Obra-prima de Coppola volta melhor

Um filme pode ganhar 53 minutos a mais, além de ter algumas seqüências alteradas e mesmo assim continuar sendo uma obra-prima? Essa é pergunta óbvia que se faz quando (re)estréia Apocalypse Now Redux, de Francis Ford Coppola, tido como um dos grandes filmes de guerra de todos os tempos, representação definitiva do desastre americano no Vietnã libelo sem paralelo contra a loucura e a violência.A palavra ´redux´, acrescentada ao título original, poderia sugerir que o filme foi enxugado. Pelo contrário. O termo vem do latim e quer dizer que algo foi trazido de volta. Tornou-se mais extenso, explícito, em muitas cenas mais contundente. Em entrevista à Cahiers du Cinéma, Coppola diz que a nova versão vem ao encontro de um público em tese mais maduro, capaz de digerir e enfrentar uma obra sem concessões como Apocalypse. Em parte, é verdade. Há mais explicação do contexto histórico na seqüência amputada do original, quando o militar americano, Willard (Martin Sheen), convive com uma família francesa e o tema da discussão é o colonialismo. Kilgore o maluco belicista interpretado por Robert Duvall, é mais bem desenvolvido e há toda uma seqüência inédita na qual os soldados vão se divertir com as garotas da Playboy. Marlon Brando, no papel de Kurtz, aparece em várias cenas adicionais, de corpo inteiro e à luz do dia.Enfim, tudo fica mais claro, mais límpido, mais impressionante. Perdem-se, em troca, algumas elisões interessantes, algumas relações que ficavam em suspenso na montagem e agora são explicitadas. Os xiitas vão dizer que mexer em Apocalypse seria como fazer uma plástica na Vênus de Milo mas a coisa não é bem assim, mesmo porque tudo foi comandado pelo próprio Coppola e o montador do original, Walter Murch. É um novo filme, diz ele, remontado, com músicas adicionais e remixado. Acredite: o que você vê na tela é magnífico.Trata-se de uma nova maneira de vestir a história que se tornou clássica. Willard é incumbido de uma missão top secret. Deve subir o rio Mekong e entrar no Camboja, onde um oficial, Kurtz (Brando), enlouqueceu e dirige um império onde a lei é o terror. Willard vai encontrá-lo em seu palácio, ruínas de um templo budista iluminado pelo gênio de Vittorio Storaro, um dos grandes diretores de fotografia da história do cinema. Claro, a loucura de Kurtz é a loucura do império americano ao entrar na aventura do Vietnã, mas Willard, que vai lá para eliminá-lo, é seu duplo especular.Coppola alia sua proverbial elegância de filmar com um tom operístico quase lisérgico e rigor conceitual na condução da trama. História que, na origem, fica a dever a Joseph Conrad e seu Coração nas Trevas, talvez a novela definitiva sobre o embate recorrente entre a civilização e a barbárie. Essa origem valeu ao filme algumas críticas. Por exemplo, Glauber Rocha, num texto famoso, diz que Coppola descobria o Mal num templo budista no Camboja quando deveria ir buscá-lo onde estava, no Pentágono. Alberto Moravia não gostava nem do livro nem do filme. Achava ambos conservadores, moralistas e, no fundo, incapazes de descrever o mal, como se propunham. Pode ser, mas as críticas não impedem que Apocalypse Now continue sendo esse terrível e belo espetáculo da violência humana. Um clássico, ainda que imperfeito.

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