Obra de Glauber Rocha chega ao DVD

Foram dois anos de preparativos. Primeiro, foi preciso convencer a família da seriedade do empreendimento e resolver questões de direitos autorais. Depois, remasterizar o áudio e selecionar os numerosos extras que umlançamento desse porte, ou com essas intenções, teria,obrigatoriamente, de ter. Finalmente, está tudo pronto, ouquase: uma coletiva no dia 4, no Rio, no Hotel Glória, e outraem São Paulo, no dia 5, na Cinemateca Brasileira, anunciam osurgimento da Coleção Glauber Rocha. É uma parceria da RioFilmecom a Versátil para colocar em DVD a obra do mais polêmicodiretor do cinema brasileiro. Dia 18 chega às lojas o DVD duplode Deus e o Diabo na Terra do Sol.Você nunca viu as imagens de Deus e o Diabo na Terrado Sol desse jeito. "Você se lembra das imagens de OBoulevard do Crime, do Marcel Carné?", pergunta Oceano Vieirade Melo. "Deus e o Diabo ficou ainda mais bonito: as imagenspossuem um brilho excepcional, mas isso não amacia a luz dura doNordeste; pelo contrário, ela ressalta com mais força, ainda."Oceano Vieira não está exagerando para promover a coleção quesua empresa está lançando. A Versátil vem fazendo um trabalhoimportante de recuperação de clássicos brasileiros einternacionais. Grandes filmes brasileiros, italianos, francesesconstam do seu acervo. Deus e o Diabo é o primeiro de umasérie de nove DVDs dedicados a Glauber. Na seqüência virá,provavelmente em março - "É um processo demorado, quando agente quer fazer as coisas com capricho", comenta Oceano -,Terra em Transe.A Versátil tem o know how na criação de DVDs de filmesque são obras de arte, mas Oceano diz que é preciso fazerjustiça a quem de direito. "Foi o embaixador Carrilho quem nosprocurou. Amigo de Glauber, grande defensor da culturabrasileira, ele queria garantir que a obra de Glauber, tãoimportante na definição de rumos para o cinema brasileiro,chegasse ao público com a maior garantia de qualidade possível.E nos chamou para que isso fosse feito", diz Oceano Vieira. Nãoé um DVD qualquer, ele acrescenta. É uma obra de arte, paramuitos críticos e historiadores o maior filme da história docinema brasileiro. Exigia cuidados especiais.Exigia, sim - e os teve. Incluindo o filme, que tem 125minutos de duração, o lançamento em DVD de Deus e o Diabo naTerra do Sol alcançará uma minutagem excepcional, em termos delançamentos do cinema brasileiro. Serão 460 minutos, no total,que a Versátil acomodou num DVD duplo e de camada dupla, já quedois simples não dariam conta dos numerosos extras. Estão lá osdepoimentos de Othon Bastos e Yoná Magalhães, que fazem Coriscoe Rosa, textos, roteiro, excertos de críticas e entrevistas nosjornais da época, um trailer inédito em cinema e o que OceanoVieira considera mais raro: uma coleção de 200 fotos garimpadasna Cinemateca Brasileira e que foram escaneadas numa operaçãocomandada por ninguém menos do que o diretor de fotografia ecâmera do filme, Waldemar Lima.E não faltam os estudiosos da obra de Glauber. Eles sãomuitos, no País e no exterior. Glauber, entre todos os diretoresdo cinema brasileiro, é possivelmente aquele sobre o qual maisse escreveram livros. Seus filmes já foram objetos de todo tipode análise - estética, política, sociológica, até teológica,como o estudo que fez o padre Roberto Francisco Daniel, deBauru. Um recente ciclo de debates promovido (em setembro) pelaAssociação Paulista dos Críticos de Artes, a APCA, no EspaçoUnibanco de Cinema, usou o lançamento de Cidade de Deus, deFernando Meirelles - que, a propósito, completa esta semana 3milhões de espectadores pagantes e torna-se o filme brasileirode maior sucesso de público da retomada -, para debater aestética e a cosmética da fome.Estética (anti)publicitária - É a tese da historiadoraIvana Bentes. A estética da fome criada por Glauber na eclosãodo Cinema Novo, nos anos 1960, estaria sendo transformada numacosmética da fome, com o embelezamentos das imagens do sertão eda favela pelos novos diretores vindos da publicidade, no limiardo terceiro milênio. Ivana analisa o fenômeno num livro aindainédito, mas cuja influência já é tão grande que ele não pára deestimular debates como o promovido pela APCA, em São Paulo. Comoespecialista na obra de Glauber - compilou a correspondência doautor, reunindo-a num volume intitulado Cartas ao Mundo, quenão deixa de ser uma biografia epistolar -, Ivana é uma daspersonalidades entrevistas no rol de extras que compõe o DVDduplo de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Sim, dona Lúcia, aincansável mãe de Glauber, sacerdotisa de seu culto - e quemantém o Espaço Glauber, como centro de catalogação,documentação e pesquisa da obra glauberiana -, não poderiafaltar nesse DVD.Tão grande é a convicção que os sócios têm noempreendimento que Arnaldo Carrilho e Oceano Vieira de Melo,isto é, a RioFilme e a Versátil, estão bancando sozinhas aColeção Glauber Rocha, sem recorrer às leis de patrocínio quepoderiam ser utilizadas, já que se trata de projeto deindiscutível relevância cultural. É o que o embaixador Carrilho,presidente da distribuidora de filmes da prefeitura do Rio deJaneiro, não se cansa de dizer.Em qualquer fórum para o qual seja chamado, ele faz umaintransigente defesa do cinema brasileiro e de Glauber, emespecial, como patrimônio não só do País, mas da própriahumanidade. Glauber, qualquer pessoa sabe, está longe de ser umaunanimidade. Na primeira noite de debate no Espaço Unibanco,Fernando Meirelles esteve a ponto de ser queimado por ter dito,com toda honestidade, alto e bom som, o que alguns só admitem naintimidade - acha que Glauber é um chato.Pode ser um chato, embora esse adjetivo chulo - quasesempre empregado no sentido de maçante - não seja um critériosério de avaliação. Chato tem a conotação de pouco elegante evulgar, o que não é o caso da obra de Glauber. Se ele é chato éporque é incômodo e aí a sua chatice é subversiva - retira oespectador da comodidade de uma estética tradicional e via deregra colonizadora para lançá-lo no centro de uma poéticabárbara que bate na tela como expressão do transe latino.Glauber foi um dos principais artistas que, nos anos 1960,desenvolveram um projeto revolucionário de linguagem e de vida.O tempo passa e continua sendo impossível enquadrá-lo emnormas acadêmicas. A Coleção Glauber Rocha começa sob o signo desuas obras mais importantes. Deus e o Diabo e Terra emTranse são marcos na história do cinema brasileiro, por maisque ambos os filmes possam desconcertar - as cenas em que oscangaceiros invadem o casamento em Deus e o Diabo e as daorgia em Terra em Transe. Glauber, com sua estrutura bipolar, criou uma estética nova e poderosa. Uma coleção em DVD, a elededicada, é mais do que uma necessidade. "É a certeza de queestamos preservando para a posteridade, com a mais avançadatecnologia possível, uma obra fundamental como afirmação denossa identidade artística e cultural", diz Oceano Vieira deMelo.

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