Obra-prima de Kurosawa vira videogame

Na terça-feira, dia em que Akira Kurosawa completaria 94 anos, será lançado nos Estados Unidos Seven Samurai 20XX, um videogame de luta para a plataforma PlayStation 2. A relação entre a efeméride e o lançamento da nova diversão eletrônica está em Os Sete Samurais (1954), clássico do diretor japonês que serviu de inspiração para o jogo. A notícia saiu no suplemento de artes e lazer do New York Times no dia 14. E faz sentido ter ocupado um espaço tão nobre. Afinal, de clássico do cinema japonês e mundial a inspiração para violentos videogames de luta, Os Sete Samurais demorou meio século para percorrer um caminho que as grandes produções de Hollywood praticamente desconhecem.Como escreve em seu artigo o jornalista Robert Levine, editor em Nova York da revista Wired: "Para muitos filmes, os videogames praticamente se sugerem. A corrida de naves em Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma, por exemplo, parece que foi desenhada para ser um jogo e a empresa de George Lucas o transformou em um." Em sua argumentação, Levine pára no frustrante primeiro episódio da nova trilogia de Lucas. Mas há uma série de outros exemplos muito mais adequados, como a trilogia Matrix, que fez o caminho dos quadrinhos para o cinema e, logo depois, para os games. Ou Mortal Kombat, que fez a trajetória inversa, já que nasceu como videogame e só mais tarde foi adaptado para o cinema - com um resultado decepcionante.Nada contra o tie-in, modalidade em que um determinado produto se desdobra em vários outros. Trata-se de um mecanismo capitalista para aumentar o consumo e quem faz uso dele não está exatamente escondendo suas intenções. O problema maior, num caso como o de Os Sete Samurais e Seven Samurai 20XX, é como as coisas são feitas. A adaptação do clássico para o videogame teve a colaboração de Hisao Kurosawa, filho do falecido diretor e responsável por uma fundação dedicada a preservar e manter a obra dele. O projeto nasceu de uma conversa entre Kurosawa-filho e um amigo, Hajime Satomi, presidente da empresa japonesa de games Sammy Corporation.O executivo ficou atraído pela trama do filme, que gira em torno de uma vila, cujos habitantes contratam um grupo de ronins para defendê-los de bandidos e saqueadores da região. O único problema da equipe de produção do game, segundo o artigo, era o cenário do Japão feudal do século 16, pois isso limitava suas "possibilidades gráficas". Além disso, havia um temor de que o "extenso desenvolvimento de Kurosawa até a ação" dispersasse a atenção dos jovens de 18 a 24 anos aos quais o produto é dirigido.Resultado: Seven Samurai 20XX tem algo que muitos videogames de combate contemporâneos, especialmente por estas bandas ocidentais, não têm: lutas com espada. E elas estão logo nas primeiras fases do joguinho, quando os jogadores, que encarnam um dos samurais contratados pelos oprimidos aldeões, recrutam outros seis guerreiros para lutar ao seu lado. Não bastasse isso, o cenário medieval japonês deu lugar a uma paisagem futurista, povoada de vilões robotizados assinados pelo desenhista francês Jean "Moebius" Giraud. Do filme mesmo, sobram algumas cenas reproduzidas nos clipes que aparecem entre uma fase e outra. E se a moda pega, o que fariam com Deus e o Diabo na Terra do Sol, ou Rio 40 Graus ou qualquer outro clássico do cinema brasileiro?

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.