REUTERS/Yara Nardi
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‘O Último Duelo': Como Matt Damon e Ben Affleck recrutaram Nicole Holofcener para o roteiro

Os três roteiristas do filme falam sobre a complexidade da colaboração e o retrato da agressão sexual em um período violento no qual as mulheres eram pouco mais que bens móveis

Kathryn Shattuck, The New York Times

17 de setembro de 2021 | 16h02

Faz quase 25 anos que Matt Damon e Ben Affleck escreveram e estrelaram Gênio Indomável, estabelecendo o tipo de parceria em Hollywood em que um nome raramente é citado sem o outro.



Mas para sua primeira reunião de escrita desde então, O Último Duelo, os dois não queriam apenas outra versão de The Matt and Ben Show. O que eles realmente queriam para esse drama histórico sobre uma mulher que foi estuprada, e os homens que se recusam a acreditar nela, era uma mulher como colaboradora. E então eles procuraram a escritora e roteirista Nicole Holofcener, celebrada por suas observações cheias de nuances de mulheres contemporâneas complexas em filmes como À Procura do Amor e Amigas com Dinheiro.

O Último Duelo, dirigido por Ridley Scott, baseado no livro de 2004 de Eric Jaeger e em cartaz a partir de 15 de outubro, retrata um julgamento final oficialmente sancionado em combate na França: em 1386, Jean de Carrouges, um cavaleiro, e seu amigo transformado em rival, Jacques Le Gris, um escudeiro, recebem a ordem de lutarem até a morte depois que a esposa de Carrouges, Marguerite, acusa Le Gris de tê-la estuprado e ele nega. Quem sobreviver será proclamado vencedor como um sinal da providência divina. Se Carrouges perder, Marguerite será queimada na fogueira acusada de perjúrio.

O filme, ambientado na brutalidade da Guerra dos Cem Anos, é dividido em três capítulos: - a “verdade” de acordo com Carrouges (Damon), Le Gris (Adam Driver) e finalmente, Marguerite (Jodie Comer). Damon e Affleck escreveram as perspectivas masculinas e Holofcener escreveu a de Marguerite.

“O mais difícil na arquitetura do roteiro foi o terceiro ato, porque esse mundo das mulheres teve que ser quase inventado e imaginado do nada”, Damon disse. “Os homens eram bem meticulosos em tomar notas sobre o que faziam na época. Mas ninguém falava sobre o que estava acontecendo com as mulheres, porque elas nem sequer eram consideradas indivíduos”

“É uma adaptação de um livro que lemos”, ele acrescentou, “mas a parte de Nicole é uma espécie de roteiro original”.

 


Em uma animada chamada de vídeo no fim de agosto - Damon no Brooklyn, Affleck e Holofcener em Los Angeles - os três discutiram a complexidade da colaboração e o retrato da agressão sexual em um período violento no qual as mulheres eram pouco mais que bens móveis. Esses são trechos editados da conversa.


 

Vamos começar do começo. Matt, é dezembro de 2018 e você acabou de ler o livro de Jager. O que aconteceu depois?

MATT DAMON: Ridley e eu estávamos procurando algo para fazermos juntos desde Perdido em Marte e fizemos algumas tentativas frustradas. Então eu mandei o livro para Ridley e ele adorou. Em março de 2019, Ben veio jantar, levou o livro e me ligou às 7 da manhã no dia seguinte dizendo: “Vamos fazer isso”. E foi como começamos a escrita. Mas muito rapidamente, através de um monte de conversas que tivemos com um monte de gente, decidimos que a história ficaria melhor se tivéssemos a melhor roteirista que pudéssemos para escrever a perspectiva feminina.  

NICOLE HOLOFCENER: [Seca] Além disso, Ridley e eu estávamos procurando algo para fazermos juntos há anos.

DAMON: [risos] Ah, agora sou um [palavrão]. Meu Deus!

HOLOFCENER: Não, não. Estou tirando sarro de você? Não foi isso. Estava só pensando como minha sensibilidade é diferente da de Ridley. Só isso.

DAMON: Sim, sim. Enfim, Nicole era nossa roteirista dos sonhos e nossa primeira escolha. E graças a Deus que ela aceitou. E ela disse sim, em grande parte, porque Ben, sem que eu soubesse, mandou umas 10, 15 páginas para ela que não tínhamos mostrado a ninguém. E eu fiquei tão envergonhado, profissionalmente envergonhado mesmo, que ele tivesse mandado isso para Nicole Holofcener.

HOLOFCENER: Não estava bom, mas estava bom o suficiente para que eu pensasse, “Quero trabalhar com esses caras”.


 

Por que três capítulos?

BEN AFFLECK: Muito rapidamente, percebemos que o filme tem um ponto de vista claro sobre quem está falando a verdade. E que essa personagem incrivelmente heroica, Marguerite de Carrouges, tinha uma história que merecia ser contada. Era óbvio que seria uma exploração das dinâmicas de poder, das raízes da misoginia e como sobreviver na França medieval. Tinha todos os elementos que fazem uma história realmente boa de ser contada - a ideia de um narrador não confiável, um segundo narrador não confiável e então uma espécie de revelação do que aconteceu pelos olhos de uma personagem que era o herói e ao mesmo tempo, teve sua humanidade negada e ignorada.

HOLOFCENER: Mas também tem o fato de que as coisas não eram claras para os homens e, para a mulher, o que aconteceu era muito claro. Então, os pontos de vista masculinos trazem essa perspectiva da ilusão masculina.


 

Nicole, Marguerite não estava muito elaborada no livro. Como você criou seu mundo?

HOLOFCENER: Eu pesquisei sobre como as mulheres eram na época e o que tinham que aguentar. Dei a ela alguém com quem pudesse falar. Eu sabia que ela teria que cuidar da propriedade enquanto ele estivesse lutando. Então estudei, “Bem, o que eles fazem?” Tomam conta dos animais, dos cavalos e da colheita. E realmente tentei imaginar como era horrível para ela e como ela lidava com esse horror. Sua vida era muito ruim sendo casada com Jean de Carrouges e quando ela foi violentada, na verdade, não tinha nada a perder. Quero dizer, ela iria sofrer. Ela tinha um potencial para sofrer muito e morrer, mas àquela altura estava apenas cansada de não ter voz.


 

Como você teve a certeza de estar retratando o estupro de Marguerite de forma precisa, sem explorá-lo?

AFFLECK: Fomos especialmente sensíveis e cuidadosos para de fato ouvir e pesquisar, consultamos a RAINN [uma organização que ajuda vítimas de estupro, abuso e incesto], sobreviventes de agressões, especialistas na época, grupos de mulheres, e tentamos fazer com que essas outras experiências ajudassem a história fazendo com que tudo ficasse o mais autêntico possível.

HOLOFCENER: Eu acho que essas organizações realmente queriam ter certeza que iríamos deixar a verdade clara - que não se trata de “ele disse, ela disse”. Isso não é ambivalente.


 

Que escolhas fez para manter-se fiel ou afastar-se do livro?

DAMON: A maior mudança foi na cena do estupro. Marguerite de Carrouges disse tanto no tribunal como repetidas vezes para um grupo cada vez maior de pessoas e eventualmente para toda a França, que Jacques Le Gris entrou na sua casa com outro homem, Adam Louvel. No filme, temos Louvel entrando, mas Le Gris diz para ele sair. No testemunho real de Marguerite, o estupro foi muito mais brutal. Ela foi amarrada e amordaçada. Ela quase morreu sufocada. E Louvel estava no quarto.

HOLOFCENER: [Le Gris] disse a si mesmo que a amava.

AFFLECK: Foi impressionante ver como esse comportamento e atitude com as mulheres era tão completo e generalizado, e os vestígios que ainda estão conosco hoje. Isso é muito poderoso. Esperamos que as pessoas olhem para isso e pensem: “Eu sempre entendi como as minhas ações são percebidas pelos outros? Sempre reconheci a realidade das outras pessoas, a verdade, a perspectiva, em relação ao meu comportamento?” E talvez isso faça com que reflitam.


 

Ben, entendi que, originalmente, você iria interpretar Le Gris. E então decidiu interpretar o conde libertino Pierre d’Alençon ao invés de enfrentar Matt na tela. Por quê?

HOLOFCENER: Ele tomou juízo.

AFFLECK: O que realmente aconteceu foi-

DAMON: Ouvimos que Adam Driver estava interessado. [Todos riem]


TRADUÇÃO DE LÍVIA BUELONI GONÇALVES

 

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