimentos. Nem, eventualmente, ao dramalhão, que enfrenta com dignidade italiana. Acompanha com emoção em alta voltagem a saga dos irmãos Rocco (Alain Delon), Simone (Renato Salvatori), Ciro (Max Cartier) e Luca (Rocco Vidolazzi) que, em companhia da mãe, Rosaria (Katina Paxinou) chegam a Milão para encontrar o outro irmão, Vincenzo, já previamente instalado na cidade.A figura forte é Rosaria, protótipo da matriarca latina, feroz como uma loba, a proclamar que cinco eram seus filhos e que, portanto, deveriam ser unidos como são os cinco dedos de uma mão. Todo mundo conhece o valor emblemático desse tema meridional, a união da família. A unidade familiar que, coesa, enfrenta a selva impiedosa do mundo externo. Diz um ditado siciliano que se deve casar com alguém do próprio povoado, de preferência. Melhor se for alguém da mesma rua e, mais ainda, se fosse da mesma casa e família. Essa sugestão incestuosa revela de forma exemplar como o mundo externo é tido por hostil e indesejável.No entanto, os Parondis, por imposição econômica, precisam enfrentar o Outro, por definição - a cidade estranha, de clima e cultura estranhos, industrializada e indiferente. Desumana. Para sobreviver, a família deverá permanecer unida, forte, coesa - como os dedos da mão. Mas, claro, não é exatamente isso o que acontece. Tudo muda em contato com uma realidade nova e a relação entre os irmãos se altera. Simone se degrada socialmente e se apaixona por uma prostituta ocasional, Nádia (Annie Girardot). Ela o acompanha por um tempo, mas depois se liga a outro irmão, Rocco, o que desencadeia a tragédia.E tragédia, no caso, não é força de expressão. Visconti desejava exatamente recriar esse ambiente trágico para dar conta da divisão social interna do seu país. Para isso, buscou uma atriz do porte de Katina, "aquela Hécuba lucaniana, aquela Niobe meridional", como a chamava. A presença em cena da mulher é impressionante. Representa nem tanto uma personagem em particular, mas a própria voz do Sul profundo, a mamma sólida e prepotente, inflexível na defesa de suas crias. Violenta e carismática. Um arquétipo, mais que uma figura humana em particular.Toda a força que vem dessa mãe faz contraponto com a fraqueza dos filhos - ou de um filho em particular, Simone, aquele que a cidade comeu. No entanto, Simone é um brutamontes, um lutador de boxe, que depois decai e é substituído por Rocco, o belo Alain Delon. Rocco é um boxeador que não gosta de violência. No entanto, necessita dela, para tentar salvar Simone, para tentar resgatar a família. Sente repugnância pela brutalidade e precisa dela para chegar aos seus fins - o que também é uma reflexão para parte da esquerda européia naquela transição entre os anos 50 e 60, fresta histórica na qual o filme se situa.Aliás, o fato de Simone e Rocco serem lutadores baseia-se num dado real: a maior parte dos lutadores na Itália vem do Sul do país, o que não chega a ser espantoso. A força física, a disposição para entrar num ringue e dar a cara para bater parecem um dos poucos caminhos de promoção social à disposição das classes mais pobres. Pelos mesmos motivos não é por acaso que nos Estados Unidos a maioria dos lutadores é composta por homens negros, filhos do gueto e da pobreza.Mas enfim, como Rocco e Seus Irmãos é um dos filmes mais completos da história do cinema, comporta essas e outras interpretações. Entre elas, a de que seria um comentário adicional sobre a inutilidade das boas intenções (como, em outro nível, também o é Viridiana, de Luis Buñuel). Rocco não quer fazer caridade, como é o caso da heroína de Buñuel. Quer salvar o irmão, o que é algo bem concreto, diferente da caridade mais abstrata, que se apresenta como um ato de amor impessoal, dirigido à humanidade como um todo.Rocco não é um herói cristão. É um herói meridional. Quer saber dos seus e, neste caso em particular, de um irmão em perigo. Por ele consente em subir ao ringue. Por ele renuncia à mulher que ama. Tudo em vão, porque o destino está traçado e nada pode alterá-lo. Rocco é o exemplo dessa tensão entre o livre-arbítrio de uma opção histórica em aberto e a inevitabilidade do destino. Vence o destino. Vence a falha trágica. Ninguém esquecerá a expressão do grande Alain Delon ao constatar que tudo fora em vão: "Adesso tutto finito." Tudo tinha acabado. O restante seria apenas um comentário político, pensado por Visconti para aquela ocasião específica. O irmão menor entra para a fábrica, enquanto Rocco sonha em voltar ao paese. O resto deveria ser só silêncio.Rocco e Seus Irmãos (Rocco i Suoi Fratelli) - Drama. Direção de Luchino Visconti. It-Fr/60. Duração: 182 minutos. Cine Zip.Net Recriarte Bijou. Terça, às 20 horas; quarta, às 18 horas; quinta, às 16 horas; sexta, às 14 horas. 14 anos.

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