Obra independente de John Cassavetes é reavaliada

Havia o ator e o diretor. E havia o ator nos próprios filmes e nos que interpretou para outros diretores. John Cassavetes surgiu em Hollywood, nos anos 50. Marcou presença em filmes de Don Siegel e Martin Ritt, mas foi em Nova York, como diretor independente, que adquiriu prestígio. Esculpiu o que não deixa de ser um mito. Nesse processo, uma contribuição foi fundamental: a da atriz Gena Rowlands, sua mulher na vida, mãe de seu filho, também ator e diretor, Nick Cassavetes, e sacerdotiza do culto que mantém sempre viva a memória do marido. Em Hollywood, ele fez filmes como "Os Doze Condenados" o Evangelho guerreiro de Robert Aldrich, que transportou para a 2.ª Grande Guerra a idéia dos 12 apóstolos do cristianismo, transformados, profanamente, em apóstolos da violência. Filmou com Roman Polanski, "O Bebê de Rosemary". Por melhores que fossem, eventualmente, esses filmes, Cassavetes só trabalhava em Hollywood para financiar a carreira de diretor independente. Houve outros indies antes dele, claro. Mas quando se fala no grande diretor independente do cinema norte-americano, o nome que vem é sempre o de Cassavetes."Shadows" foi um marco, revelou uma alternativa inteligente ao cinemão, representado por Hollywood. É preciso atentar para a época em que isso ocorria. Os anos 60 entraram para a história como a década que mudou tudo. Da França, a nouvelle vague, que havia surgido ainda nos 50, irradiava-se para todo o mundo e influenciava cinematografias tão distantes como a brasileira, a japonesa ou a norte-americana. As câmeras portáteis, com som direto, testadas pelos diretores da nouvelle vague com vistas à realização de um cinema autoral, deram mobilidade aos filmes autorais de Cassavetes. Vale discutir o conceito de diretor independente norte-americano. Independência - No Brasil, onde o diretor é, em geral, seu roteirista e produtor, captando, no mercado, os recursos para a realização do filme e, depois, algumas vezes, arcando até com os riscos da distribuição, todo modelo de produção é independente, por mais que existam figuras como Luiz Carlos Barreto, muito próximo à figura de um produtor tradicional. Nos EUA, ser independente significa, acima de tudo, ser alternativo a Hollywood. A novidade de "Shadows" repercutiu em Hollywood, que tentou adaptar Cassavetes à camisa-de-força do cinema de estúdio. Em Hollywood ele fez "A Canção da Esperança" e "Minha Esperança É Você", sobre crianças excepcionais. Não deu certo e Cassavetes voltou correndo para seu cinema independente em Nova York, trabalhando apenas como ator para os grandes estúdios. Poucos dos seus filmes ("Maridos", "Assim Fala o Amor/Minnie & Moscowitz", "Glória") tiveram lançamento comercial nos cinemas brasileiros.O último fez sensação: nele, o instinto materno falava mais alto e a prostituta Gena Rowlands empunhava a pistola em defesa do garoto que o próprio amante gângster queria eliminar. Glauber odiava Glória, mas é compreensível. O filme dividiu o Leão de Ouro com "Atlantic City", de Louis Malle, no Festival de Veneza e o enfant-terrible do cinema brasileiro naquele ano concorria com "A Idade da Terra", que foi preterido pelo júri em favor dos outros dois. O grande filme de Cassavetes é quase considerado como sendo "A Woman under Influence", no qual ele deu um papel inesquecível a Gena. Esse e os outros filmes importantes do autor tratam quase sempre do mesmo tema: os problemas do casal no mundo moderno. Há tempos, o grupo Estação promete trazer ao Brasil uma grande retrospectiva de Cassavetes. Quando isso ocorrer, você vai entender as razões do culto a Cassavetes.

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