Sacha Vierny
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Obra-prima de Buñuel, ‘Belle de Jour’ volta em versão restaurada

'A Bela da Tarde', desde a primeira hora, foi reconhecido como um grande filme do diretor, mas nunca foi ‘belo’, no estrito sentido visual - agora é

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 Dezembro 2017 | 06h00

Vamos ser francos – Belle de Jour, desde a primeira hora, foi reconhecido como um grande filme de Luis Buñuel, mas nunca foi ‘belo’, no estrito sentido visual. Buñuel sempre possuiu o segredo daqueles movimentos elegantes de câmera, mas talvez fosse herança da sua fase mexicana, muitas vezes com produções medíocres. Havia uma vulgaridade intrínseca ao projeto, que se manifestava nos detalhes da produção, e mesmo que Catherine Deneuve fosse vestida por ninguém menos que Yves Saint Laurent. Pois bem – A Bela da Tarde está de volta, sacralizado como um dos filmes definidores dos anos 1960, mas o que mais chama a atenção na versão restaurada em 4K é a beleza das imagens. Belle de Jour nunca foi mais ‘belle’.

Em 1967, quando fez A Bela da Tarde – e ganhou o Leão de Ouro em Veneza –, Buñuel já fizera história no surrealismo, mas as dificuldades, na Espanha franquista, pós-Guerra Civil, o haviam levado numa trajetória ziguezagueante aos EUA e ao México. Buñuel fazia o que era possível, mas nunca não importa como. Aos poucos, readquiriu o controle de sua carreira – Os Esquecidos, O Alucinado, Ensayo de Un Crímen, Nazarín. Com Viridiana, em 1961, ganhou a Palma de Ouro e, no ano seguinte, também em Cannes, fez sensação com O Anjo Exterminador. Todos esses filmes, como observa Jean Tulard no Dicionário de Cinema, fizeram lembrar o grande realizador que ele era – que podia ser. E aí veio A Bela da Tarde.

Correspondente de guerra, Joseph Kessel pertence à chamada era de ouro dos grandes repórteres. Como escritor, filiou-se à vertente do psicologismo francês. É autor de O Leão, filmado por Jack Cardiff, em 1962, e A Bela da Tarde. Em 1964, com O Diário de Uma Camareira, adaptado de Octave Mirbeau, Buñuel iniciou a parceria com o produtor Serge Silberman, que se tornaria lendária. Mas houve uma quebra, de cara, porque os irmãos Robert e Raymond Hakim lhe propuseram, e ele aceitou fazer justamente A Bela da Tarde. A história de Sévérine, mulher casada e burguesa. Frígida. Na concepção de Kessel, não se trata de um romance de aberração sexual, embora Sévérine passe a frequentar o bordel de Madame Anaïs, no qual adquire o codinome de ‘bela da tarde’ por trabalhar somente enquanto o marido cirurgião está no consultório, ou no hospital. Ela não se prostitui por necessidade. Nem mesmo por prazer. Cede às fantasias dos clientes. Histérica, masoquista? Para Kessel, o livro é uma tragédia de amor.

+++ O Buñuel que seduziu Lacan

Críticos respeitáveis – de literatura – já definiram A Bela da Tarde, o livro, como um estudo da psicologia feminina, e escrito com tanto fineza que a degradação moral que se constitui em eixo da narrativa se torna secundária. O que importa é entender o mistério de Sévérine, porque ela é assim. É tudo o que Buñuel não quer. Ele não psicologiza a experiência de Sévérine e a entende muito mais como ‘linguagem’. Um pouco como o Ingmar Bergman de Persona – lançado no Brasil como Quando Duas Mulheres Pecam –, um ano antes, o filme propõe uma narrativa em bloco em que passado e presente, realidade e imaginação são oferecidos sem distinção. De cara, Sévérine intimida-se com o primeiro cliente e foge, voltando depois para tomar uma bronca de Madame Anaïs, que percebe a singularidade de sua pensionista. A partir daí, Sévérine entrega-se.

São 50 anos de A Bela da Tarde e nesse tempo todo foram imensas as mudanças no cinema, inclusive nessa seara do sexo, não necessariamente do erotismo nem da pornografia, em que se movem Buñuel e sua heroína. Meio século e ainda não sabemos o que o cliente oriental mostra a Sévérine naquela caixinha. Sabemos, no entanto, que o filme mudou paradigmas, registrou estrondoso sucesso e o mais antiburguês dos cineastas, sem abrir mão de suas convicções estéticas, virou ‘pop’. Anos depois, receberia o Oscar (por O Discreto Charme da Burguesia, em 1972). Na sequência da manicure neurótica de Repulsa ao Sexo, de Roman Polanski, Catherine Deneuve também virou mito. Impossível imaginar outra atriz no papel, mas não é só ela que é perfeita – Geneviève Page, como Madame Anaïs, é magnífica. Belle de Jour virou mito universal. Inspirou música de Alceu Valença no Brasil e até outro filme de Manoel de Oliveira, Belle Toujours.

Quem é

O espanhol Luis Buñuel Portolés (1900-1983), conhecido por sua obra surrealista e pela parceria com Salvador Dalí nos cultuados Un Chien Andalou e L’Age d’Or, é um dos maiores autores do cinema. Pedro Almodóvar o considera um de seus mestres. A Guerra Civil na Espanha levou-o a se exilar e ele adquiriu a cidadania mexicana. Venceu a Palma de Ouro e o Leão de Ouro, e ganhou o Oscar de filme estrangeiro por O Discreto Charme da Burguesia.

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