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O uruguaio Alvaro Brechner explica como nasceu o ótimo e bem-humorado ‘Sr. Kaplan’

Filme estreou nesta semana nas salas brasileiras

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 de fevereiro de 2015 | 03h00

Existem diferentes versões que tentam explicar por que o Uruguai, sendo um país tão pequeno e produzindo tão poucos filmes, os faz sempre bons. Anos atrás, num Festival de Gramado, Pablo Stoll deu sua versão – não existe uma tradição de teledramaturgia no Uruguai. O Brasil produz novelas que correm mundo. O cinema mais comercial flerta/flertaria com a TV. Alvaro Brechner, diretor de Sr. Kaplan, que estreou nesta semana, arrisca outra interpretação. “É tão difícil fazer filmes no Uruguai que é preciso muita paixão para encarar o desafio. Em geral, os filmes ficam prontos na nossa cabeça antes mesmo de começarmos a filmar. Nossas equipes, e eu me incluo, são movidas a paixão.”

Sr. Kaplan foi indicado pelo Uruguai e concorreu com o brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro. Foram preteridos pelo argentino Relatos Selvagens, de Damián Szifron. O curioso é que Sr. Kaplan de alguma forma dialoga com o polonês Ida, de Pawel Pawlikowski, que terminou premiado no Oscar. Sr. Kaplan baseia-se no livro O Salmo de Kaplan, de Marco Schwartz. Há tempos, Brechner sonhava com um filme familiar.

Seu avô, um judeu polonês, emigrou para o Uruguai. Aos filhos e netos, contava sempre as histórias de sua aldeia. Segundo o conceito de Tolstoi, eram locais e tornavam-se universais. Já cineasta, Brechner foi a um festival na Polônia. Aproveitou para visitar a aldeia do avô. Sonhava, quem sabe, reencontrar suas origens – sua identidade. Encontrou uma terra de ninguém. Até o cemitério judaico estava esvaziado de suas tradições. Lembra alguma coisa? O filme de Pawlikowski, claro. “Gostei demais (de ‘Ida’)”, revela Brechner.

Jacopo Kaplan é um velho judeu de 70 e tantos anos. A vista anda fraca e a família contrata um motorista. Os filhos preocupam-se com Jacopo sem querer se ocupar dele. Querem que fique no seu canto. Mas Jacopo ainda não queimou seu filme e sonha com aventura. Arrasta o motorista, o ex-policial Contreras, a uma missão que parece impossível. Numa praia próxima, vive um alemão chamado de ‘nazista’. Inspirado no sequestro e julgamento de Adolf Eichmann, nos anos 1960, Jacopo e Contreras resolvem ‘caçar’ o nazista.

É um filme de dupla. “Desde o início percebi que, se não tivesse os atores certos, a coisa não iria funcionar”, explica o diretor. O processo de casting foi longo. Finalmente, ele chegou a Héctor Noguera, um grande ator chileno de teatro. Noguera tinha tudo – a idade, o physique du rôle, o temperamento. Foi o eixo em torno do qual Brechner começou a trabalhar. Néstor Guizzini é um ator argentino muito conhecido. Você pode até não identificá-lo pelo nome, mas vai saber quem é. “As coisas são realmente interessantes. O livro me interessou por causa de meu avô. Admiro Néstor, mas o estava testando para fazer outro personagem, o filho escritor. Só que, de cara, deu para ver que sua química com Héctor era muito boa. E os meus planos terminaram mudando. O filme impôs o seu caminho.”

Os dois atores ensaiaram muito como preparação para a filmagem. Apropriaram-se e reinventaram os diálogos. “Um exemplo é a cena da insolação. Escrita era uma coisa, mas eles a transformaram em outra, muito melhor.” Brechner recorre a uma frase de G.K. Chesterton para resumir o que, para ele, é o tema de Sr. Kaplan. “Todo homem é extraordinário, mas só os ordinários (comuns) sabem disso.”

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