Gullane
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‘O Traidor’ narra a trajetória do mafioso italiano Tommaso Buscetta

Filme de Marco Bellocchio fala do criminoso que morou no Brasil e colaborou com a Justiça italiana

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

14 de abril de 2022 | 05h00
Atualizado 20 de abril de 2022 | 15h52

Fazer um filme sobre a máfia é inevitavelmente ser comparado à visão grandiloquente e glamourosa de Francis Ford Coppola em O Poderoso Chefão ou ao olhar mais pé no chão e eletrizante de Martin Scorsese em produções como Os Bons Companheiros. Que o diga o italiano Marco Bellocchio, um dos maiores cineastas em atividade, que lança O Traidor, uma coprodução da Gullane que estreia hoje, 14, no Brasil, dois anos depois de estar na competição do Festival de CannesNo filme, ele conta a história de um mafioso de verdade, Tommaso Buscetta, membro da Cosa Nostra que delatou seus antigos companheiros para o famoso magistrado Giovanni Falcone. 

“As situações eram reais”, disse ele em entrevista durante o Festival de Cannes, ao ser indagado sobre as diferenças em relação aos filmes de Coppola. “O Poderoso Chefão era inventado. Claro que algumas produções de Hollywood lidaram com personagens reais, como em Donnie Brasco (filme de 1997 dirigido por Mike Newell e estrelado por Al Pacino e Johnny Depp). Em O Traidor, todo mundo é real.” A história de Buscetta, que fez cirurgia plástica e das cordas vocais para ficar menos reconhecível, é cinematográfica o suficiente. 

Obviamente que adaptações tiveram de ser feitas para caber em um filme de duas horas e meia, especialmente o pedaço em que Buscetta, interpretado por Pierfrancesco Favino, viveu aqui. “Ele ficou duas vezes no Brasil. Em 1972, ele foi preso, torturado e deportado para a Itália”, contou Bellocchio, que rodou várias das cenas no Rio de Janeiro. O filme mostra como a mulher do criminoso, a brasileira Maria Cristina de Almeida Guimarães, vivida pela atriz Maria Fernanda Cândido, foi pendurada de um helicóptero militar para convencê-lo a colaborar. 

Mas Buscetta retornou no início dos anos 1980, em meio a uma guerra da máfia siciliana em que dois de seus filhos desapareceram para sempre e vários de seus parentes foram mortos. Ao ser preso novamente, Buscetta decidiu colaborar com uma grande investigação antimáfia liderada pelo magistrado Falcone. 

Protagonista

Mesmo sendo um personagem tão rico, nunca houve um filme ou série à sua altura, segundo o diretor. “Ele é um protagonista. Sua história merece ser contada”, disse Bellocchio, citando breves aparições do personagem em longas como Il Divo, de Paolo Sorrentino. “Ele nunca teve a importância e o espaço que merecia. Sempre lidaram com Buscetta de maneira superficial”, afirma o diretor. 

Marco Bellocchio ouviu dizer que em Corleone, a cidade onde de fato nasceram vários membros da máfia siciliana, mas que ficou famosa mesmo graças à família fictícia criada pelo escritor Mario Puzo e imortalizada por Coppola, bares e restaurantes tocam o tema de O Poderoso Chefão.

Em seu filme, o diretor preferiu utilizar uma antologia de árias, trechos de música clássica e canções populares. “Sem dúvida, há uma relação ambígua com a máfia na Itália”, observou o cineasta, acrescentando que também há turistas visitando o lugar onde Benito Mussolini nasceu, muitas vezes cantando hinos fascistas.

“Acho que, em respeito aos milhares de vítimas da máfia, não dá para brincar com isso. Não podemos subestimar esse fenômeno”, lembrou. “Mas a verdade é que, na Itália, a ideia do Estado, de respeito às leis, é muito fraca. Imagine que nosso ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi costumava dizer que aqueles que pagam impostos são bobos”, afirmou Bellocchio. 

Brasil e corrupção

Ao ser indagado se, tendo filmado no Brasil, ele achava que o nível de corrupção era comparável, o cineasta foi diplomático. “A Itália foi considerada um dos lugares mais corruptos do mundo. Talvez o Brasil seja mais corrupto, mas a verdade é que todos precisamos de mais sensibilidade. Precisamos lutar pelo bem comum e para isso precisamos de um Estado forte, que seja capaz de implementar as leis e seja guiado por uma boa dose de idealismo.” 

O diretor Marco Bellocchio acredita que, por isso, são importantes pessoas como o promotor Giovanni Falcone – que foi assassinado em um atentado à bomba pela máfia Corleonesi (um grupo dentro da Cosa Nostra) em 1992. A Cosa Nostra ainda existe. Mas não atua de forma tão chamativa. Prefere as sombras. Bellocchio cita uma frase do próprio Falcone para demonstrar seu otimismo: “A Cosa Nostra é um fenômeno humano. Então ela nasceu e vai morrer, não é invencível, por ser um fenômeno humano”.


Crítica de Luiz Zanin Oricchio: Longa aborda política pelo lado da sombra e suas relações com o crime 

O sonho de Tommaso Buscetta era morrer na cama, como cidadão pacato. Desejo difícil de realizar para um chefão da Cosa Nostra siciliana. A certa altura, tornou-se um “pentito”. Um arrependido que, em troca de vantagens, denuncia outros mafiosos. Um traidor, como diz o título do filme de Marco Bellocchio a ele dedicado. 

Na primeira parte, as cenas se alternam entre Palermo e Rio. O Buscetta “brasileiro” está casado com a socialite Maria Cristina (Maria Fernanda Cândido). Preso, é extraditado. Para proteger a família (e a si mesmo) decide colaborar com a lei. Quem o interroga é o juiz Giovanni Falcone (Fausto Russo Alessi). As conversas entre os dois são de antologia. Contêm aquele elemento de estranheza que Bellocchio introduz, com frequência, em tramas realistas. Como a dizer que o real é muito mais bizarro do que supõe nosso vão entendimento. 

Nos tribunais, Buscetta deve enfrentar, cara a cara, os homens que denunciou. Não são pessoas fáceis, comuns, de bom trato. São homens de poder, criminosos brutais, para os quais a lei do silêncio, a “omertà”, é sagrada. Metidos em jaulas, os membros da Cosa Nostra são desafiantes. Fumam charutos, gracejam com o juiz, hostilizam e ameaçam testemunhas. Uma anarquia. 

Outra cena a reter é quando Buscetta (extraordinário Pierfrancesco Favino) vai tomar as medidas para um terno e cruza, na alfaiataria, com um personagem do mundo político, Giulio Andreotti, monstro sagrado da Democracia Cristã e apelidado pelo povo de “Belzebu”. Buscetta e Andreotti se encontrarão também no tribunal, para uma acareação. 

Há muita melancolia neste filme, tom frequente em Bellocchio, é o preço de uma compreensão profunda da vida, de seus limites e contradições. Aborda a política pelo lado da sombra e, ao tratar da Cosa Nostra, nota as relações perigosas entre uma atividade e outra. Essa intersecção entre poder e crime é um traço histórico italiano, também presente, como sabemos, em outras sociedades.

 

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