O universo de suspense do mestre Hitchcock

Cineasta inglês, morto há 35 anos, procurava sempre colocar uma marca "autoral" em seus filmes; confira alguns trailers

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

29 de abril de 2015 | 15h27

Quando morreu, há 35 anos, Alfred Hitchcock era um nome mais que consagrado na história do cinema. Desde então sua fama só fez aumentar. A ponto de uma de suas obras-primas - Um Corpo que Cai, de 1958 - ser eleita o melhor filme de todos os tempos em recente pesquisa da revista britânica Sight & Sound, patrocinada pelo BFI (British Film Institute), ouvindo críticos e diretores de todo o mundo. Desse modo, Vertigo (título original) desbancava o antes tido como imbatível Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, para o segundo posto.

Uma façanha e tanto, levando-se em conta que, até certo ponto já bastante avançado em sua carreira, Hitchcock, embora respeitado como "mestre do suspenso", era tido pela crítica apenas como "bom artesão". Ou seja, não era exatamente considerado um artista.

Quando foi reconhecido pelos estudiosos do cinema, Hitch já era dono de uma carreira bastante longa. Nascido em Londres em 1899, estreou como diretor, com The Pleasure Garden, em 1925, ainda na fase do cinema mudo. O primeiro suspense foi The Lodger, em 1926. Foi fazendo carreira na Inglaterra até 1939, quando Hollywood "comprou seu passe" e o levou para os Estados Unidos. Hitchcock prosseguiu sua trajetória de cineasta detalhista e que, trabalhando dentro da indústria, procurava sempre colocar uma marca "autoral" em seus filmes. Poucos percebiam isso, mas Hitch sempre fazia uma pequena aparição em suas obras, como a dizer e reafirmar que, apesar de serem filmes comerciais, levavam sua assinatura indelével.

O reconhecimento de Hitchcock se deve muito à ação dos então jovens críticos da revista francesa Cahiers Du Cinéma e que se tornariam diretores famosos diretores da nouvelle vague - Eric Rohmer, Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, Jacques Rivette e, em especial, François Truffaut. Eles dedicaram numerosos ensaios e livros a Hitchcock, tentando mostrar que ele era muito mais que um diretor de filmes de suspense. Era um autor, exprimia sua visão de mundo através dos seus filmes, não propriamente pelo seu conteúdo, mas pela linguagem cinematográfica que manejava como ninguém. Truffaut realizou uma série de 16 entrevistas com Hitchcock e as organizo em Hitchcock/Truffaut - Entrevistas, um dos mais belos livros sobre cinema já escritos. Nele, entrevistador e entrevistado dissecam cada um dos filmes, esmiuçando aspectos técnicos, anedotas de filmagem e estratégias do diretor.

Equivale não a uma aula de cinema, mas a um curso inteiro.

O fato é que o legado de Hitchcock é mais do que considerável. Dois dos seus filmes são considerados obras-primas indiscutíveis - Janela Indiscreta (1954) e o já citado Um Corpo que Cai. São dois filmes sobre o olhar. No primeiro, o protagonista (James Stewart), imobilizado em sua casa por uma perna quebrada, testemunha um crime que acontece no prédio em frente. No segundo, o protagonista (Stewart, novamente) é levado a pensar que a mulher que ama morreu e tenta encontrar em outra a semelhança que o leva à amada perdida.

Filme após filme, Hitch vai construindo esse universo de suspense com os materiais de sua própria visão da vida. Uma visão católica, em que a culpa está presente ao lado de uma redenção sempre difícil, incompleta e problemática. A própria natureza às vezes parece conspirar contra os seres humanos indefesos, como em outro dos seus grandes sucessos, Os Pássaros (1963), baseado em conto de Daphne Du Maurier e protagonizado por Tippi Hedren (futura mãe de Melanie Griffith). Por que os pássaros atacam e por que deixam de atacar? Não se sabe. São como a presença do destino na trajetória humana, limitando seu livre-arbítrio.

Mas talvez o mais famoso tenha sido o arrepiante Psicose (1960), que provocou histeria no público quando lançado, sob grande segredo a respeito do seu desfecho. A sequência do assassinato de Janet Leigh sob o chuveiro passou a ser uma das mais famosas da história do cinema, embora seja tolice compará-la em influência com a da escadaria de Odessa de O Encouraçado Potemkim (1925), de Sergei Eisenstein. São incomparáveis artísticos, dependem da época em que foram feitos e da sensibilidade do público de determinado tempo. De qualquer forma, a cena do chuveiro é de antologia.

E produziu forte impacto na plateia que a viu. Conta-se que um homem escreveu uma carta ao diretor, queixando-se de que sua filha recusava-se a tomar banho depois de ter visto o filme. Hitch respondeu: "Recomendo lavagem a seco". Não perdia a piada. E nem o público, pois este era sua preocupação constante, como se pode notar pela entrevista concedida a Truffaut. Numa época em que jovens gênios acham que devem ser herméticos para parecerem autorais, a leitura de Hitchcock/Truffaut seria muito útil.

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