Obra de Jean Renoir ganha mostra no Centro Cultural Banco do Brasil

Durante todo o mês serão exibidos 30 filmes e mais dois documentários sobre o artista

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2017 | 18h18

No próximo dia 12 de fevereiro, vão se completar 38 anos da morte de Jean Renoir (em 1979). Em 15 de setembro serão 123 anos de nascimento (em 1894). Nenhuma das duas é uma data redonda, para se comemorar. Mas é preciso falar de 'Jean', segundo filho do pintor impressionista Auguste Renoir. Começa nesta quarta, 1.º, no Centro Cultural Banco do Brasil uma grande retrospectiva dedicada ao diretor. Jean Renoir - A Vida Lá Fora. Durante todo o mês, serão exibidos 30 filmes que ele fez, mais dois documentários sobre o artista. A programação será complementada por debates e terá desdobramentos no Rio e em Brasília. Não é pouca coisa.

François Truffaut, nos seus tempos de crítico, escreveu um célebre artigo desmontando o cinema francês anterior à nouvelle vague. Mas ele sempre poupou Renoir, que ocupava seu panteão com outros gigantes – Alfred Hitchcock, Roberto Rossellini. André Bazin, o célebre crítico, também reverenciava o realismo de Renoir. Piloto, durante a 1.ª Guerra, a de 1914-18, Jean tornou-se ceramista ao se desmobilizar. O cinema só entrou em sua vida em 1923, quando já estava com 29 anos. O primeiro filme, La Fille de L'Eau, é interpretado por Catherine Hessling, a ex-modelo de seu pai, com quem se casou. Três anos depois, era impossível ignorá-lo com sua adaptação de Naná.

Outra adaptação de Feydeau (On Purge Bébé), o fortíssimo – para a época - La Chienne e um Maigret, La Nuit du Carrefour, em 1932, estabelecem em definitivo sua reputação. E começa a fase das obras-primas, como diz Jean Tulard, no Dicionário de Cinema. Boudu Salvo das Águas, O Crime de M. Lange, Une Partie de Campagne – que, mesmo inacabado, é considerado o melhor de seus filmes -, A Besta Humana, outra adaptação de Emile Zola. Renoir firmas-se como cineasta realista, e inclusive vai influenciar, com Toni, de 1934, o neo-realismo italiano. É a fase da parcereia com o ator Michel Simon. A Grande Ilusão, com Jean Gabin, e A Regra do Jogo são a culminação dessa fase.

A 2.ª Guerra o surpreende nas Itália, onde ele pretendia filmar La Tosca. Renoir emigra para os EUA e adquire a cidadania norte-americana, o que provoca polêmica na França, dada sua ligação com a esquerda. Essa fase não tem muitos defensdorees – só Truffaut & Cia. Esta Terra É Minha Terra, Segredos de Alcova (sua versão de O Diáreio de Uma Camareira), Amor à Terra. Algo se passa quando ele vai à Índia, em 1950, e realiza O Rio Sagrado. O impacto do filme será decisivo sobre Satyajit Ray, e o cinema indikano. De volta à França, Renoir realiza, em 1952, La Carrosse d'Or. A última obra-prima?

Seguem-se seus filmes mais pictórticos – impressionistas? -, mas, a par dos elogios à beleza visual, os críticos são reticentes com French Can-Can, As Belas Coisas de Paris e Le Déjeuner sur L'Herbe. A reticêncvia vira hostilidade com O Testamento do Dr. Cordelier, livre adaptação de O Médico e o Monstro, feito para TV. Surge um movimento para colocar Renoir em xeque. Truffaut resiste bravamente em sua defesa. Como diz Tulard, talvez alguns filmes tenham sido supervalorizados, 'mas fica o cineasta da luz e das intenções generosas de Une Partie de Campagne e A Grande Ilusão. Em 1974, Renoir recebeu da Academia de Hollywood um Oscar espercial, de carreira, que lhe foi entregue por Ingrid Bergman. Nos últimos anos, substituiu o cinema pelo teratro e pela literatura, com livros sobre seu pai e o autobiográfico Minha Vida, Meus Filmes.


O essencial de Renoir em 16 filmes

Boudu Salvo das Águas, 1932

Michel Simon joga-se no Sena, tentando se matar. É salvo por burguês que o leva para sua casa. A pasrtir daí, Boudfu subverte a família tradicional. Em 1986, Paul Mazursky adaptou livremente o clássico de Renoir e fez Um Vagabundo na Alta Roda, com Nick Nolte e Bette Midler.

Toni, 1934

Considerado precursor do neo-resalismo, o filme foi feito em locações, com atores não profissionais. Imigrante italiano casa-se com mulher no sul da França, mas conhece outra, por quem se apaixona. Luchino Visconti, apresentado a Renoir por Coco Chanel, foi assistente de direção e absorveu lições que empregou em Obsessão, de 1942.

O Crime de M. Lange, 1936

O tributo de Renoir ao Front Populaire. Casal de fugitivos na Fronteira, a mulher conta porque ele matou o patrão canalha. A cena famosa – Jules Berry dfisfarça-se como padre e, morrendo, pede a atenção de um sacerdote de verdade.

Une Partie de Campagne, 1936

A obra-prima inacabada de Renoir. Família burguesa faz piquenique no campo e dois malandros tentam seduzir a mulher e a filha de M. Dufour. Belíssimas imagens evocam a pintura do pai do cineasta, Auguste Renoir, e o espírito dos contos consisos de Guy de Maupassant.

A Grande Ilusão, 1937

Na 1.ª Guerra, aristocrático oficial francês tem mais afinidade com prisioneiro prussiano do que com seus comandados. Pierre Fresnay, Erich Von Stroheim e Jean Gabin estão no elenco e a cena final é antológica. A neve elimina a demarcação da fronteira e Renoiur faz profissão de fé humanista, contra a guerra que, de novo, se avizinha.

A Besta Humana, 1938

Jean Gabin faz maquiniosta que vê o chefe da estação e a mulher cometerem um crime. E ele se envolve com Simone Simon. Livremente adaptada de Emile Zola, a história foi refilmada nos EUA por Fritz Lang, em 1954 – Desejo Humano.

A Regra do Jogo, 1939

Um retrato devastador da Frsanças da época, e da burguesia que ia se aliar aos naszistas no Governo de Vichy. Patrões e empregados num castelo, no verão. Sexo e tensões sociais. Algumas cenas ficaram célebres – o baile, a caçada.

O Segredo do Pântano, 1941

O primeiro filme de Renoir em seu exílio nos EUA. Ternsões eróticas e sociais xplodem no pântano. É aí que homem injustamente acusado de assassinato se esconde, após fugir da cadeia.

Amor à Terra, 1945

Segredos de Alcova, 1946

A dura vida de uma família que se dedica ao plantio de algodão, no Sul dos EUA. O filom,e costuma ser comparado a Vinhas da Ira, de 1940, que John Ford adaptou do livro de John Steinbeck.

O Rio Sagrado, 1950

Após o exílio norte-americano e antes de regressar à França, Renoir foi ao Ortente. Não estava sastisfeito com a experiência nos EUA, onde teve atritos com o sistema de estúdio. E se projetou na figura desse militar mutilado na guerra e que, amargurado, vai para Índia, onde, como estranho misterioso, vira objeto de desejo de três mulheres. E tudo isso às margens do Ganges, o rio sagrado. As águas passam, como a vida. O filme foi fundamental para que Satyajit Ray se tornasse cineasta.

La Carrosse d' Or, 1952

Em seu retorno à França, Renoir (re)começou com esse tributo à commedia dell'arte. A italiana Anna Magnani faz Camilla, que percorre a América Latina – supostamente o Peru – com sua trupe e se envolve com vice-rei que lhe oferece a carruagem de ouro. François Truffaut, que amsava Renoir, deu à sua produtora o nome de Les Films du Carrosse.

French Can-Can, 1954

O tributo de Renoir ao can-can, que também seria celebrado em Hollywood no começo dos anos 1960 – com Can-Can, de Walter Lang, com Frank Sinatra, Shirley MacLaine e Maurice Chevalier. Jean Gabin quer salvar seu cabaré em Montmartre transformando a lavadeira Françoise Arnoul em estrela da casa, mas isso provoca ciúme em sua amante, Maria Félix. Edith Piaf canta (e atua) e o filme renova a tradição pictórica de Toulouse-Lautrec que John Huston já havia abordado com Moulin Rouge, de 1953.

As Estranhas Coisas de Paris, 1956

No original: Elena et les Hommes. Ingrid Bergman faz aristocrata francesa que vai para Paris e submete os homens a seu fascínio. Jean Marais, Mel Ferrer... Em 1974, Ingrtid ganhou o Osdcar de coadjuvante (por Assassinato no Oriente Express). E foi ela quem entregou a Jean Renoir seu Oscar de carreira. Falou em francês e a sala toda se levantou para aplaudir quando ela se curvou perante o diretor - “Jean, we love you.”

O Testamento do Dr. Cordelier, 1959

Renomado psiquiatra, o Dr. Cordelier faz experimento para avaliar o comportamento humano e libera seu lado mais sombrio, um tipo sinistro chamado Opale. Renoir desconcertou meio mundo com sua adaptação de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Como Alfred Hitchcock, que também usou técnicas de TV em Psicose, de 1960, ele misturou os cortes da televisão com o expressionismo alemão.

Le Petit Théatre de Jean Renoir, 1973

O último longa do diretor também foi feito para TV e é formado por três curtas. O msais fasmoso, Quasd l'Amour Meurt, tem Jeasnne Moreau como 'la chanteuse', a cantora.

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