Obra elucida o mistério da Vera Cruz

Há cinco anos Sérgio Martinelli vem pesquisando a história da Vera Cruz. Seu interesse pelo estúdio que Franco Zampari criou em São Bernardo do Campo, no fim dos anos 1940, surgiu como conseqüência da amizade e da admiração que Martinelli tem por Walter Hugo Khouri, o grande diretor paulista que iniciou sua carreira na Vera Cruz. Por meio de Walter, Martinelli chegou a William Khouri, irmão do cineasta e, com ele, detentor dos direitos do nome da empresa e também do seu patrimônio artístico. Ele ouviu muitas histórias que resolveu contar. E surgiu assim o projeto Vera Cruz - Mito e História, formado por um CD-ROM, exposições e pelo projeto de recuperação do acervo da companhia cinematográfica.O CD-ROM já saiu, as exposições foram realizadas. Na quarta-feira, na Sala Cinemateca, Martinelli lança o livro Vera Cruz - Imagens e História do Cinema Brasileiro, concebido por Alberto de C. Alves e por ele, com edição de imagens de Débora Ivanov. É deslumbrante, com a foto da jovem Tônia Carrero na capa. Se tivesse feito cinema em Hollywood e não na Vera Cruz, Tônia seria até hoje saudada como uma das mulheres mais belas do mundo. No mesmo dia 2, a Sala Cinemateca exibe o documentário Santuário, de Lima Barreto, sobre os 12 Profetas do Aleijadinho, em São Bernardo do Campo, premiado no Festival de Veneza de 1952. E, no dia seguinte, começa uma retrospectiva que vai exibir seis filmes: Appassionata, Caiçara, Na Senda do Crime, O Cangaceiro, Sai da Frente e Terra É sempre Terra.Martinelli gosta de comparar o que chama de "caso Vera Cruz" a Charles Foster Kane, o magnata da imprensa que Orson Welles retratou no clássico Cidadão Kane, de 1941. No filme, Kane morre após pronunciar a palavra "Rosebud" e um jornalista então colhe depoimentos de pessoas que conviveram com o milionário, para tentar descobrir o que isso significa. Martinelli diz que o projeto Vera Cruz é o seu Rosebud. Ele também saiu a campo e colheu depoimentos de Débora Zampari, Abílio Pereira de Almeida, Walter Hugo Khouri, Galileu Garcia, Renato Consorte, Carlos Augusto Calil e Amir Labaki, tentando decifrar o enigma da Vera Cruz. Mas adverte: "Não tento impor ao leitor as minhas conclusões; quero que ele monte esses depoimentos como se fossem peças de um quebra-cabeças e chegue à sua conclusão, o que me parece mais interessante."Ele conta que há muitos mitos em torno da Vera Cruz, muitas informações equivocadas que terminaram sendo erigidas em verdades absolutas. Cita Amir Labaki, que dá um depoimento taxativo no livro: "Boa parte desse mal-entendido decorreu do Cinema Novo, quando fez a revisão crítica do cinema brasileiro que lhe era anterior. O Amir vai na mosca quando diz que toda cinematografia, para afirmar-se, tem de destruir a que a precedeu. Foi assim na França, com a nouvelle vague, no Brasil, com o Cinema Novo. A vítima foi a Vera Cruz."O que Martinelli quer colocar em discussão é o legado da Vera Cruz. Não aceita a avaliação simplista de que foi um projeto da burguesia paulista para criar uma Hollywood dos trópicos. "A Vera Cruz teve em seus quadros alguns dos maiores artistas do País, formou grandes profissionais e influenciou muita coisa que se fez, depois, no cinema, na TV e na publicidade." E ele cita as inverdades que foram consagradas: "Muita gente vai ficar surpresa, mas a Vera Cruz nunca fechou, nunca faliu, produziu até 1976 e funciona até hoje como distribuidora de seu acervo, preservado pela família Khouri."Não haverá nenhuma coletiva na noite de autógrafos do livro sobre a Vera Cruz. Mas Martinelli reserva para este dia o anúncio de certas novidades. Antecipa algumas para os leitores do Estado: "Dividi o projeto de recuperação do acervo em duas partes, uma que vai recuperar a iconografia da Vera Cruz, que inclui 10 mil documentos e negativos; a outra envolve a recuperação dos filmes. Vamos começar com a primeira." Ele também vai realizar, com Galileu Garcia, assistente de direção em O Cangaceiro, um documentário sobre Lima Barreto, retraçando a trajetória e reavaliando a importância do diretor que muitos críticos, nos anos 1950, consideravam gênio da raça e depois foi menosprezado pela geração do Cinema Novo.De capa dura, com 198 páginas e fotos que unem informação histórica à beleza, o livro teve o patrocínio da Qualix Serviços Ambientais, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. O projeto, desde a pesquisa até a impressão, ficou em R$ 200 mil. Há alguns errinhos de revisão e uma legenda trocada, que o autor promete corrigir na próxima edição. Feitas as ressalvas é lançamento obrigatório nas estantes de cinéfilos.Vera Cruz - Imagens e História do Cinema Brasileiro. Concebido por Sergio Martinelli e Alberto de C. Alves. Editora ABooks. 198 páginas. R$ 85,00. Quarta-feira, a partir das 20 horas. Cinemateca Brasileira. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel. 5084-2177.

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