Obra-prima de Chaplin reestréia em cópia digital

O Grande Ditador, que reestréia hoje em cópias digitais, é clássico por mais de um motivo. Primeiro, com ele Chaplin realiza uma das mais devastadoras sátiras políticas da história do cinema. Lançado em 1940, apanha Hitler e Mussolini no auge do poder, e os reduz a caricaturas de tiranos - o que eles eram, ou mereciam ser. Segundo, sela a paz com o cinema falado, inventado havia já dez anos, mas que ainda enfrentava resistência por parte de Chaplin. O gênio do cinema mudo achava que, com a facilidade dos diálogos, a nova arte regrediria e corria o risco de voltar ao que a muito custo deixara de ser, teatro filmado. Segundo seus biógrafos, Chaplin também tinha uma razão adicional para temer o cinema falado. Ele achava, com razão ou sem, que, falando, seria um ator igual aos outros. Assim, até 1938, Chaplin resistia e era o último dos grandes diretores a cultuar a arte do cinema mudo. O Grande Ditador foi o filme que lhe permitiu desatar o nó górdio. E de maneira tão simples como genial. Hitler, o Adolf real, havia adotado um bigodinho igual ao de Carlitos, o mitológico personagem inventado ainda nos anos 10. Assim, era possível a Chaplin imitar o imitador à perfeição. Mais ainda: fazer dois papéis no filme, unidos pela mesma característica física. Assim, ele é, ao mesmo tempo, Adenoid Hynkel, ditador de um país fictício, a Tomania, e um barbeiro judeu que perdeu a memória lutando na guerra anterior e volta ao gueto anos depois sem a mínima idéia do que está acontecendo. Esse desdobramento faz parte de um truque de Chaplin. Como ele precisava falar, fazia-o pela voz de Hynkel, a caricatura de Hitler. E essa fala era, na maior parte do tempo, um patuá do alemão, língua criada por ele. Já o barbeiro judeu é um personagem praticamente mudo. Sobre ele, Chaplin concentra seus infinitos recursos mímicos e coreográficos. Não por acaso, algumas das melhores cenas cômicas do filme devem-se a esse personagem. Por exemplo, quando atende um cliente ouvindo um programa de rádio chamado Trabalhe com Música e corta a barba do infeliz ao som de uma agitada Rapsódia Húngara. Mas, claro, é seu dublê, o ditador, quem protagoniza a seqüência mais famosa, quando brinca com um globo terrestre como se fosse uma criança mimada. A cena diz tudo o que é preciso saber sobre a vontade de potência que domina a cabeça de um tirano. Outra cena de antologia é aquela em que Hynkel e Napoloni, o seu aliado e rival italiano, estão sentados em cadeiras de barbeiro e disputam para saber quem ficará mais alto que o outro. Enfim, o poder ditatorial é ridicularizado ao limite, e Chaplin deixa de lado suas implicações mais soturnas, apesar de algumas cenas de violência no gueto. O filme foi rodado antes da invasão da Polônia e teria sido diferente se Chaplin pudesse prever a que ponto seria levado o poder destrutivo de Hitler. A fala final, com o barbeiro passando-se por Hitler, é uma peça controversa. O judeu vestira-se de nazista para escapar a um campo de concentração enquanto o verdadeiro Hitler, ou Hynkel, fora detido, confundido com o prisioneiro. É o oprimido quem vai fazer o discurso no lugar do opressor e aproveita a oportunidade para manifestar sua fé num futuro de paz. Nesse momento, o ator deixa de ser Hynkel, Carlitos ou barbeiro judeu para ser simplesmente Charles Chaplin, o humanista que assume a responsabilidade de se expressar num momento de convulsão social. Visto assim, soa tocante e não piegas, como é de uso acusá-lo. O Grande Ditador (The Great Dictator). Comédia. Direção de Charles Chaplin. EUA/40. Dur. 124 min. P&B. Espaço Unibanco 3, às 14h40, 17 horas, 19h20 e 21h40. Jardim Sul UCI 9, às 18 horas e 20h35. Pátio Higienópolis Cinemark 4, às 20h. Sala UOL, às 14h40, 17 horas, 19h20 e 21h40. Unibanco Arteplex 4, às 13h30, 16 horas, 18h30 e 21 horas. Livre.

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