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Obra literária de Stephen King revela o brilhantismo de uma mente muito poderosa

Autor costuma incluir ou até citar um mesmo personagem em romances distintos

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 05h00

A primeira lição que você aprende ao adentrar o universo de Stephen King é que se torna impossível ficar indiferente ao conteúdo da obra do autor. Ele tem uma capacidade enorme de enxergar histórias no mundo real e contá-las na ficção, quase sempre com uma pitada sobrenatural, incitando o debate, forçando uma reflexão.

São inúmeros exemplos. Das obras mais antigas, como Carrie, publicado em 1974, até Billy Summers, o mais recente publicado no Brasil, de 2021, quando King se deslocou mais uma vez do apodo de mestre do horror para escrever sobre um assassino de aluguel e o último trabalho antes da aposentadoria.

Relações abusivas, feminicídio, bullying, alcoolismo, abuso sexual e psicológico... As mazelas da sociedade contemporânea são discutidas por King em meio ao universo que apenas uma mente brilhante seria capaz de descrever. 

A telecinesia, capacidade de mover objetos com o poder da mente, está presente em Carrie como um dom para punir os responsáveis por bullying. O alcoolismo é o tema principal de O Iluminado (nesse caso, esqueça o filme de Stanley Kubrick, por favor). Em O Cemitério, King coloca em pauta o dilema da morte, na discussão entre o casal Louis e Rachel Creed sobre como tratá-la com os filhos.

Mas o sucesso de King não está apenas por conseguir se manter atual. É impossível ler uma obra sem se sentir parte da história. A experiência sensorial oferecida aos leitores é uma característica marcante. Aquele sentimento de não estar sozinho, que te faz levantar os olhos do livro para observar ao redor, se torna algo corriqueiro. 

Confesso que tive essa sensação recentemente. Depois de muitos anos, eu resolvi ler Dolores Claiborne, um livro de 1993, que foi publicado no Brasil com o nome de Eclipse Total. Era o único na lista de mais de 60 livros em que não sei por qual motivo nunca havia me debruçado. A obra trata de uma relação abusiva (tema atual) com o viés sobrenatural (figuras fantasmagóricas formadas na poeira). Fiz bastante uso do aspirador de pó naqueles dias.

O universo de Stephen King é tão complexo que, às vezes, é até difícil adaptá-lo para uma obra audiovisual. Há tempos, Hollywood se alimenta da mente do autor. Recentemente, os serviços de streaming também beberam (e continuam bebendo) bastante desta fonte. Séries são produzidas em uma velocidade alucinante.

A Torre Negra é o maior exemplo de fracasso. O diretor Nikolaj Arcel falhou grotescamente ao tentar contar na telona todo o calvário do pistoleiro Roland Deschain. Nem mesmo Idris Elba e Matthew McConaughey foram capazes de evitar o vexame. É impossível reproduzir em apenas 1h35 uma obra magnífica, dividida em sete livros (o primeiro de 1982 e o último em 2004), além de O Vento pela Fechadura (2012), uma história dentro da história.

O próprio Stephen King participa (como ele mesmo) em Torre Negra. Aliás, este é outro aspecto interessante nas obras do escritor. Diversos personagens ou passagens são colocados em outros livros, como Cujo, o temido cão São Bernardo que ataca mãe e filho em um ferro-velho, que é citado em O Cemitério. Annie Wilkes, de Misery (Louca Obsessão, no cinema), fala da família Torrance, de O Iluminado. Isso acontece inúmeras vezes. Não é necessário ler tudo o que ele escreveu para notar.

Por fim, deixo uma pequena lista dos livros que eu adoro do King para celebrar os seus 75 anos: Christine, Rose Madder, Novembro de 63, Duma Key, O Instituto, Gwendy’s Button Box, Mr. Mercedes (os três), Com Sangue (destaque para o conto que dá nome ao livro) e o conto Riding the Bullet

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