Obra de Nelson Pereira dos Santos será restaurada

Os 19 filmes dirigidos por Nelson Pereira dos Santos (17 longas e 2 médias-metragens) serão restaurados até o fim do ano que vem. A recuperação do primeiro título, Vidas Secas, havia começado por iniciativa do Labocine, mas agora o projeto, orçado em R$ 1,2 milhão, terá financiamento da BR Distribuidora, que já patrocina cópias novas de Alô Alô Carnaval, de Ademar Gonzaga, e de Menino de Engenho, de Walter Lima Júnior. "Com isso, poderemos andar mais depressa", comemora a diretora do Labocine, Sílvia Rabelo.Nelson tinha um projeto aprovado nas Leis Rouanet e do Áudio Visual, mas não conseguira patrocinador. "Levei um susto quando o presidente da BR, Luiz Viana, anunciou que ia recuperar meus filmes, quando recebeu o prêmio Paschoal Secreto, do Sindicato dos Produtores de Cinema", conta Nelson Pereira. "O Labocine não tinha um prazo, por causa dos custos. Agora, eles vão se entender com a BR Distribuidora para ver quem paga o quê."Os filmes de Nelson estão em situação melhor que os dois títulos já citados, mas alguns correm risco de "perecer", o que no jargão do cinema significa não ter cópia em condições de ser refeita, reparada ou exibida. "Há diversas situações e dividimos os filmes em cinco grupos, de acordo com a urgência em restaurá-los ou a importância." E por qual o diretor tem mais apreço? "Para mim são iguais, mas a gente se apega aos que tiveram sucesso de crítica e público, como Vidas Secas, Memórias do Cárcere e Como Era Gostoso o Meu Francês. Só que nem sempre combina com meu gosto. Todo mundo fala de Rio 40 Graus, mas eu acho Rio Zona Norte melhor e mais significativo."Sem cor - Vidas Secas está sento restaurado quadro a quadro porque o negativo não existe mais e a cópia master perdeu a cor. Apesar de ser em preto-e-branco, isso significa que a fotografia de Luiz Carlos Barreto não tem mais o contraste original, considerado revolucionário na época de lançamento. A banda sonora, em que predominam o silêncio e os ruídos da caatinga, também foi prejudicada. "Agora, vamos relançá-lo na versão original do diretor de fotografia", brinca Nelson, parafraseando a publicidade de relançamentos dos clássicos norte-americanos.Outro caso urgente é Rio Zona Norte, cujo negativo "pereceu", embora o contratipo (do qual se extraem as cópias que vão para as salas de exibição) ainda exista. Mas há títulos que estão em bom estado, especialmente os mais recentes, como Memórias do Cárcere e A Terceira Margem do Rio. "Foram filmados em um suporte adequado e são guardados dentro das normas específicas, na Cinemateca Brasileira. Eles cobram por esse serviço, mas nos dão muito mais do que pagamos a eles", comenta Nelson Pereira. "O mais complicado foi recuperar El Justicero, de 1966."Segundo Nelson, El Justicero, "um besteirol do João Bettencourt, com a Adriana Pietro e o Arduíno Colansanti, como galã", teve todas as cópias e o negativo confiscados pela Censura Federal, em 1968, na ressaca do Ato Institucional n.º 5."Ao menos foi essa a história do distribuidor, na época", lembra Nelson. "No ano passado, uma moça que faz tese de doutorado, em Tolouse, na França, sobre censura brasileira ao cinema, conseguiu em Brasília uma carta do chefe da censura da época, enviada ao diretor da Polícia Federal, garantindo que já tinham sido destruídas todas as cópias de El Justicero. Felizmente, o David Neves havia mandado uma para um festival na Itália e eles a guardaram por 30 anos."Nelson reconhece que há filmes brasileiros correndo risco igual ou maior que os seus e que o problema é mundial. "A restauração custa caro e, mesmo nos Estados Unidos, há grandes dificuldades. Os filmes mais antigos não foram feitos para durar até hoje", teoriza ele."Os produtores achavam que a vida comercial de uma produção era, no máximo, cinco anos e não se preocupavam com o futuro. Só quando a televisão apareceu os filmes antigos foram valorizados porque havia demanda do público. Hoje há até canais especializados nesses clássicos e, conseqüentemente, interesse em recuperá-los."

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