Obra de David Lean ganha revisão em 18 filmes consagrados

Da fase inicial aos clássicos como ‘Rio Kwai’ e “Lawrence da Arábia’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2015 | 04h00

Embora Doutor Jivago, que adaptou do romance de Boris Pasternak, tenha sido o maior sucesso de público da carreira de David Lean, não é o filme pelo qual ele próprio gostaria de ser lembrado. Lean teve várias fases ao longo de sua carreira. Iniciou-se como montador, codirigiu com Noel Coward, virou adaptador de Charles Dickens. Em 1950, quando dirige As Cartas de Madeleine, já tem sete longas no currículo. E, então, algo se passa. O prestígio que Lean adquirira, e que tão laboriosamente construíra, meio que desmorona. Os filmes são mal recebidos, comédias como Papai É do Contra e Quando Floresce o Coração. E, de novo, algo se passa. Com A Ponte do Rio Kwai, em 1957, Lean ganha os principais Oscars – e inicia a fase das superproduções.

Até o fim da vida – em 1991, aos 83 anos; a carreira terminara em 1984 –, ele só dirigiu filmes grandes. Criou um estilo de cinema, o épico intimista, que o levou a ser reconhecido como mestre. Steven Spielberg, George Lucas, Francis Ford Coppola – a Nova Hollywood o reverenciava. Ganhou mais Oscars. E, agora, graças ao CCBB, será possível fazer a revisão de todo David Lean. Seus 18 longas – os 16 que assinou, um pelo qual não obteve crédito e outro do qual foi montador – integram a retrospectiva completa que vai até 11 de janeiro, em São Paulo.

Sua vocação como montador foi benéfica para todo o cinema britânico porque ele tinha por hábito acompanhar os diretores no set e sugeria planos que depois sabia que seriam necessários na edição. Foi assim que ‘aconselhou’ Gabriel Pascal em momentos decisivos de Major Bárbara e, bem mais tarde, em 1965, dirigiu uma parte de A Maior História de Todos os Tempos apenas para ajudar o amigo George Stevens a manter-se dentro do cronograma de produção. Em 1942, aos 34 anos, correalizou Nosso Barco, Nossa Vida com o dramaturgo Coward. Em 1945, aos 37, realizou Desencanto, com Celia Johnson e Trevor Howard – a tentação do adultério por um jovem casal que se sente atraído, mas resiste para não trair os respectivos cônjuges.

Veneza é personagem de Quando o Coração Floresce, com Katharine Hepburn e Rossano Brazzi. E chegam os épicos. A 2.ª Guerra em Rio Kwai, o deserto em Lawrence. Se Lawrence representa o Lean mais político, o tema da dominação (inglesa na Irlanda em A Filha de Ryan, inglesa, de novo, em Passagem para a Índia) permite-lhe abordar temas que lhe foram caros, a sexualidade e a repressão. Peter O’Toole, em Lawrence, é um exibicionista e o oficial inglês e o japonês, Alec Guinness e Sessue Hayakawa, mantêm uma relação de atração e repulsão em Rio Kwai. Lean nunca foi tolerante com o machismo patriótico dos ingleses. Filmava rebeliões, mas era cético quanto ao seu desenlace. Nunca saberemos ao certo o que ocorreu naquelas cavernas em Passagem para a Índia. Diante da perturbação que sente, Adela diz que é ‘nada’. A chave do filme, e da fase final de Lean, é o olhar exasperado de Mrs. Moore (Peggy Ashcroft) para a submissão do colonizado.

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