MARINA MALHEIROS/ESTADÃO
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Obra de Suzana de Moraes merece uma revisão crítica

A atriz e diretora, filha de Vinicius de Moraes, morreu nesta terça-feira, 27, aos 74 anos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

27 Janeiro 2015 | 16h25

Morreu, aos 74 anos, a atriz e diretora Suzana de Moraes. Filha mais velha de Vinicius de Moraes, Suzana sofria de câncer no endométrio. Era casada com a cantora Adriana Calcanhoto, com a qual oficializou união em 2010.

Como atriz, Suzana participou de diversos filmes, como Garota de Ipanema (1967), de Leon Hirszman, O Capitão Bandeira contra o Dr. Moura Brasil (1971), de Antonio Calmon, O Gigante da América (1978) e Tabu (1982), ambos de Julio Bressane. Sua última aparição foi em Perfume de Gardênia (1992), de Guilherme de Almeida Prado.

Passando para trás da câmera, Suzana dirigiu o longa Mil e Uma, no período recente mais difícil do cinema brasileiro, praticamente desmantelado na era Collor. Na ocasião do lançamento do longa, em depoimento, Suzana lembra que sua proximidade com a arte cinematográfica muito devia ao convívio com o pai, que fora crítico de cinema na juventude e, mais tarde, diplomata em Los Angeles, mantinha amizade com o pessoal do cinema norte-americano, que frequentava sua casa.

Disse que, ao voltar para o Brasil, sentia-se meio blasé com a cultura nacional e considerava o cinema brasileiro inferior ao que vira em Hollywood. Cedo se converteu ao cinema nacional, que na época vivia sua melhor fase, com a renovação do Cinema Novo e, em seguida, do assim chamado Cinema Marginal. Não por acaso, participa de vários filmes de Julio Bressane, que, ao lado de Rogério Sganzerla, era o mais conhecido dos diretores do "gênero".

Seu trabalho em longa-metragem de ficção, Mil e Uma (1994) revela-se um filme interessante, que bebe diretamente da crise em que vivia o cinema brasileiro quando a ideia foi concebida e realizada. A história é a de Alice (Giovanna Gold), que deseja rodar um filme sobre a suposta passagem de Marcel Duchamp pelo Brasil. Num enredo pontuado por certo surrealismo (o nome da personagem remete a Lewis Carrol e sua Alice no País das Maravilhas), a obra fala, também, e talvez, em especial, da dificuldade em ser artista num país chamado Brasil.

Esta autorreferência, que andou na moda durante certo tempo, rouba a Mil e Uma um pouco da força. Mesmo assim, em época de vacas esquálidas da produção nacional, venceu um Prêmio Especial do Júri no Festival de Gramado e os troféus de melhor roteiro, montagem, fotografia e direção de arte no de Brasília. Merece uma revisão crítica.

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