Obra de George Stevens sai em DVD

George Stevens realizou 12 filmes nos anos 30 - sua fase mais prolífica -, seis nos 40, cinco nos 50 e apenas dois nos 60. Seus admiradores gostam de atribuir essa queda de produtividade ao perfeccionismo do mestre. Elembram que, dos cinco filmes nos anos 50, três são clássicosque se colocam entre as obras-primas do cinema norte-americano.Além do mais, compõem uma espécie de trilogia sobre a vida nosEUA: Um Lugar ao Sol, Os Brutos também Amam (Shane) eAssim Caminha a Humanidade (Giant). É tempo de lembrar ogrande Stevens que morreu em 1975, aos 71 anos.A Maior História de Todos os Tempos já está naslocadoras e lojas especializadas em DVD duplo da Metro. Nadamais adequado do que (re)ver a vida de Cristo nestes dias queprecedem a Semana Santa (e a Páscoa).Nos anos 60, o mundo estava mudando (e o cinema também),quando Stevens fez seu clássico sobre Cristo. As mudanças haviamsido antecipadas por Federico Fellini, quando ganhou a Palma deOuro em Cannes, em 1960, com A Doce Vida. Mudanças decomportamentos e também estéticas: de Paris, a nouvelle vagueirradiava-se para todo o mundo, os equipamentos ficavam maisleves, havia câmeras portáteis que permitiam gravar diretamenteo som. Hollywood resistia a tudo isso (e à concorrência datelevisão) com épicos religiosos: Ben-Hur, O Rei dos Reis,A Maior História de Todos os Tempos.A crítica foi inclemente com Stevens. Harvard Lampoonatribuiu-lhe o Prêmio "Por Favor, Poupe-nos de Mais De Mille"pelo pior filme de 1965. Segundo o pessoal irreverente doLampoon, precursor do Casseta e Planeta, A Maior Históriade Todos os Tempos seria mais um épico pomposo, no qual areligião era tratada de forma carnavalesca, no estilo quecelebrizou Cecil B. de Mille. O cineasta morrera em 1959, àsvésperas do início da década que iria mudar tudo. Simbolicamente, muitos críticos viram no fato o encerramento de uma época.Talvez exagerassem, talvez não.Tudo levava Stevens a biografar o Cristo. O personagemde Montgomery Clift é punido e vai para a cadeira elétrica nãopor matar, mas por ter pensado em matar, em Um Lugar ao Sol.Shane, o pistoleiro do western clássico Os Brutos tambémAmam, sacrifica-se para preservar a unidade familiar dorancheiro a quem ajuda. Stevens já era cristão antes de contar amaior história de todos os tempos. Vale lembrar também que umacena emblemática - ah, essa palavra - é a do recasamento de RockHudson e Elizabeth Taylor, isso é, Rick Benedict e Leslie emAssim Caminha a Humanidade. Eles estão separados, vão a umcasamento e, quando o padre lança sua bênção sobre os noivos ediz o que representa aquela cerimônia, é como se Leslie eBenedict estivessem renovando os laços da própria união.Puro direito hollywoodiano à segunda chance. O temavolta na cena mais grandiosa de A Maior História: aressurreição de Lázaro. Não é preciso ser cristão paraarrepiar-se com o uso bombástico que Stevens faz da imagem, damontagem e da música. Justamente a música: há uma musicalidadedo estilo em Stevens. Os closes de Liz Taylor e Monty Clift emUm Lugar ao Sol compõem uma sonata que o cineasta de algumaforma repete, de novo com Liz e agora Warren Beatty em Jogo dePaixões, que terminou sendo seu último filme (em 1970). Quandofez o seu opus final, o diretor estava irremediavelmente velho.O filme foi considerado demodê. Hoje, sabe-se que Stevens estavaantecipando Francis Ford Coppola (O Fundo do Coração). Quempoderia sabê-lo, na época?Stevens, na verdade, sempre foi discutido. Cahiers duCinéma criticava seu método - ele filmava todas as cenas dediversos ângulos, optando pelas melhores tomadas durante amontagem -, vendo no procedimento a ausência de mise-en-scène,fundamental no processo criativo cinematográfico. O que nãofaltava era coragem ao diretor. Ele transformou Big Valley nasua Judéia e importou da Suécia o bergmaniano Max von Sydow,fazendo dele o seu Cristo, mesmo que Max, um senhor ator, não separecesse nem um pouco com a imagem tradicionalmente atribuídaao filho de Deus. O filme durava inicialmente 225 minutos. Foicortado para 141 minutos depois que fracassou nas bilheterias. ODVD, nesse sentido, é precioso. Traz, além de trailer edocumentário, cenas que foram excluídas da versão para cinema.Para stevensmaníacos, é programa imperdível.A Maior História de Todos os Tempos. DVD duplo da Metro. Naslojas por R$ 51,90.

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