"O Último Metrô" reestréia em cópia nova

Há uma referência intelectual e uma lembrança pessoal na origem de O Último Metrô, o longa-metragem de François Truffaut que reestréia com cópia nova. Truffaut queria, com esse projeto, comentar a frase algo enigmática de Sartre: "Nunca fomos tão livres como durante a Ocupação alemã." Mas também havia uma recordação. Truffaut vivera os anos da guerra durante a adolescência e buscava uma visão "não-heróica" do período. Para ele, tudo acontecera de maneira mais calma, distante da mitologia que separava alemães de um lado e resistentes de outro. Tema provocativo, portanto, que mexe com a mitologia da nação. Além disso, Truffaut queria mesclar a sua história da Ocupação com o cotidiano de um pequeno teatro parisiense. Nada é poupado em relação à intolerância do período. O dono do teatro, Lucas Steiner (Heinz Bennet), é obrigado a se esconder por ser judeu. Quem passa a comandar a casa é sua mulher, Marion (Catherine Deneuve). Ela esconde o marido no porão do teatro, de onde ele fiscaliza os ensaios e as representações. Para encenar uma nova peça, La Disparue, a companhia contrata o ator Bernard Granger (Gérard Depardieu). Os outros personagens marcantes são o diretor substituto, Jean-Louis Cottins (Jean Poiret), e Daxiat, um crítico venal e colaboracionista, vivido por Jean-Louis Richard, que já havia sido roteirista de Truffaut. Assim, O Último Metrô é um relato cotidiano da Ocupação, porém construído de um ponto de vista especial, da gente que vive do teatro, do mundo do espetáculo, da ilusão. Tudo, na ação, é devidamente desglamourizado. Não há destaque para atos de heroísmo nem grandes velharias, com a possível exceção de Daxiat, este sim um vilão completo, poltrão, covarde, aproveitador. E não por acaso encarnado por Truffaut na figura de um crítico. O que não deixa de ser curioso, porque, antes de se tornar cineasta, François Truffaut foi um dos mais temíveis críticos de sua época, demolindo figuras como Jean Dellanoy e Claude Autant-Lara em artigos impiedosos da Cahiers du Cinéma. O fato é que o Truffaut de O Último Metrô já está longe do "jovem turco" iconoclasta e incisivo da época da Cahiers. Será possível atribuir ao acomodado classicismo do filme o seu enorme sucesso, tanto na França quanto no exterior? Difícil dizer, mesmo porque não se pode acusá-lo de concessões gratuitas ao gosto popular. Seria assim se Truffaut se curvasse a uma auto-imagem de heroísmo, tão agradável quanto distante da realidade. O que o filme diz é simples: bem ou mal, conviveu-se com o ocupante. Era necessário negociar, agir às escondidas, trapacear para se conseguir sobreviver. O Teatro Montmartre é um microcosmo, mas pode-se pensar que a sociedade francesa, em peso, agiu assim. Os alemães passaram pela linha Maginot como uma faca quente passa pela manteiga. Instalaram-se na França, houve Vichy, houve Pétain. Houve também a Resistência e De Gaulle. Mas o cidadão comum resistia na medida de suas possibilidades, transformando a sobrevivência num ato de heroísmo modesto. Essa é a história contada por O Último Metrô. A única alusão à Resistência armada parte do personagem de Depardieu, e bem de passagem. No entanto, em sua maneira tranqüila de narrar, Truffaut toca em alguns pontos importantes. Sua visão dos fatos parece mais plausível que a de obras tão falsas quanto patrióticas. Faz uma antiversão oficial dos fatos. A sobrevivência em tempos difíceis, essa liberdade de que falava Sartre, é colhida muito bem pelo cineasta. Tratava-se de ir tocando a vida, com a cabeça razoavelmente em pé, até que outros homens, e o tempo, fizessem seu trabalho. Essa espera pelo processo histórico também foi vivida em outros países e outros momentos, como o Brasil sob a ditadura militar. Quem viveu sabe: durante esses períodos negros da História, continuar decente chega a ser um feito e tanto.

Agencia Estado,

18 de janeiro de 2001 | 21h17

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