Obra de Nelson Pereira dos Santos volta restaurada

O cineasta Nelson Pereira dos Santos está finalizando seu documentário Sérgio Buarque de Hollanda - Raízes do Brasil, cinebiografia do pai de Chico Buarque e da moderna historiografia brasileira, mas termina 2003 com uma vitória. Vidas Secas, Azyllo muito Louco e O Amuleto de Ogum, 3 de seus 19 filmes (17 longas e 2 curtas) acabam de ser restaurados, numa parceria do cineasta com a Labocine e a Petrobras. "Agora, quem tem menos de 30 anos verá meus filmes na tela grande, para a qual foram feitos", comemora o cineasta, que já completou 50 anos de carreira. "Foi bom rever amigos que foram para o céu, como Leila Diniz e Jofre Soares, mas estão vivos no celulóide."Desde a criação da Lei do Audiovisual, nos anos 90, que permitiu às empresas investirem parte do Imposto de Renda a pagar em projetos cinematográficos, Nelson buscava parceiros para essa empreitada que evitaria a "morte" de sua obra. A Labocine animou-se, mas só em 2001, quando a BR-Distribuidora acenou com R$ 1,2 milhão, foi possível iniciar o trabalho. "O critério foi o do estado dos filmes. O que estava mais fácil veio primeiro", explica o restaurador Francisco Moreira. "Os próximos devem ser Rio 40 Graus e Rio Zona Norte." Esses são os dois primeiros longas de Nelson Pereira dos Santos, ainda nos anos 50, considerados precursores do Cinema Novo, do qual Vidas Secas viria a ser um dos títulos mais importantes. Apesar disso, dos três relançados, era o que estava em pior estado.Sucesso de crítica aqui e no exterior, Vidas Secas virou lenda do cinema brasileiro mas foi pouco visto. No lançamento, mesmo com bom público, ficou pouco em cartaz e voltou poucas vezes à cena. Nelson pretende relançá-lo - e os outros também - em DVD, mas ainda não tem prazo para isso. Mesmo assim, Vidas Secas teve melhor sorte que os outros dois filmes restaurados. Azyllo muito Louco, de 71, é uma adaptação livre do conto O Alienista, de Machado de Assis, recheado de citações psicodélicas. Nildo Parente, Isabel Ribeiro, Arduíno Colasanti, Ana Maria Magalhães e Leila Diniz parecem estar num longo piquenique hippie, que agradou aos poucos que o viram. Amuleto de Ogum, de 75, misturava trama policial a crenças afro e trazia Jofre Soares, Ney Sant?Ana, Anecy Rocha e Jards Macalé percorrendo ruelas do Rio e da Baixada Fluminense. Como na época o cinema nacional havia encontrado espaço nas salas de exibição, ficou mais tempo em cartaz, mas com bilheteria longe do hit da época, Dona Flor e Seus Dois Maridos.

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